Carreira em transformação: como fazer mudanças sem perder a direção
A carreira em transformação não é uma tendência passageira, é a nova realidade permanente

"Nada é permanente, exceto a mudança", já dizia Heráclito de Éfeso, há mais de 2,5 mil anos. O filósofo pré-socrático construiu sua filosofia sobre a ideia do fluxo constante, pensamento que influenciou gerações de pensadores que vieram depois dele. Para pensar em carreira para 2026, a doutrina de Heráclito parece mais atual do que nunca.
Os números confirmam a inquietação do mercado: 40% dos profissionais brasileiros manifestaram interesse em mudar de área, segundo pesquisa realizada em 2025 pela Catho. Já o Fórum Econômico Mundial indica que 22% dos empregos no mundo devem passar por uma transformação radical nos próximos anos.
A pergunta, portanto, não é mais "se" sua carreira vai mudar, mas "quando" e, principalmente, "como você vai se preparar?".
Nos últimos cinco anos, atuando como mentor de executivos e facilitando workshops para jovens lideranças, tenho notado o quanto as pessoas estão inquietas com suas escolhas profissionais. Os pedidos de ajuda com transições de carreira estão cada vez mais frequentes. Alguns me procuram com muita clareza e intencionalidade, outros chegam completamente desorientados. E dá para compreender o porquê desse cenário.
Alguns fatores levam a esse cenário de incertezas e anseio por mudanças: Transições que antes levavam 30 anos para se concretizar agora acontecem em seis meses.
A pandemia abriu os olhos dos profissionais sobre como a vida pessoal e a profissional podem se entrelaçar. A IA já é uma realidade em nossas rotinas diárias, redefinindo não apenas o que fazemos, mas como fazemos, em um mundo cada vez mais acelerado.
E é justamente essa aceleração que nos coloca diante do grande dilema da carreira contemporânea: o conflito entre especialização e versatilidade.
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De um lado, ouvimos que precisamos ser especialistas para nos destacar, pois quanto mais profundo seu conhecimento em uma área específica, mais valioso você se torna. De outro, o mercado pede profissionais "canivete suíço", multidisciplinares e capazes de transitar entre diferentes contextos e conectar pontos aparentemente desconexos.
Esse conflito se intensifica quando olhamos para como a inteligência artificial está transformando o jogo. A IA está tocando a forma como construímos times, especialmente ao eliminar cargos de entrada.
ESPECIALISTA OU GENERALISTA?
As posições mais afetadas pela IA hoje são justamente aquelas que tradicionalmente serviam como uma escola de formação para quem entrava no mercado. Era enquanto estagiários, assistentes e analistas que desenvolvíamos uma série de competências fundamentais que nos ajudam a construir experiência e julgamento crítico.
Hoje vejo profissionais chegando a posições seniores, especialistas e gestores com deficiências básicas: não sabem articular ideias claramente, não conduzem reuniões com eficácia, não organizam demandas de ponta a ponta. Por quê?
Parte da resposta está na eliminação precoce desses desafios formadores. Quando delegamos tudo para as ferramentas de IA, perdemos as oportunidades cruciais de desenvolver o julgamento crítico que só vem da prática deliberada.

