Dinheiro não é tudo: as regras do “mercado invisível” onde o preço não tem vez
De atendimento preferencial a promoções no trabalho, regras ocultas definem quem ganha e quem fica de fora

Economistas costumam pensar o mundo como um conjunto de mercados. Em cada um deles, pessoas tentam obter algo que desejam. Mas existe um problema central: a escassez.
Raramente há quantidade suficiente do que as pessoas querem para simplesmente distribuir tudo a todos. Por isso, precisamos de algum critério para decidir quem terá acesso a um recurso escasso – e quem ficará de fora.
Na maioria das vezes, essa decisão é tomada pelo preço. À medida que o preço sobe, muitas pessoas concluem que pagar tanto não vale a pena e saem do mercado. Essa relação é tão previsível que os economistas a chamam de “lei da demanda”.
Mas nem toda escassez é resolvida por preços. Muitos recursos são distribuídos por mercados invisíveis – sistemas que não usam o preço como principal critério para decidir quem recebe o quê. Eles são mais difíceis de enxergar e mais complexos de navegar, mas estão por toda parte.
Às vezes, o preço até existe, mas é baixo demais para resolver a escassez. A turnê Eras Tour, de Taylor Swift, vendeu ingressos a um preço médio de US$ 204, com alguns custando apenas US$ 49. Nesses valores, muita gente teria comprado qualquer ingresso disponível.
O mesmo acontece com restaurantes disputadíssimos, onde conseguir uma mesa é quase impossível, ou com brinquedos que viram febre – mais recentemente, os Labubus, da Pop Mart – e desaparecem das prateleiras.
Em outros casos, decidimos simplesmente não usar o preço como critério. Benefícios públicos como moradia social, vagas em escolas públicas e livros de biblioteca não são vendidos para quem paga mais. Também não deixamos que o preço determine quem recebe um órgão para transplante, acesso ao último leito hospitalar ou a um ventilador pulmonar.
Mesmo assim, a escassez é resolvida: algumas pessoas conseguem ingressos, reservas, produtos, benefícios governamentais ou cuidados médicos vitais e outras, não. Esses são os mercados invisíveis que nos cercam, cada um com suas próprias regras.
É PRECISO APRENDER AS REGRAS DOS MERCADOS INVISÍVEIS
O primeiro passo para ter sucesso em mercados invisíveis é entender como eles funcionam. Um dos modelos mais comuns é o princípio do “primeiro a chegar, primeiro a ser atendido”. Mas, na prática, esse princípio assume formas bem diferentes.
Em alguns casos, ele funciona como uma corrida. Para conseguir uma reserva em um restaurante com três estrelas Michelin, por exemplo, é preciso vencer uma disputa em tempo real no momento em que as vagas são liberadas.
Em outros, o sistema é baseado em filas ou listas de espera. Pessoas que precisam de um transplante de rim entram em listas que podem durar anos. Quanto mais tempo aguardam, maior a prioridade quando um órgão se torna disponível.

Esse mesmo princípio vale para visitar a Capela Sistina, comprar roupas em lançamentos limitados ou passar pela segurança do aeroporto. Todos esses sistemas recompensam quem chega mais cedo – ou quem espera por mais tempo.
Outro conjunto de regras usa sorteios para decidir quem ganha acesso. O programa de empregos de verão para jovens da cidade de Nova York oferece 100 mil vagas todos os anos, mas precisa recusar dezenas de milhares de candidatos. A solução é uma loteria.
Há ainda mercados organizados por sistemas centralizados, nos quais você precisa ranquear suas preferências. É assim que Nova York decide a alocação de alunos nas escolas públicas, que médicos são designados para residências e como funcionam as admissões universitárias na China.
Já mercados de namoro, trabalho e escolas privadas operam de outra forma. São os chamados mercados do “escolha-me”: você escolhe uma pessoa, uma empresa ou uma instituição, mas só há correspondência se também for escolhido.
TALVEZ VALHA A PENA SE CONTENTAR COM A PRATA
Depois de entender as regras do jogo, é possível traçar estratégias mais eficazes. Uma das mais comuns nos mercados invisíveis é o que chamo de “se contentar com a prata”. A lógica é simples: agir como se algo menos desejado – que não é sua verdadeira primeira opção – estivesse no topo da sua lista.
cada um dos mercados invisíveis que nos cercam tem suas próprias regras.
Imagine uma corrida por reservas em um restaurante. Você quer jantar lá em um sábado à noite de novembro. As reservas serão liberadas em 1º de outubro, às 10h. Quando o sistema abrir, em qual horário você deve clicar primeiro?
Sua escolha ideal talvez seja às 19h30. Apostar direto nesse horário é o que chamo de “ir atrás do ouro”. O problema é que essa opção costuma ser a mais disputada, o que aumenta bastante o risco de não conseguir nada.
Se contentar com a prata significa tratar um horário menos popular – como 17h – como sua prioridade. Se jantar mais cedo é melhor do que não jantar, essa estratégia pode aumentar muito suas chances, já que menos pessoas estarão disputando esse horário.
JOGAR EM DOBRO E ENTRAR EM VÁRIAS LISTAS
Outra estratégia comum é o “double dipping”, ou seja, participar do mesmo mercado mais de uma vez ao mesmo tempo. Isso acontece com frequência em loterias. Se um cinema sorteia pares de ingressos, faz sentido que você e um amigo se inscrevam separadamente, dobrando as chances de ganhar.
Permitir esse tipo de estratégia pode até tornar o sistema mais eficiente. Pessoas mais motivadas tendem a investir mais esforço, e o mercado acaba favorecendo quem valoriza mais o recurso em disputa.
Algo semelhante ocorre com a estratégia multilista. Em cidades com poucas vagas em creches, muitas famílias entram em listas de espera. Inscrever-se em várias instituições ao mesmo tempo aumenta a chance de garantir uma vaga quando ela for necessária.
VOCÊ TAMBÉM É UM DESIGNER DE MERCADOS
Nem todos os mercados invisíveis são criados por terceiros. Alguns estão totalmente sob seu controle, como o do seu tempo e da sua atenção, ou a forma como recursos são distribuídos dentro de casa.
Você decide quais e-mails responder rapidamente, para quem retornar ligações e o que ignorar. Em casa, escolhe como distribuir dinheiro, o controle remoto da TV ou até a sobremesa das crianças. Nesses casos, você define as regras do mercado.
Como designer, vale priorizar três princípios:
- Eficiência: evitar desperdícios e alocar recursos para quem mais os valoriza.
- Equidade: distribuir recursos de forma justa entre os participantes.
- Facilidade: permitir que as pessoas sejam honestas sobre o que querem, sem transformá-las em reféns de processos exaustivos.
As melhores regras são aquelas que chegam o mais perto possível de equilibrar esses três objetivos.
Em alguns mercados, é possível até “criar” mais do recurso escasso por meio das prioridades. Em certos países, quem se registra como doador de órgãos ganha prioridade caso venha a precisar de um transplante no futuro.
Durante a pandemia de Covid-19, profissionais de saúde na linha de frente tiveram prioridade no acesso a leitos e ventiladores. Esses sistemas ajudam a usar melhor os recursos disponíveis.
A mesma lógica vale para o seu tempo e sua atenção. Reservar uma parte deles para você mesmo – inclusive para autocuidado – pode fazer com que, no fim das contas, haja mais para todos.
Este artigo foi publicado na revista digital Next Big Idea Club e reproduzido com permissão. Leia o artigo original.