Treinador de Aryna Sabalenka explica por que hábitos falham sob pressão

Jason Stacy explica por que hábitos e truques de produtividade não bastam para sustentar o desempenho sob pressão.

Tenista com os olhos vendados segura uma raquete diante de um céu com nuvens
Créditos: Magnific

Jason Stacy 7 minutos de leitura
Favoritar no Google

Aprendi a atuar sob pressão aos 13 anos, dormindo nas ruas, onde interpretar mal o ambiente podia custar muito mais do que uma refeição. Às vezes, era a diferença entre sobreviver à noite ou não.

Por isso, quando digo que boa parte do que a cultura da produtividade vende deixa de funcionar quando a hora decisiva chega, não estou apenas querendo ser do contra. Já vi isso falhar em em estádios, salas de reunião e em mim mesmo.

Construímos uma economia inteira em torno da otimização do desempenho. Rotinas matinais. Sprints de foco. Hábitos combinados em sequência. Banhos gelados. Exercícios de respiração. Grande parte disso é útil, e eu mesmo recorro a muitas dessas práticas.

O problema está na promessa implícita desses conselhos: se você incorporar hábitos certos em quantidade suficiente, estará preparado quando realmente importar.

Não estará. Não porque esses truques sejam fracos demais, e sim porque estão treinando uma camada completamente errada.

Pense em um celular. Hábitos e truques são aplicativos: úteis, agradáveis, fáceis de baixar. Mas todo aplicativo depende de um sistema operacional, e nenhum deles funciona quando o sistema por trás é fraco.

A pressão nunca testa seus aplicativos. Ela testa o sistema operacional. Sob pressão, você não se eleva ao nível dos aplicativos. Você cai para o nível do seu código. Todas as vezes.

Leia também: O que você está sacrificando para ser mais produtivo?

LUTADORES E GUERREIROS

Aryna Sabalenka posa ao lado de seu preparador físico, Jason Stacy, em uma quadra de tênis
Aryna Sabalenka ao lado do preparador físico Jason Stacy, autor deste artigo.

A maioria das pessoas de alto desempenho opera com uma de duas versões desse código.

A primeira é a do Lutador. Lutadores funcionam à base de urgência, adrenalina e controle. Avançam apesar da exaustão e permanecem em estado de alerta, porque baixar a guarda parece perigoso. São brutalmente eficazes até deixarem de ser.

A segunda é a do Guerreiro. Guerreiros se preparam para a pressão em vez de esperar que consigam crescer diante dela. Passam da calma à intensidade e voltam sem perder o fio da meada. Decidem quais limites não cruzarão antes que o momento chegue, para que a pressão nunca possa renegociar seu caráter em tempo real.

Lutadores reagem para sobreviver. Guerreiros se preparam para servir. Lutadores se esgotam; guerreiros resistem.

O melhor de um lutador é um pico: brilhante, impossível de repetir e caro, pago com sono, saúde e as pessoas que ama. O melhor de um guerreiro é um nível ao qual ele consegue retornar durante anos, mesmo sob um peso real.

Quero deixar uma coisa bem clara: o lutador não é o inimigo. Há momentos que exigem força bruta. O prazo. A crise. O round que você precisa vencer. É bom ter esse fogo à disposição. Mas estar disponível não é o mesmo que estar no comando.

Agora, olhe com honestidade para o que a indústria da otimização vende: trabalhe sem parar, aguente firme, ataque o dia, nunca diminua o ritmo.

Esse não é o sistema operacional de um guerreiro. É tecnologia de lutador, empacotada e monetizada. A cultura da produtividade transforma você em um lutador mais eficiente e depois se mostra surpresa quando você se despedaça.

Um modo de sobrevivência otimizado continua sendo um modo de sobrevivência. Podem me citar.

Sei disso porque fui um lutador muito antes de entender a diferença. Os instintos que me mantiveram vivo nas ruas — sempre tenso, observando tudo, sem nunca descansar — quase me custaram tudo quando as ruas já haviam ficado para trás.

Certa vez, treinei um executivo que parecia estar vencendo: reuniões em sequência, e-mails tarde da noite, viagens sem espaço para se recuperar. Ele carregava tudo isso na mandíbula tensa e na forma como tratava com rispidez as pessoas que amava.

É assim que um lutador se parece de terno. Quando me procurou, ele queria um truque. Mais um aplicativo contra o estresse. O que precisava era olhar para o que havia por baixo.

