Exaustão emocional, perda de interesse por assuntos relacionados ao trabalho e queda no desempenho. Ainda que se manifeste de diferentes formas, a Síndrome de Burnout pode ser caracterizada por esses três elementos. O termo burnout significa combustão completa, reduzir a cinzas ou, ainda, como descreve o psiquiatra Marco Abud, a expressão também remete a um palito de fósforo queimando.

A síndrome ocorre, de acordo com o médico, quando o estresse produtivo, que é a resposta a demandas e prazos a serem cumpridos, se transforma em um estresse tóxico: o circuito de alerta da pessoa não desliga, o looping de pensamentos e emoções é constante e, em determinado momento, o corpo é consumido por isso e fica exausto. Foi somente após o segundo episódio de burnout que Juliana Ferraz, sócia e diretora de novos negócios e RP do Holding Clube, resolveu mudar seu estilo de vida e de gestão. A primeira crise ocorreu há nove anos, quando ainda não se falava tão abertamente sobre o assunto. “Achava que estava com depressão, mas fui diagnosticada com burnout. Não fazia pausas nem nas festas de final de ano. Sentia sono, não conseguia me expressar direito e não contestava opiniões com as quais discordava, porque não tinha ânimo para isso”, conta.

Juliana Ferraz, sócia e diretora de novos negócios e RP do Holding Clube (Crédito: Divulgação)

Há três anos – e dois empregos depois – veio a segunda síndrome de burnout, só que desta vez mais forte. Juliana conta que a necessidade pessoal de ser protagonista em cada projeto da empresa a motivava a trabalhar além do que deveria. O resultado foram repetidas crises de ansiedade ignoradas, até ela sentiu dor no peito e achou que se tratava de um infarto. Depois de receber um atestado de afastamento de cerca de quarenta dias do psiquiatra, foi obrigada a repensar seu estilo de vida. “Demorou muito para eu entender. Fui tirada do escritório à força e a partir dali comecei a fazer terapia e a me reconstruir”. Em agosto de 2018, quando foi contratada pelo Holding Clube pelo presidente da empresa, Victor Oliva, Juliana ainda não se sentia preparada para voltar ao mercado corporativo, mas contou com apoio dos novos colegas para fazer a transição. “A Brené Brown fala sobre a importância mostrar a vulnerabilidade no trabalho. E então eu, que achava que era a Mulher-Maravilha, tive certeza de que não era insubstituível – ninguém é.”

COMO PREVENIR

Segundo Dr. Abud, ao perceber os sintomas, a pessoa deve focar em algumas ações. “É mais fácil falar do que fazer, mas existem três pilares para se prevenir: se acalmar, diminuir o estado de alerta e se recarregar. Prestar atenção na rotina de sono, fazer alguma atividade física e experimentar técnicas de mindfulness podem ajudar em um primeiro momento”. No dia a dia, durante o expediente, o médico afirma que ajuda o funcionário ter demandas muito claras e definidas, para que tenha controle sobre o que deve ser feito. O espírito colaborativo entre os colegas pode trazer sensação de amparo, fazendo com que a pessoa não sinta que está passando por aquilo sozinha. “O cérebro tem uma área muito pequena, responsável por 5% do tamanho do cérebro, que resolve problemas. Quanto mais pouparmos essa área, menos cansaço mental vamos sentir”, explica. Para evitar esse destaque, ele indica:

– Nunca ficar muito tempo em jejum;

– Evitar executar várias tarefas ao mesmo tempo;

– Interromper uma tarefa e executar outra que exige ainda mais esforço.

Com o home office, não misturar as tarefas corporativas e domésticas parece quase impossível. Um exercício que pode ser posto em prática é a divisão do dia em blocos de tarefas parecidas, diz Abud: um horário para fazer tarefas da casa, um período reservado para o pensamento criativo e outro para responder a mensagens de e-mail e WhatsApp.

PAPEL DAS LIDERANÇAS
“Se eu fosse sua chefe há 15 anos, é bem capaz que você me odiasse. Não estava preocupada com o entorno, queria ver somente o resultado, porque cresci vivendo dessa forma”, relata Juliana. Trabalhando no Holding Clube há quase três anos e sócia da companhia desde o ano passado, a executiva acredita que é papel das lideranças redesenhar a relação entre trabalho e vida pessoal sob a perspectiva de que a pessoa física vem antes da pessoa jurídica. “Executivos e profissionais devem saber que é preciso equilibrar a vida profissional e pessoal, que afinal estão interligadas. E nenhum funcionário deve ter vergonha de dizer que não tem condições de assumir mais tarefas ou admitir que não sabe alguma coisa”, diz.

Dr. Marco Abud (Crédito: Divulgação)

Na visão do Dr. Abud, quanto mais alto o cargo, maior a responsabilidade do gestor. “Os líderes devem estar atentos a sinais precoces de burnout, especialmente entre os que apresentam maior risco”. Esse grupo, de acordo com o médico, são colaboradores com perfil de overachievers, que estabelecem expectativas brutalmente irreais para si mesmas. Esse comportamento pode levar a resultados positivos durante algum tempo, mas com frequência causam o efeito contrário: redução de eficiência. Ele também cita as seguintes medidas que podem ser adotadas pelas lideranças:

– Especifique ao máximo as metas para cada funcionário;

– Crie um ambiente que estimule o respeito mútuo e o apoio entre os colegas;

– Estabeleça atividades que envolvam a participação de todos;

– Dê horário para pausas que permitam descanso da tela.

SOBRE A AUTORA

Isabella Lessa é redatora-chefe da Fast Company Brasil