“Botox de currículo”: a tentativa de parecer mais jovem para conseguir emprego
Receio de discriminação por idade leva candidatos a apagar datas, modificar cargos e editar perfis para aumentar as chances de conseguir entrevistas

Onde o Botox cosmético suaviza rugas, o chamado “Botox no currículo” faz o mesmo pelas candidaturas a vagas de emprego, fazendo com que pareçam mais jovens aos olhos dos possíveis empregadores. Isso pode significar remover ou editar o ano de formatura, os primeiros empregos, cargos de nível sênior e fotos de perfil — tudo para ocultar a idade real do candidato.
A prática é mais comum do que você imagina. Uma nova pesquisa sugere que quase metade dos candidatos a emprego está manipulando seus currículos para parecer mais jovem — e muitos estão recorrendo à inteligência artificial para fazer isso.
A pesquisa, realizada pela Use.AI, entrevistou 4.263 usuários da plataforma de IA que haviam se candidatado a uma vaga nos 12 meses anteriores. Mais de quatro em cada dez (42%) disseram ter removido ou alterado informações em seus currículos ou perfis no LinkedIn para esconder a idade ou parecer menos experientes.
As tentativas de parecer mais jovens foram mais comuns entre mulheres do que entre homens. Entre as mulheres com 45 anos ou mais, 53% fizeram essas mudanças no currículo, contra 35% dos homens na mesma faixa etária.
Esses candidatos disseram que alteraram seus perfis por medo do etarismo nos processos de contratação, apontando tanto os recrutadores humanos quanto os agentes de IA como possíveis responsáveis pela discriminação etária.
Entre aqueles que modificaram os currículos para parecer mais jovens, 56% acreditavam que recrutadores humanos descartariam suas candidaturas, enquanto 38% achavam que sistemas de triagem baseados em IA fariam o mesmo.

Em meio a essas preocupações alimentadas pela IA, quase três quartos (72%) das pessoas que modificaram seus currículos usaram inteligência artificial para isso. No entanto, como os entrevistados já eram usuários da Use.AI, o índice de utilização de IA pode não refletir o comportamento da população em geral.
Muitos dos que tentaram se apresentar como mais jovens afirmaram que a estratégia deu resultado: 43% disseram ter conseguido mais entrevistas de emprego depois de editar seus currículos ou perfis no LinkedIn, enquanto apenas 10% relataram ter recebido menos convites para entrevistas.
O ETARISMO NO AMBIENTE DE TRABALHO
O medo dos candidatos de sofrer discriminação por idade não é infundado. Uma pesquisa recente da AARP constatou que dois terços dos trabalhadores com 50 anos ou mais já presenciaram ou sofreram etarismo no ambiente profissional.
Entre eles, 91% acreditam que a discriminação contra trabalhadores mais velhos é comum. Dentro desse grupo, 36% afirmam que ela é muito comum. Quase um quarto dos entrevistados (22%) também relatou sentir que está sendo pressionado a deixar o emprego por causa da idade.
Na prática, a discriminação etária no trabalho assume muitas formas. Muitos profissionais com mais de 50 anos relataram situações sutis de preconceito:
- ser estereotipados como menos familiarizados com tecnologia do que os colegas mais jovens (33%)
- ser vistos como resistentes a mudanças (24%)
- ter suas realizações e conhecimentos ignorados (20%)
- virar alvo de piadas sobre diferenças geracionais (21%)
- perder oportunidades de treinamento para funcionários mais jovens (20%)
Carly Roszkowski, vice-presidente de programas de resiliência financeira da AARP, afirmou que os resultados da pesquisa são relevantes para todos os trabalhadores, porque o etarismo é “a única discriminação pela qual todos nós vamos passar”.
“Fazemos parte de um ambiente e de uma sociedade obcecados pela juventude”, disse Roszkowski. “Precisamos nos esforçar de verdade para derrubar essas barreiras e esses estereótipos entre todas as gerações.”