Leia também: Como o estresse prejudica nossa performance no trabalho?

O CÓDIGO DEPENDE DE TRÊS ELEMENTOS

Por baixo de tudo está seu código, que depende de energia, emoções e ambiente. Não se trata apenas de administrá-los, mas de alinhá-los.

Energia é a capacidade de acumular uma carga, mantê-la e liberá-la exatamente quando o momento exige. O lutador permanece no máximo até o tanque esvaziar e chama isso de comprometimento. O guerreiro trata a energia como um recurso que precisa ser direcionado.

Emoções dizem respeito à capacidade de reconhecer um sentimento sem permitir que ele escreva uma história permanente. A maioria das pessoas entrega o volante ao que quer que esteja sentindo. Minhas emoções podem embarcar comigo, mas sou eu quem dirige.

O ambiente inclui tanto os lugares em que você entra quanto aquele que carrega dentro de si: as conversas que permite, o conteúdo que consome, a história que conta a si mesmo enquanto todos observam. Você deixa o ambiente moldá-lo ou é você quem o molda?

Acerte nesses três pontos e o guerreiro terá uma base sólida. Negligencie-os e, sob pressão, você voltará diretamente ao lutador, porque é ele quem assume quando não há nada mais estável em que se apoiar.

O QUE A PRESSÃO REALMENTE REVELA

Uma coisa determina se essa base chegará a ser construída: o que você faz quando ninguém está olhando.

Cada promessa que cumpre para si mesmo é um depósito de autoconfiança. Cada promessa que quebra em silêncio é um saque. Nos momentos decisivos, esse saldo aparece.

Quando o risco aumenta e alguma parte de você não acredita na sua própria palavra, você se divide. Torna-se dois sistemas em conflito justamente quando precisa ser um só.

Essa confiança proporciona aquilo que todo fundador deseja, mas não pode comprar: liberdade sob pressão. Não a ausência de nervosismo, mas a ausência de dúvida sobre si mesmo.

A pressão não constrói seu caráter. Ela abre o arquivo e o lê em voz alta, diante de todos.

Portanto, a pergunta que a cultura da produtividade ensina você a fazer — “o que estou fazendo?” — é a pergunta errada.

A melhor seria: o que está operando por trás do que faço? Por onde minha energia escapa? Estou me preparando ou apenas me mantendo tenso? Qual é a mentira mais profunda que evito encarar ao me manter ocupado, abrindo um aplicativo depois do outro para nunca precisar olhar para ela?

Leia também: O que acontece com seu cérebro quando você está sob pressão

Em setembro de 2025, Aryna Sabalenka, então número 1 do mundo, entrou no Arthur Ashe Stadium para enfrentar uma adversária que a havia derrotado em Wimbledon dois meses antes. Eu a treinava havia sete anos e tinha acompanhado sua transformação de uma lutadora pura em uma verdadeira guerreira.

A torcida se lembrava de como ela costumava entrar em espirais e ficou à espera de que aquilo se repetisse. Não aconteceu. Aryna não se apressou. Não desmoronou. Defendeu o título do US Open.

Aryna Sabalenka ergue o troféu do US Open diante de luzes no estádio
Aryna Sabalenka ergue o troféu após defender o título do US Open em 2025.

Depois, os repórteres perguntaram sobre meu passado — as ruas, as artes marciais, a mentalidade de lutador — e presumiram que eu a tivesse ensinado a lutar com mais força.

A resposta dela me paralisou. Aryna disse que eu a havia ajudado a entender o que lutar de verdade significa.

Ela não venceu por encontrar uma nova marcha para se esforçar ainda mais. Tirou o lutador do banco do motorista e colocou o guerreiro ao volante. O fogo continuava ali, mais intenso do que nunca, mas finalmente estava direcionado.

Leia também: “Não vale tudo pelo resultado se a pessoa não estiver feliz”, diz a psicóloga de Rebeca Andrade

Portanto, mantenha os hábitos que funcionam para você. Apenas pare de acreditar que eles são a resposta. Eles são aplicativos. A pressão nunca testa seus aplicativos. Ela testa seu código.

Construa esse código, e o momento deixará de controlar você.


SOBRE O AUTOR

Jason Stacy é coach de alta performance, palestrante e autor de *The Pressure Code: How Elite Performers Align Their Energy, Emotions,... saiba mais