Geração Z perde a paciência com teatro corporativo
Paródias no TikTok revelam o cansaço de jovens profissionais com jargões, falsidade e a cultura corporativa cada vez mais desgastante

Igas, Charles, Corey e Ryan são quatro personagens de uma popular série de esquetes no TikTok em que, por meio do Zoom, discutem como “realinhar proativamente” a “sinergia interfuncional” e garantir uma “execução mais precisa” diante de ameaças iminentes, como uma “redução das oportunidades” - também conhecida como o fim de fevereiro.
As paródias, publicadas pela empresa de recrutamento Verso Jobs, são propositalmente recheadas de absurdos. Todos os personagens são interpretados por um único funcionário, Seamus Harvey, que usa diferentes filtros faciais e despeja o máximo possível de jargão corporativo.
Elas fazem sucesso porque parecem reais - especialmente entre integrantes da geração Z e millennials em fase intermediária da carreira, que reclamam nas redes sociais sobre seus “incômodos corporativos”.
Você pode até não conhecer o termo, mas provavelmente reconhece a sensação de desconforto quando um colega “retoma” uma conversa por e-mail, marca você no Slack apenas para parecer ocupado ou quando um gerente muda discretamente de comportamento ao perceber que alguém de cargo superior entrou na reunião.
O DESGASTE COM A CULTURA CORPORATIVA
O que parece apenas rejeição a jargões e comportamentos artificiais, na verdade revela uma impaciência crescente com a cultura performática no trabalho, em um momento em que a segurança no emprego parece cada vez menor.
O custo de vida segue em alta, um emprego estável já não garante a compra da casa própria e muitos profissionais enfrentam uma crise de carreira precoce. Diante disso, cresce o número de trabalhadores que não querem mais sustentar esse tipo de ambiente.
QUANDO O TRABALHO DEIXA DE PARECER HUMANO
Alex Lovell, psicólogo político e vice-presidente do OC Tanner Institute, afirma que esse desconforto surge quando o trabalho deixa de parecer humano e passa a ser apenas uma performance.
Segundo ele, revirar os olhos diante de jargões ou mudanças de postura é quase uma reação automática à falta de confiança. As pessoas percebem quando todos estão mais preocupados em controlar a própria imagem do que em serem honestos sobre a realidade.
Lovell destaca que a rejeição a egos inflados e expressões corporativas sempre existiu. O que mudou foi o nível de tolerância das pessoas.
COMUNICAÇÃO QUE NÃO CONVENCE
Carla Bevins, professora associada de comunicação em gestão empresarial da Universidade Carnegie Mellon, afirma que a linguagem corporativa enfraquece a confiança quando intenção e mensagem não combinam.
Para ela, se quem escuta precisa traduzir o que foi dito, a comunicação já fracassou. Quando tudo soa como encenação, as pessoas simplesmente se desligam.
MERCADO INSTÁVEL E DESÂNIMO PROFISSIONAL
Justin, criador de conteúdo que usa o nome Professor Corporate nas redes sociais e mantém um emprego tradicional, afirma que muitos profissionais ainda sabem jogar o jogo político no escritório, mas já não se importam o suficiente para isso.
Com mercado de trabalho instável, avanço da inteligência artificial e demissões em massa mesmo em grandes empresas, cresce uma sensação permanente de insegurança. Muitos trabalhadores se perguntam se conseguirão pagar aluguel, financiamento ou sustentar a família.
Nesse cenário, demonstrar entusiasmo em reuniões cheias de frases prontas se torna cada vez mais difícil.
Justin afirma que se incomoda especialmente com colegas que buscam promoção de forma exagerada e sem sutileza. Outro comportamento que gera rejeição, segundo ele, é quando profissionais agem acima do cargo que ocupam.
Para ele, quando um funcionário júnior ou gerente intermediário tenta agir como diretor, mandando nos outros ou demonstrando empolgação excessiva por temas sem importância, isso cria uma fachada fácil de perceber.
A AUTENTICIDADE GANHOU FORÇA NA PANDEMIA
A autenticidade se tornou um valor ainda mais importante no ambiente de trabalho durante a pandemia e o avanço do home office.
Lovell afirma que aquele período funcionou como uma espécie de “revolução do pijama”, quando profissionais apareciam em reuniões sem maquiagem ou roupa formal e perceberam que isso pouco afetava suas carreiras.

O Relatório Global de Cultura 2026 da OC Tanner mostrou que, quando funcionários percebem líderes e colegas como transparentes e responsáveis, a confiança na empresa aumenta cinco vezes. O engajamento e a satisfação com uma comunicação direta também crescem no mesmo nível.
Com a volta presencial ao escritório em muitas empresas, parte dessa honestidade parece ter perdido espaço. Para muitos trabalhadores, isso transmite a sensação de retrocesso.
QUANDO A REPULSA LEVA À DEMISSÃO
Para algumas pessoas, o desgaste com o ambiente corporativo chega ao ponto de abandonar completamente a carreira tradicional.
Sam Loeffler trabalhou em cinco empresas durante os vinte e poucos anos em cargos de gestão de marcas. Bem-sucedida e ganhando cerca de US$ 180 mil por ano aos 30 anos, ela aparentava estar no auge profissional.
Mas, quanto mais avançava, mais via o mundo corporativo como estressante e artificial. Pediu demissão sem ter outro emprego garantido e ficou oito meses afastada.
Depois disso, construiu uma nova rotina. Hoje atua como coach e criadora de conteúdo com o nome Sam Beyond Corporate, ajudando pessoas a buscar caminhos fora do universo empresarial, além de trabalhar em uma fazenda de azeite orgânico no interior da Califórnia.
Loeffler relata que, em conversas com colegas atuais, todas disseram sentir que podem ser elas mesmas no novo ambiente - algo que ela nunca sentiu no mundo corporativo.
Embora sair do emprego sem plano imediato não seja realidade para todos, histórias como a dela se multiplicam nas redes sociais. Criadores relatam demissões voluntárias ou se definem como “desistentes corporativos”.
UM PONTO DE VIRADA NO TRABALHO
Nem todos podem abandonar seus cargos. Muitos permanecem onde estão até surgir algo melhor, acumulando insatisfação silenciosamente.
Ainda assim, cresce a percepção de que as pessoas querem mais do que estabilidade financeira. Eles querem propósito, honestidade e coerência entre discurso e prática.
O aumento da aversão ao mundo corporativo pode indicar um ponto de virada. A tolerância à hipocrisia diminui, e profissionais mais jovens, principalmente, mostram menos disposição para fingir que tudo vai bem quando não vai. Seja mudando de vida ou publicando vídeos sarcásticos nas redes sociais, a reação já começou.