Você é mais previsível do que imagina – e isso é uma boa notícia

Estudos mostram que hábitos e traços de personalidade são mais estáveis do que imaginamos. Mas isso não significa que não possam evoluir

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Tomas Chamorro-Premuzic 5 minutos de leitura

Diga a alguém que ele é previsível e observe sua reação. É provável que a expressão mude imediatamente – talvez para decepção, talvez até para indignação.

Costumamos tratar a palavra como um insulto, sinônimo de alguém entediante, sem graça ou esquecível: o equivalente humano de uma baia de escritório, da música de elevador ou da decoração impessoal de um corredor de hotel.

Preferimos ser vistos como espontâneos, imprevisíveis, espíritos livres. Mas esse desejo é curioso, porque a previsibilidade é, na verdade, um dos principais ingredientes que tornam possíveis os relacionamentos e a convivência em sociedade.

Neurocientistas que estudam incerteza e antecipação argumentam que o cérebro funciona essencialmente como uma máquina de fazer previsões. A ansiedade, nessa perspectiva, surge quando essa máquina perde a capacidade de antecipar o que vem a seguir.

A menos que você seja um verdadeiro viciado em adrenalina, provavelmente prefere empregos previsíveis, relacionamentos previsíveis e uma vida previsível. Só evita admitir isso porque a previsibilidade parece sinônimo de monotonia. No fundo, porém, a maioria das pessoas prefere o conhecido ao desconhecido.

POR QUE VOCÊ É TÃO PREVISÍVEL (ISSO NÃO É SUA CULPA)

A psicologia da personalidade oferece uma explicação pouco lisonjeira, mas libertadora: você já possui um perfil relativamente bem definido. Ainda é possível alterar alguns detalhes ao longo da vida adulta, mas isso exige esforço considerável.

Uma ampla meta-análise de estudos longitudinais mostrou que a estabilidade dos traços de personalidade aumenta rapidamente durante a infância e a adolescência e tende a se estabilizar no início da vida adulta.

Em outras palavras: por volta dos 25 anos, sua posição relativa em características como extroversão ou conscienciosidade já está praticamente consolidada e muda muito pouco dali em diante.

Outra meta-análise, reunindo 362 estudos, concluiu que até mesmo a variabilidade da personalidade permanece surpreendentemente constante ao longo da vida. As pessoas não ficam, de forma consistente, mais parecidas nem mais diferentes umas das outras com o passar dos anos.

Há ainda a influência dos hábitos cotidianos. Em um estudo clássico baseado no acompanhamento da rotina de voluntários, pesquisadores descobriram que cerca de 43% dos comportamentos diários eram executados automaticamente, repetidos sempre no mesmo contexto e, muitas vezes, enquanto a pessoa pensava em algo completamente diferente.

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Em outras palavras, quase metade da vida acontece no piloto automático, guiada pelo ambiente muito mais do que por decisões conscientes.

Como resume um dos estudos, somos aquilo que fazemos repetidamente – e o que fazemos repetidamente costuma ser, em grande medida, o mesmo conjunto de ações nas mesmas situações.

O QUE ACONTECE QUANDO VOCÊ QUEBRA SEUS PADRÕES

Se somos tão previsíveis e as pessoas ao nosso redor já conhecem esses padrões, por que isso importa? Porque basta agir de forma diferente para perceber o quanto os outros dependiam dessa previsibilidade.

Quando você faz algo totalmente fora do seu comportamento habitual – o "bonzinho" que passa a dizer não, o atrasado que de repente chega cedo (e sóbrio) –, as pessoas não apenas atualizam sua opinião sobre você. Elas ficam desconcertadas.

No fundo, a maioria das pessoas prefere o conhecido ao desconhecido.

O modelo mental que construíram sobre quem você é deixa de funcionar, obrigando-as a gastar energia para reconstruí-lo. A segurança que tinham em relação ao seu comportamento sustentava suas expectativas, e você acabou de remover um dos pilares dessa estrutura.

É justamente por isso que a previsibilidade tem tanto valor. E é também por isso que quebrar um padrão pode ser tão poderoso quando feito de maneira intencional.

O mesmo gesto que obriga os outros a reverem a imagem que tinham de você é também o único capaz de transformar, de fato, sua reputação e sua própria identidade.

O PROBLEMA DO CULTO À AUTENTICIDADE

Passei boa parte da minha carreira defendendo que o atual culto à autenticidade pode funcionar, para muita gente, como uma armadilha.

O conselho "seja você mesmo" é excelente se você já for alguém como Nelson Mandela. Para a maioria das pessoas, porém, a frase "eu sou assim mesmo" acaba funcionando como uma desculpa extremamente eficiente para continuar com os mesmos defeitos.

Crédito: Nazan Akpolat/ iStock

É o gestor que usa a sinceridade como justificativa para ser grosseiro, ou o amigo que transforma sua falta crônica de pontualidade em sinal de "espírito livre". Nesses casos, autenticidade deixa de significar honestidade e passa a servir apenas para fixar maus hábitos como se fossem traços imutáveis da personalidade.

Mas quem você foi até agora não determina quem você continuará sendo. Seu passado e seu presente representam apenas o ponto de partida.

O aspecto mais interessante da previsibilidade é justamente este: padrões podem ser editados, desde que sejam encarados como um rascunho, e não como uma sentença definitiva.

MUDAR DEPENDE TAMBÉM DOS OUTROS

Mas existe uma condição importante: ninguém muda sozinho. Uma nova identidade não é proclamada; ela é construída em negociação constante com as pessoas ao redor.

Você experimenta um comportamento diferente, observa como os outros reagem, ajusta sua conduta e repete esse processo. A reputação funciona como um mecanismo de retroalimentação por meio do qual a identidade realmente se transforma.

Não basta anunciar que você agora é um bom ouvinte. É preciso ouvir de novo e de novo, até que as pessoas, aos poucos, revisem a imagem que fazem de você. A evolução pessoal depende justamente dessa atualização das expectativas alheias.

Quando você faz algo totalmente fora do seu comportamento habitual, as pessoas ficam desconcertadas.

A previsibilidade é algo desejável – nas rotinas, nos relacionamentos, nas instituições e, na maior parte do tempo, também em nós mesmos. Ela constitui a base silenciosa que permite planejar, confiar e estabelecer conexões.

A fantasia de que seríamos mais felizes vivendo como espíritos livres e completamente imprevisíveis costuma ser apenas uma narrativa sedutora. Quem convive com a gente já sabe que somos muito menos caóticos do que imaginamos.

Mas reconhecer o valor da previsibilidade não significa aceitar que nossos padrões atuais sejam os melhores possíveis. Somos criaturas de hábitos. A diferença é que também temos a rara capacidade de modificar esses hábitos.

O objetivo não é se tornar imprevisível. É se tornar previsivelmente melhor: transformar, de forma deliberada e com a ajuda das pessoas ao redor, o padrão que você repetirá pelo resto da vida em algo que realmente valha a pena repetir.

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Em outras palavras: seja previsível. Apenas certifique-se de que aquilo pelo qual você será previsível esteja sempre evoluindo.


SOBRE O AUTOR

Tomas Chamorro-Premuzic é diretor de inovação do ManpowerGroup, professor de psicologia empresarial na University College London e na ... saiba mais