Estamos virando commodities intercambiáveis, substituíveis até por agentes automatizados. Seguir pilotando nossas carreiras vai demandar cada vez mais estratégia para compreender onde está a nossa singularidade e onde podemos melhorar nossa produtividade.
Luana Teófilo, convidada do podcast Tirando O Crachá, foi confrontada com essa tensão de forma brutal. Ao apresentar sua trajetória diversificada em uma entrevista de emprego, ouviu do entrevistador: "quem faz de tudo não é bom em nada." A pessoa levantou e saiu da sala.
A frase, dura e direta, expõe um viés ainda presente em muitas organizações: a incapacidade de reconhecer o valor das habilidades transferíveis.
COMO SE PREPARARPARA UMA MUDANÇA DE CARREIRA
A história de Luana expõe apenas um lado da moeda. O outro lado é igualmente arriscado: especializar-se profundamente em algo que está se tornando obsoleto pode ser igualmente perigoso. Como está tudo muito instável no mundo, é difícil fazer projeções precisas a respeito de quais áreas realmente estão mais seguras ou não.
A resposta não é escolher um ou outro, mas desenvolver o que podemos chamar de "profundidade com amplitude": ser excelente em algo específico enquanto mantém versatilidade suficiente para se adaptar.
o grande dilema da carreira, hoje, é o conflito entre especialização e versatilidade.
Na prática, significa ter um "spike", uma expertise inegociável que te torna referência enquanto cultiva competências adjacentes que ampliam sua capacidade de adaptação.
Como observou Adalberto Silvestre, convidado do do mesmo podcast, “o mercado tem dificuldade de lidar com esse novo mundo, com a complexidade e a variedade de coisas. Não sabe nem precificar isso, não sabe quanto vale, como testar esse conhecimento”.
Então, como equilibrar esse paradoxo?
Trabalhando com dezenas de profissionais em transição, identifiquei três pilares que separam quem navega bem dessas mudanças de quem naufraga:
1. Autoconhecimento
Não se trata apenas de saber seus pontos fortes e fracos. É entender profundamente seus drivers e o que te move de verdade. Qualidade de vida, plano de carreira claro ou condições salariais? Essas são as três principais motivações que levam 40% dos profissionais a buscar mudanças.
Mas aqui está o pulo do gato: autoconhecimento deve determinar sua estratégia. Faz sentido para você ser especialista? Ou você tem paixão por transitar entre diferentes áreas?
2. Leitura crítica do mercado
Conhecer a si mesmo não basta. É preciso conectar suas ambições pessoais com a realidade do mercado de forma crítica, não romântica. Isso significa entender não apenas onde estão as oportunidades hoje, mas antecipar quais competências devem permanecer relevantes.
Nem sempre suas competências estão apenas na história que o seu currículo mostra. O segredo é saber identificar e articular essas habilidades transferíveis.
3. Aprendizado intencional
Aqui está a grande virada de chave, e não se trata apenas de aprendizado contínuo genérico, mas de ser estratégico sobre o que você delega e o que preserva como oportunidade de crescimento. Sim, use IA para automatizar relatórios e otimizar processos. Mas não delegue aquilo que constrói seu julgamento crítico.
Hoje posso automatizar relatórios porque já desenvolvi as competências para inspecionar o trabalho. Mas continuo fazendo manualmente o que é relevante para meu desenvolvimento pessoal.
O aprendizado que importa hoje não é apenas técnico. Soft skills como pensamento crítico, resiliência, inteligência emocional e capacidade de adaptação são as competências que nenhuma IA consegue replicar. E ironicamente, são essas habilidades que desenvolvemos quando enfrentamos a "fricção produtiva" no trabalho, quando não delegamos demais para a IA.

Nem sempre existe final feliz nas transições ou nos movimentos de crescimento de carreira. Isso não é romantismo, é realidade. Alguns profissionais se frustram, descobrem que a mudança não trouxe o que esperavam, precisam recalibrar novamente. Outros encontram seu lugar, mas depois de meses ou anos de tentativas, ajustes e aprendizados difíceis.
O que diferencia quem navega bem essas transformações de quem naufraga não é sorte ou talento excepcional. É a capacidade de monitorar sinais antes do desgaste total se instalar. É não esperar chegar ao ponto de ruptura para começar a se movimentar.
Para você que está nessa encruzilhada, minha provocação é simples:
- Mapeie suas habilidades transferíveis: liste não apenas o que está no seu currículo formal, mas as competências que desenvolveu em situações adversas, projetos pessoais, experiências fora do eixo corporativo tradicional.
- Avalie seu fit com o mercado de forma realista: converse com profissionais que já fizeram transições similares, entenda os gaps reais (não os imaginados), teste suas hipóteses em projetos menores antes de grandes saltos.
- Preserve suas "fricções produtivas": identifique quais desafios no seu trabalho atual, mesmo que difíceis, estão construindo competências críticas. Não delegue demais e mantenha contato direto com problemas complexos que forçam seu crescimento.
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A carreira em transformação não é uma tendência passageira, é a nova realidade permanente. Hoje temos ferramentas, dados e comunidades para nos ajudar a navegar essas mudanças com mais inteligência.
E agora? Você vai esperar a mudança te encontrar despreparado ou vai começar a se preparar hoje, de forma estratégica e intencional?