Como “9 to 5” transformou Dolly Parton na voz das mulheres trabalhadoras
Da igualdade salarial às creches no trabalho, o filme de 1980 antecipou mudanças, mas também mostrou problemas que persistem até hoje

Em meados dos anos 1970, no auge do movimento feminista, um grupo de mulheres em Boston se reuniu para criar um fórum em que trabalhadoras da classe operária pudessem trocar histórias sobre suas experiências no escritório. À medida que comparavam suas vivências, perceberam que tinham muito em comum.
“Elas tinham muitas histórias para contar sobre receber salários menores do que os homens, sobre chefes que pegavam suas ideias e levavam o crédito por elas”, diz Ileen DeVault, professora de história do trabalho na Escola de Relações Trabalhistas e Industriais da Universidade Cornell.
Mas elas também queriam usar a crescente solidariedade entre si para melhorar sua posição no ambiente profissional. Começaram a tentar organizar trabalhadores de colarinho brando e secretárias, um movimento que acabou se consolidando em um sindicato chamado SEIU Local 925.
Essa campanha de organização chamou a atenção de Jane Fonda e inspirou o filme "Como Eliminar seu Chefe" (9 to5), de 1980, um sucesso estrondoso estrelado por Dolly Parton (em seu primeiro grande papel no cinema) ao lado de Fonda e Lily Tomlin.
A cantora e compositora escreveu e interpretou a famosa música tema do filme, que ganhou vários prêmios Grammy e se tornou uma espécie de hino das mulheres trabalhadoras.
No filme, Parton interpreta Doralee Rhodes, secretária de um chefe sexista que frequentemente a assedia. Ela se une a outras duas funcionárias da empresa: uma recém-contratada que acabou de passar por um divórcio (Fonda) e uma veterana que teve uma promoção negada (Tomlin).
Depois de se livrarem do chefe – por meio de uma trama de sequestro que mergulha na fantasia –, elas passam a enfrentar todos os problemas do ambiente de trabalho, garantindo salários iguais para os colegas e até criando uma creche.
“O que foi realmente impressionante é que eles pegaram histórias muito reais de mulheres no trabalho”, diz DeVault. “Ao colocá-las em uma comédia, conseguiram alcançar muito mais pessoas do que se tivessem feito um documentário sobre o que estava acontecendo com as mulheres no mercado de trabalho.”

O filme se baseou nas experiências reais das funcionárias administrativas que lutavam por melhores condições de trabalho (com exceção, é claro, do sequestro). A personagem de Parton, em particular, representava um estereótipo comum na época, o da secretária atraente, e o subvertia.
“Era muito importante para a autoimagem do chefe ter alguém naquela posição que fosse bonita e tivesse sex appeal”, diz DeVault.
“Isso significava que havia muito assédio, tanto por parte de outras pessoas [quanto] de seus chefes naquela época... você vê no filme que [Parton] é, de muitas maneiras, um objeto sexual, mas também é uma mulher inteligente, esperta e real, de quem depende o funcionamento do escritório”, analisa a especialista.
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"Como Eliminar seu Chefe" foi visionário em alguns aspectos. Ajudou, por exemplo, a disseminar a ideia de oferecer creches no próprio local de trabalho. Mas também evidencia o quão pouco as coisas mudaram para as trabalhadoras nas décadas seguintes.
“Provavelmente assisto ao filme a cada poucos anos, meio que por acaso”, diz DeVault. “Sempre me impressiona quanto ele é engraçado e o quanto acho que é fiel à vida real. Todas essas coisas ainda estão acontecendo.”
O filme evidencia o quão pouco as coisas mudaram para as trabalhadoras nas décadas seguintes.
Embora os salários das mulheres tenham aumentado, a desigualdade salarial em relação aos homens e mulheres persiste até hoje, especialmente para mulheres negras e de outras minorias raciais. Anos depois do movimento #MeToo, elas continuam enfrentando assédio sexual e discriminação no ambiente de trabalho.
Mulheres ainda são preteridas em promoções e perdem oportunidades profissionais quando têm filhos, ou acabam sendo expulsas do mercado de trabalho.
Talvez Parton tenha resumido melhor a situação ao escrever a música “9 to 5”: “Você pensaria que eu mereço uma promoção justa / Quero crescer, mas o chefe parece não deixar / Juro que às vezes aquele homem está querendo acabar comigo.”