Estratégias para manter uma cultura ética no trabalho híbrido

Trazer a discussão sobre ética para o primeiro plano pode ajudar a manter uma cultura na qual as pessoas buscam sempre fazer a coisa certa

Crédito: rawpixel.com

Richard Bistrong 4 minutos de leitura

Os números preocupam: a pressão da força de trabalho, a rotatividade e o esgotamento atingiram níveis altos. Some a isso questões econômicas e as recentes demissões de profissionais de alta performance e temos um cenário potencialmente perigoso.

Funcionários, por se sentirem distantes de seus colegas de trabalho e quererem provar seu valor “virtual” aos supervisores, podem fazer escolhas éticas duvidosas, priorizando seu próprio sucesso em vez da integridade da organização.

As primeiras pesquisas sobre o impacto do trabalho remoto na má conduta profissional estão apenas começando a revelar o problema. De acordo com um relatório da Vault Platform, 51% dos funcionários apresentaram má conduta desde o início da pandemia.

Criar e manter uma cultura ética na empresa não é tarefa fácil, mas torna-se ainda mais desafiador em um ambiente de trabalho remoto ou híbrido. Como ajudar a equipe a fazer escolhas éticas, mesmo quando o líder não está por perto?

Uma pesquisa apontou que 51% dos funcionários apresentaram má conduta desde o início da pandemia.

Trabalho como consultor de ética e compliance para grandes empresas e conheço três estratégias que funcionam. Com essas técnicas, líderes podem se concentrar em manter a ética viva e forte, ao mesmo tempo em que desfazem as barreiras entre trabalhadores presenciais, híbridos e remotos, que podem resultar em má conduta mais tarde.

CONVERSE SOBRE ÉTICA COM NOVOS FUNCIONÁRIOS

É ótimo que o RH e o compliance desempenhem um papel importante em enfatizar as práticas éticas como parte do processo de integração. Mas isso é apenas o começo da jornada, não o fim. Com tanta rotatividade e remanejamento, mais funcionários estão passando a trabalhar remotamente, o que só aumenta a sensação de isolamento.

Realizar reuniões online individuais e estruturadas, com cada novo contratado e seu supervisor direto, para falar especificamente sobre a importância da “forma como o negócio é conduzido” demonstra que a ética é responsabilidade de todos.

Por exemplo, um cliente meu, gerente de compras, compartilha a seguinte mensagem com todos os seus novos trabalhadores remotos:

a quem as pessoas recorrem quando enfrentam um dilema ético? A seus superiores.

“Olá, nos preocupamos bastante com sucesso e com integridade. Então, gostaria de reforçar que, se precisar de qualquer suporte ou ajuda com algum dilema ético, pode entrar em contato. Se tiver a menor dúvida sobre qualquer escolha, quero que se sinta à vontade para me ligar. Não vou julgar ou pensar menos de você. O fato de ligar para perguntar algo apenas fará com que eu te respeite mais.”

Essas trocas virtuais são fundamentais. Afinal, a quem as pessoas recorrem quando enfrentam um dilema ético? A seus superiores. E, quando as conversas sobre práticas comerciais éticas vêm da narrativa corporativa – e não apenas do compliance –, geram um impacto muito maior na força de trabalho.

PROPONHA SOLUÇÕES E PERGUNTE “O QUE VOCÊ FARIA?”

Como líder, você deve conversar regularmente com seus funcionários sobre os desafios que podem surgir em suas rotinas diárias. Onde podem cortar custos? O que as pressões comerciais podem estar comprometendo?

Conversar frequentemente sobre esses desafios dá a oportunidade para que, juntos, façam um brainstorm de respostas e reações hipotéticas, tornando muito mais provável que ajam de acordo com seus valores e explorando situações de risco e tentações do mundo real.

Um cliente meu costuma marcar almoços híbridos com seus funcionários (enviando pizzas para as casas dos trabalhadores remotos) para falar sobre ética, sempre junto com um colega de compliance e de negócios. Essa prática aproxima equipes de todas as localidades, divisões e funções.

Cada almoço explora situações diversas muitas das quais já ocorreram dentro da própria empresa , mas mantendo o anonimato. Ao final ele propõe a pergunta: “o que você faria [nesse caso]?”.

Criar uma cultura ética na empresa torna-se ainda mais desafiador em um ambiente de trabalho remoto ou híbrido.

Promover essas conexões além das fronteiras híbridas cria um senso de companheirismo mais amplo, o que leva a uma maior abertura e aproxima colegas de outras equipes. Quando os funcionários mantêm conexões e vínculos uns com os outros, é muito menos provável que façam qualquer coisa que possa quebrar a confiança ou causar danos.

USE O FEEDBACK PARA IDENTIFICAR SINAIS DE PROBLEMAS

Em um ambiente de trabalho híbrido, os líderes precisam de feedback frequente e honesto para identificar possíveis problemas. Aplicativos de feedback em tempo real podem fornecer dados úteis para entender como os funcionários se sentem em relação a ter que tomar decisões éticas.

Esses feedbacks ajudam a descobrir onde seus funcionários precisam de suporte e onde é necessário implementar mentorias, para proteger a ética que você trabalhou tanto para consolidar.

Preservar a ética e a integridade, em um ambiente onde estamos física e emocionalmente desconectados pode ser complicado.

Trazer essas discussões para o primeiro plano, propor situações hipotéticas para seus funcionários e fazer uso inteligente dos dados para identificar tendências preocupantes são atitudes que, podem ajudá-lo a se adaptar em tempo real e manter uma cultura na qual os funcionários buscam sempre fazer a coisa certa.


SOBRE O AUTOR

Richard Bistrong é o CEO da Front-Line Anti-Bribery, uma empresa de consultoria com foco em desafios sobre questões anti-suborno, étic... saiba mais