Doença mental: como falar sobre ela no ambiente de trabalho

Crédito: Norbert Kowalczyk/ kate.sade/ Scott Webb/ Unsplash

Jimmy Horowitz 6 minutos de leitura

Jimmy Horowitz é vice-presidente de negócios e operações da NBC Universal, onde atua há 30 anos. Em seu trabalho, ele supervisiona os negócios globais dos estúdios de cinema e televisão, das redes de televisão e do serviço de streaming Peacock. Algumas de suas realizações recentes incluem a aquisição dos direitos de propriedade intelectual de “O Exorcista”, que atraiu o diretor Christopher Nolan após uma parceria de longa data com a Warner Bros. Em 2019, tudo parecia estar indo bem para Horowitz no trabalho, mas, na intimidade, estava lutando contra uma depressão. Depois de esconder isso de seus colegas por algum tempo, ele decidiu compartilhar sua experiência, com a intenção de apoiar outras pessoas que pudessem estar com dificuldades, e de ajudar a empresa a lidar com questões de saúde mental. A seguir, Horowitz nos explica por que decidiu abrir o jogo.

Há uma percepção generalizada de que, se você trabalha no lado criativo do show business, é comum passar por isso. No campo das artes, há essa vontade de falar sobre saúde mental. Há mais aceitação. Mas não acho que essa questão tenha sido abordada no lado comercial da indústria, porque nesse espaço impera a expectativa de que você seja mais fiel às regras. Trabalhando no mundo corporativo, um truísmo é que “ninguém fala sobre assuntos pessoais”. Essa cultura foi conveniente para mim na maior parte do tempo. Não sentia necessidade de ser excessivamente aberto sobre minha vida privada. Pensava que, quando as pessoas faziam isso, tiravam os holofotes do seu trabalho.

Jimmy Horowitz (Crédito: NBCUniversal/ Divulgação)

Tenho dito que 2020 não foi o pior ano da minha vida, 2019 foi. Depressão não era algo com que eu lidava até então, embora tenha enfrentado coisas como o medo do fracasso durante minha faculdade de direito, porque venho de uma família de alto desempenho. Em 2019, minha mãe faleceu e eu estava lidando com outras questões na vida pessoal. Em algum momento, a maneira com que eu estava lidando com tudo não deu conta da situação. 

Não sei como descrever, mas depressão, para mim, é quando você começa a se sentir diferente. Não me sentia bem. Como a depressão é muito estigmatizada e há muita vergonha associada a ela, você não sabe o que fazer. Quando isso acontece, ou quando o que está tentando fazer para melhorar as coisas – tomar medicamentos ou consultar um terapeuta – não está funcionando, sua ansiedade piora e você se sente mais sozinho e com mais medo. Consegui encontrar alguém para me ajudar, mas isso me deu uma sensação devastadora de compaixão por pessoas que não entendem o que estão atravessando ou não conseguem ajuda. É muito difícil apenas “continuar vivendo” nessas condições. 

Durante a pandemia, começamos a perceber que nossa força de trabalho enfrentava uma outra epidemia na NBCUniversal: os sintomas eram tristeza, esgotamento, estresse, ansiedade, solidão e depressão. Foi desenfreado. Nossa indústria teve que se reinventar diversas vezes. Nosso negócio foi constantemente desafiado. Vivenciamos a onda de demissões voluntárias. Tanta gente começou a desistir. Essas questões vieram à tona em um momento em que estávamos tendo muitas conversas sobre diversidade, equidade e inclusão. Eu só pensava: como podemos nos considerar um local de trabalho inclusivo se há um grande segmento da nossa força de trabalho lidando com problemas de saúde mental, mas sem ser realmente incluído nesta conversa?

Quando o que está tentando fazer para melhorar as coisas não está funcionando, sua ansiedade piora e você se sente mais sozinho e com mais medo.

Quando o RH estava procurando um patrocinador executivo para as iniciativas de saúde mental da empresa, eu ainda não havia compartilhado minhas experiências pessoais com ninguém. Mas esse esforço era algo que eu acreditava ser capaz de liderar. Então, primeiro falei com o RH em particular. Agora, já falo sobre esse assunto abertamente com a empresa toda.

Estou nesse ramo há muito tempo e sempre tive colegas, mas não tenho muitos amigos verdadeiros. Quando estava me sentindo melhor, contei à minha chefe, Donna Langley, que estava com depressão e queria ajudar a liderar as iniciativas de saúde mental da empresa. Trabalho com ela há mais de 20 anos, então ela é uma amiga, mas também é minha chefe. Ela me apoiou.

Mas conversei com ela em um momento em que eu estava bem. Se abrir com o seu chefe quando você não está bem é uma coisa bem diferente. Precisamos descobrir como convencer as pessoas dentro de nossa empresa de que também não há problema em se abrir com alguém no trabalho quando você não está se sentindo tão bem.

Quando contei a Langley, ela disse: “Eu percebi que havia algo acontecendo com você, só não sabia como abordar isso”. Assim que conversei com ela, me senti melhor. Eu gostaria de ter dito alguma coisa antes. Passei muito tempo com medo de ser descoberto. Eu não queria que meus chefes pensassem: “Bom, talvez não devêssemos dar mais trabalho ao Jimmy, porque ele está passando por um momento difícil.” Essa é a pior coisa que poderia acontecer para alguém como eu. Eu posso ser um negociador e ainda ser super compassivo – isso não é uma fraqueza.

Precisamos descobrir como convencer as pessoas de que não há problema em se abrir com alguém no trabalho quando você não está se sentindo bem.

Não há nada mais assustador do que ter uma doença mental grave no trabalho porque, por muito tempo, não havia brechas para falar sobre isso. Não havia protocolos. Como empresa, temos programas nos quais os funcionários podem obter ajuda. Mas, se você é um executivo sênior, a última coisa que quer é compartilhar suas lutas pessoais com a gerência, porque você simplesmente não sabe como eles vão reagir. A verdade é que nenhum de nós foi treinado. Não há um livreto sobre como responder. E a situação de cada um é diferente.

Acabamos de fechar uma parceria com a dra. Emily Anhalt, psicóloga clínica que tem uma organização chamada COA. Ela conduziu alguns seminários e webinários em toda a empresa. Uma coisa que ela nos ensinou foi: se você está tirando um dia de folga para sua saúde mental, pode dizer em voz alta que está tirando um dia para sua saúde mental. Se diz isso a todos e sem vergonha, você normaliza.

Quando a liderança sênior está disposta a se abrir sobre suas lutas, ela pode fazer com que outros funcionários sintam que é seguro fazer o mesmo. Essa atitude te humaniza como líder. Estamos em um momento histórico em que é preciso ser compassivo e atencioso – além de ser motivado e de continuar se preocupando com os resultados finais líquidos. Não precisa ser uma coisa ou outra.


SOBRE O AUTOR

Jimmy Horowitz é vice-chairman de negócios e operações da NBCUniversal. saiba mais