Cansados do ghosting, designers estão enviando currículos cada vez mais absurdos
Informações em copos de café, no formato de sanduíche e até de relógio: designer australiano tenta de tudo para não passar despercebido

Entre empresas que ignoram os candidatos a vagas e outras que anunciam "vagas fantasma" (inexistentes), pode parecer mais difícil do que nunca encontrar um emprego. Por isso, quem está procurando trabalho às vezes faz qualquer coisa para chamar a atenção de um empregador.
Enquanto alguns candidatos enviam um portfólio cuidadosamente preparado com suas conquistas, uma carta de apresentação personalizada ou uma mensagem direta para qualquer um disposto a ouvir no LinkedIn, Felix Toohey, um designer de Melbourne, está adotando uma abordagem mais ousada.
O australiano entrega pessoalmente seu currículo às empresas nas quais tem interesse em trabalhar, à moda antiga. Mas vai um passo além, reimaginando como um currículo pode se apresentar em sua forma física.
Em uma ocasião, ele montou uma bandeja de café com copos de papel, cada um com uma “arte de latte” em papel que identificava cada seção de um currículo, como “formação acadêmica” ou “experiência profissional”. Dentro de cada copo havia um papel impresso com as informações relevantes para cada seção.
Em outra, uma caixa que parecia uma lancheira, na verdade continha sanduíches falsos feitos de espuma artesanal, com o currículo dele no lugar da alface e do tomate.
“EU QUERIA SER IMPOSSÍVEL DE IGNORAR”
Esses exemplos fazem parte da série “Ghosting Busters”, de Toohey, na qual ele cria “currículos cada vez mais excêntricos” para se destacar diante dos empregadores e os compartilha no Instagram. Até o momento, ele já criou 10 currículos diferentes.
Embora o projeto tenha a ver com sua área de atuação como designer, Toohey afirma que teve a ideia enquanto lutava para se firmar em um setor cada vez mais competitivo.
“Quando me formei na faculdade, não estava preparado para o quão difícil seria o setor criativo”, conta à Fast Company. “No início, trabalhei em uma agência de design como estagiário mal remunerado, antes de ser demitido sem cerimônia.”
Desde então, ele trabalhou em várias agências de design e chegou até a lançar sua própria marca de roupas sustentáveis. Mas conseguir um cargo estável como diretor de arte tem sido um caminho cheio de desafios, muitas vezes marcado pelo silêncio.
“No começo, eu estava me candidatando online, mas depois de mais de 200 inscrições e uma entrevista, percebi que precisava mudar minha maneira de pensar sobre como conseguir um emprego”, diz Toohey. “Eu queria ser impossível de ignorar.”
CANDIDATURAS HIPER ESPECÍFICAS
Cada currículo é elaborado sob medida para uma agência específica, sobre a qual ele pesquisa antes de iniciar o processo de design. Por exemplo, ele descobre no quê a agência é especializada e também extrai pistas sobre seu nome, chegando, por fim, à decisão sobre qual meio utilizar.
“O importante é se dedicar 100% à ideia, por mais boba que seja”, diz Toohey. “Usar o nome da agência como ponto de partida para ideias é sempre por onde começo. Mais recentemente, acabei criando braços robóticos ou cortando minha carta de apresentação com laser para transformá-la em uma lápide.”



Os esforços adicionais de Toohey ainda não lhe renderam um emprego em tempo integral. No entanto, a Canva fez uma parceria com ele para um vídeo patrocinado intitulado “Ghosting Busters”, com o objetivo de promover sua plataforma. O vídeo mostra um currículo gigante impresso em uma tela, utilizando um dos modelos do Canva.
Mesmo assim, Toohey atraiu um número considerável de visualizações nas redes sociais. Seu vídeo sobre a lancheira tem mais de 386 mil visualizações no Instagram, enquanto outro currículo baseado em um dossiê investigativo – no qual ele imprimiu “evidências” de suas qualificações como se estivesse sendo monitorado por um detetive particular – alcançou mais de 181 mil visualizações.
quem está procurando trabalho às vezes faz qualquer coisa para chamar a atenção de um empregador.
Mas, além dos projetos divertidos, os currículos têm sido uma exploração de um cenário cada vez mais desafiador para quem busca emprego. O próprio Toohey compartilhou suas preocupações sobre os obstáculos que teve de superar e as práticas corporativas comuns que muitas vezes prejudicam os novos talentos.
“Foi chocante vivenciar em primeira mão a prevalência dos ‘empregos-fantasma’”, diz ele, sobre vagas anunciadas que, na realidade, não existem. “Outra coisa que percebi é que muitas empresas alteram a descrição do cargo depois de preenchê-lo. Perdi muitas oportunidades por causa disso. Isso desperdiça muito tempo e tem sido um verdadeiro golpe para a minha autoconfiança.”
Embora alguns candidatos temam que ter de se esforçar ainda mais eleve um padrão já inatingível, Toohey vê isso como um passo necessário para garantir o emprego dos seus sonhos.
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“Os empregos que estou buscando são difíceis de conseguir porque é um privilégio poder exercê-los”, diz ele. “É claro que há pessoas que, ao verem meus currículos, sentem que precisam se esforçar da mesma forma, mas essa maneira de agir é apenas a minha conclusão.”
“Não preciso necessariamente conseguir o emprego dos meus sonhos”, acrescenta Toohey. “Mas vou dar o meu melhor.”