Efeito bumerangue: depois de demitir por causa da IA, empresas voltam a contratar
Empresas que demitiram funcionários para apostar em IA descobrem que recontratar custa mais e que humanos seguem essenciais para gerar valor

Nos últimos dois anos, um tipo de anúncio corporativo se tornou quase rotina: a empresa demite funcionários, atribui a decisão à inteligência artificial e segue em frente. A fórmula era simples, agradava investidores e rendia manchetes fáceis.
O problema é que essa narrativa não correspondia totalmente à realidade – e as consequências começam a aparecer.
Empresas que substituíram trabalhadores por IA estão descobrindo que a conta não fecha. Segundo a CNBC, empregadores que promoveram demissões em nome da inteligência artificial agora estão revertendo essas decisões.
Cerca de metade das empresas que trocaram pessoas por IA acaba enfrentando um efeito bumerangue: precisam recontratar funcionários, muitas vezes gastando mais do que teriam desembolsado para manter a equipe original.
A chamada "grande demissão da IA", ao que tudo indica, está se transformando na "grande recontratação da IA".
O CASO MAIS FAMOSO DE SUBSTITUIÇÃO POR IA NÃO FUNCIONOU
A Klarna se tornou o principal símbolo da substituição de trabalhadores por IA. A fintech anunciou que seu chatbot faria o trabalho de 700 atendentes de suporte ao cliente e geraria US$ 40 milhões em lucro anual. A notícia ganhou enorme repercussão. O que recebeu muito menos atenção foi o que aconteceu depois.
O chatbot conseguia lidar com um grande volume de atendimentos, mas falhava quando precisava interpretar situações complexas, acalmar clientes irritados ou exercer o tipo de julgamento que transforma uma experiência ruim em fidelização.
Em entrevista à Bloomberg, o CEO da Klarna, Sebastian Siemiatkowski, reconheceu o erro. "Infelizmente, o custo acabou se tornando um fator excessivamente dominante nessa decisão. O resultado foi uma queda na qualidade. Investir na qualidade do atendimento humano é o caminho para o futuro."
Hoje, a Klarna voltou a contratar atendentes humanos para lidar justamente com os casos mais delicados.
A empresa não é exceção. Uma análise da Bloomberg indica que muitas perdas de empregos atribuídas à IA no Reino Unido, na verdade, foram provocadas por fatores econômicos mais amplos. Em muitos casos, a narrativa da inteligência artificial serviu como justificativa para cortes que já estavam planejados.
O resultado foi uma percepção distorcida sobre o impacto da IA no emprego, enquanto os trabalhadores absorviam o custo de uma história que não refletia os fatos.

Passei 15 anos pesquisando o futuro do trabalho. Já vi empresas cometerem esse erro antes com automação, terceirização internacional (offshoring) e transformação digital.
A sequência costuma ser a mesma: cortar pessoal rapidamente, prometer demais sobre a tecnologia, subestimar o valor das capacidades humanas eliminadas e passar os anos seguintes tentando reconstruí-las.
QUEM FEZ CERTO NUNCA PRECISOU DEMITIR
As histórias mais interessante não são as das empresas que voltaram atrás, mas das que nunca cometeram esse erro.
Quando o Ingka Group, controlador da maior parte das lojas da Ikea, treinou um chatbot para responder por 47% dos atendimentos ao cliente, surgiu uma decisão importante: a empresa poderia ter demitido 8,5 mil funcionários.
Em vez disso, requalificou esses profissionais para atuarem como consultores de design de interiores, investindo justamente nas habilidades humanas que a IA não consegue reproduzir. O resultado foi uma receita de € 1,3 bilhão em 2024, com projeção de que esse negócio represente 10% do faturamento total até 2028.
Em muitos casos, a narrativa da IA serviu como justificativa para cortes que já estavam planejados.
Os funcionários deixaram de ser vistos como um custo a ser eliminado e passaram a ser o ativo que torna a inteligência artificial realmente valiosa.
A IBM chegou à mesma conclusão por um caminho diferente. Após adotar IA de forma agressiva, a empresa percebeu que reduzir contratações para cargos de entrada criava uma escassez de talentos três a cinco anos depois.
Agora, a companhia está triplicando a contratação de profissionais da geração Z para funções iniciais, redesenhando esses cargos para a era da IA em vez de eliminá-los. Os empregos mudaram. As pessoas continuaram sendo necessárias.
Leia mais: IA elimina cargos corporativos, mas deixa trabalhadores essenciais para trás
A Amazon Web Services segue a mesma lógica. O CEO Matt Garman anunciou a contratação de 11 mil estagiários e recém-formados e afirma que a AWS emprega hoje mais desenvolvedores de software do que há dois anos, apesar dos enormes avanços das ferramentas de programação baseadas em IA.
Essas ferramentas aumentaram a produtividade dos desenvolvedores, não eliminaram a necessidade deles.
IA PODE GERAR ESCASSEZ DE MÃO DE OBRA
Durante o evento VivaTech, em Paris, Jeff Bezos fez uma previsão que pode se mostrar acertada. Segundo ele, a IA não vai eliminar empregos, mas poderá criar escassez de trabalhadores, porque a capacidade humana de inventar novos produtos, serviços e problemas para resolver é praticamente ilimitada – e sempre haverá alguém para construir essas soluções.
A própria história das revoluções tecnológicas reforça essa visão. A automação industrial não acabou com o emprego. Ela mudou onde os empregos estavam e elevou o nível de qualificação exigido para muitas funções.

Os dados começam a confirmar essa tendência. O Global AI Jobs Barometer 2026, da PwC, analisou mais de um bilhão de anúncios de emprego em seis continentes e concluiu que as empresas que utilizam melhor a IA lideram tanto em produtivida- de quanto em geração de empregos.
As 20% empresas mais expostas à IA registraram crescimento de produtividade do trabalho de 163% em relação a 2018 (quase cinco vezes a média) e ampliaram seu quadro de funcionários em 52%, contra 36% das organizações menos expostas à tecnologia.
Em outras palavras, usar IA de forma eficiente não reduz necessariamente a força de trabalho. Em muitos casos, ela a amplia.
Isso não significa que não existam desafios. Uma pesquisa da GMAC mostra que cargos de entrada ocupados pela geração Z, especialmente nos setores de tecnologia e manufatura, enfrentam riscos reais de substituição. A resposta não é ignorar o problema, mas fazer o que IBM e Ikea fizeram: redesenhar as funções, em vez de eliminar as pessoas.
Leia mais: O fim do cargo júnior
A principal lição das empresas que estão obtendo melhores resultados é clara, embora seja mais difícil de executar do que apenas anunciar uma rodada de demissões. A inteligência artificial produz mais valor quando amplia as capacidades humanas, em vez de tentar substituí-las.
As organizações que trataram seus funcionários como um ativo, e não como um obstáculo, construíram algo muito mais valioso do que ganhos de eficiência: desenvolveram resiliência, fortaleceram a lealdade das equipes e preservaram um conhecimento institucional que nenhum chatbot consegue imitar.