Empatia é uma habilidade essencial na era da IA

A inteligência artificial processa informações em segundos, mas não substitui a capacidade humana de escutar, criar confiança e fazer alguém se sentir reconhecido.

Ilustração de duas figuras humanas coloridas frente a frente, separadas por formas geométricas.
Na era da inteligência artificial, escuta, reconhecimento e confiança ganham importância na liderança.

Harvey Deutschendorf 4 minutos de leitura
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A inteligência artificial consegue reunir informações, reconhecer padrões, responder perguntas e escrever relatórios em uma velocidade impossível para uma pessoa. Isso muda o valor de diferentes competências no trabalho. Ser a pessoa com mais informações na sala perde importância quando uma ferramenta pode consultar e analisar um volume muito maior de dados em poucos instantes.

Existe, porém, uma dimensão da liderança que não pode ser reduzida ao processamento de informações: a capacidade de se importar com as pessoas e fazer com que elas se sintam ouvidas.

Doug Noll, autor do livro Empathy Leadership, define a empatia como “a capacidade aprendida de observar e nomear a experiência emocional de outra pessoa a partir do ponto de vista dela”.

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Advogado que passou a atuar como mediador de conflitos, Noll trabalhou com Laurel Kaufer entre 2010 e 2020 na formação de pessoas encarceradas na Califórnia. O programa usava a empatia como ferramenta para reduzir conflitos e ajudar na regulação emocional.

“A empatia costuma ser tratada como uma ideia vaga sobre os sentimentos de outra pessoa”, afirma Noll. “Ela não é vaga. É uma habilidade neurofisiológica precisa, que qualquer pessoa pode aprender e aplicar.”

“Simular uma resposta emocional não equivale a sentir empatia nem a assumir responsabilidade por uma relação.”

A experiência ajuda a mostrar por que a empatia continua relevante no trabalho. Estas são quatro dimensões que líderes não deveriam terceirizar para a IA.

1. RECONHECIMENTO

Uma mensagem pode estar tecnicamente correta e, ainda assim, não fazer alguém se sentir valorizado.

Imagine uma funcionária que completa 20 anos em uma organização e recebe do gestor um e-mail de agradecimento. Ao ler a mensagem, descobre que o texto foi produzido por inteligência artificial.

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O aniversário profissional foi reconhecido, mas o gesto perdeu parte de seu significado. O problema não está apenas no uso da ferramenta. Está na decisão do gestor de não dedicar tempo nem palavras próprias a uma relação construída ao longo de duas décadas.

“A tecnologia pode ampliar a capacidade de uma equipe, mas não resolve sozinha as relações que determinam como o trabalho acontece.”

Reconhecimento exige atenção ao contexto, à trajetória e à pessoa. Uma ferramenta pode ajudar a organizar a mensagem, mas cabe ao líder demonstrar que conhece aquele profissional e compreende o valor de sua contribuição.

2. RELACIONAMENTOS

O trabalho também é um espaço de formação de vínculos. Colegas constroem relações que podem ultrapassar o ambiente profissional e continuar mesmo depois que deixam a empresa.

A IA oferece informações, mas o uso responsável desses dados depende da compreensão das circunstâncias, das histórias compartilhadas e das diferenças entre as pessoas. Esses vínculos também podem ajudar os profissionais a encontrar propósito e significado no que fazem.

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3. CONFIANÇA

A confiança ajuda a construir ambientes nos quais as pessoas se sentem seguras para expressar opiniões, discordar e assumir riscos. Também permite que uma equipe teste ideias sabendo que sua liderança dará apoio caso os resultados não saiam como planejado.

“Uma mensagem pode estar tecnicamente correta e, ainda assim, não fazer alguém se sentir valorizado.”

Ela demora a ser construída e pode desaparecer rapidamente. Surge aos poucos, quando as pessoas compartilham informações, observam como o outro reage e percebem que aquela relação é segura.

Esse processo tem uma dimensão emocional. Sistemas de IA podem reproduzir uma linguagem acolhedora e reconhecer sinais associados a determinadas emoções. Na visão do autor, porém, simular essa resposta não equivale a sentir empatia nem a assumir responsabilidade por uma relação.

4. COMPREENSÃO

A empatia ajuda a compreender como nossas atitudes afetam outras pessoas. Também permite reconhecer que colegas podem interpretar a mesma situação de maneiras diferentes.

Para liderar, não basta ter acesso à melhor tecnologia. É preciso entender como se conectar com as pessoas, conquistar confiança e criar condições para que elas desenvolvam suas capacidades.

Sem essas bases, até as ferramentas mais avançadas terão alcance limitado. A tecnologia pode ampliar a capacidade de uma equipe, mas não resolve sozinha os conflitos e as relações que determinam como o trabalho acontece.

AS MEMÓRIAS QUE A IA NÃO CRIA

Quando as pessoas olham para a própria trajetória profissional, provavelmente não se lembram apenas das ferramentas que utilizaram. Lembram-se de líderes que perceberam nelas um potencial que ainda não enxergavam e das relações que construíram com colegas.

As tecnologias mudam. As experiências de confiança, reconhecimento e amizade deixam marcas mais duradouras. Em um ambiente de trabalho cada vez mais mediado por inteligência artificial, essa talvez seja uma das responsabilidades mais importantes de quem lidera.


SOBRE O AUTOR

Harvey Deutschendorf é especialista em inteligência emocional, escritor e palestrante. Para responder ao teste de inteligência emocion... saiba mais