Homens usam mais IA para negociar salário

Apesar da popularização da IA, mulheres seguem mais cautelosas com seu uso, especialmente em decisões sobre carreira e salário

homens consultam IA mais do que mulheres na hora de negociar salários
Crédito: Steve A. Johnson/ Unsplash,

Pavithra Mohan 3 minutos de leitura

Há sinais claros de que a adoção da inteligência artificial ocorreu em ritmos diferentes entre homens e mulheres, impulsionada, em grande parte, por um nível maior de ceticismo por parte delas.

Essa diferença vem diminuindo ao longo do tempo. Um estudo recente do Pew Research Center mostrou que homens e mulheres agora usam chatbots de IA em proporções semelhantes, ao contrário do que acontecia há dois anos, quando os homens relatavam utilizá-los com uma vantagem de 11 pontos percentuais.

Mas os dados indicam que eles ainda recorrem a essas ferramentas com mais frequência do que elas, especialmente no ambiente de trabalho.

Uma pesquisa recente da Lean In mostra que os homens têm mais probabilidade de usar IA diariamente no trabalho, e um novo relatório publicado na semana passada indica que essa diferença aumenta quando o assunto é carreira e negociação salarial.

Segundo os resultados de uma pesquisa realizada pela consultoria de carreira Ruth, em parceria com o instituto Harris Poll, existe uma diferença considerável no grau de confiança de homens e mulheres na IA para ajudar em conversas sobre remuneração.

Entre os 2.131 trabalhadores entrevistados, 63% dos homens disseram já ter usado IA para obter orientações sobre salário, contra 42% das mulheres.

as mulheres têm maior probabilidade de sofrer os impactos da transformação de empregos que a IA está provocando.

Os homens também demonstram confiar mais na IA quando se trata de negociações salariais: 59% afirmaram que consultariam a tecnologia para decidir quanto pedir em um novo salário ou aumento, enquanto apenas 44% das mulheres fariam o mesmo.

De forma geral, eles parecem mais abertos à ideia de seguir conselhos da IA. Cerca de 57% dos homens entrevistados disseram confiar nas recomendações da tecnologia tanto quanto nas de um especialista humano, em comparação com 43% das mulheres.

Buscar orientação profissional na IA já é relativamente comum: 45% dos adultos afirmam fazer isso. Ainda assim, apenas cerca de um terço dos entrevistados disse recorrer à tecnologia especificamente para obter aconselhamento sobre negociações salariais.

Como destaca o relatório, esse desequilíbrio pode acabar perpetuando os mesmos vieses que sustentam a desigualdade salarial entre homens e mulheres e dificultam a negociação de remuneração por parte delas.

MULHERES JOVENS SÃO AS MAIS DESCONFIADAS

Ao mesmo tempo, muitos trabalhadores parecem compreender que a IA costuma adotar um tom de autoridade, independentemente de estar ou não correta. Mais de 70% dos entrevistados disseram já ter percebido que a tecnologia transmite muita confiança mesmo quando suas recomendações estão erradas.

Ainda assim, muitos parecem ignorar que a IA está longe de oferecer orientações neutras. Pesquisas anteriores já mostraram que chatbots recomendam salários menores para mulheres e pessoas negras.

Mesmo assim, mais de três quartos dos entrevistados pela Ruth disseram não saber que a IA pode produzir conselhos de carreira enviesados. Além disso, 43% afirmaram não acreditar que raça ou gênero possam ter influenciado as recomendações que receberam.

Quem menos se surpreende com esse potencial de viés? As mulheres jovens. Mais de um quarto das entrevistadas desse grupo afirmou não estar "nem um pouco surpresa" com as conclusões sobre preconceitos nos sistemas de IA.

Esse padrão aparece de forma consistente em diferentes pesquisas, independentemente da idade ou do perfil dos participantes: mulheres tendem a ser mais cautelosas na adoção da IA e costumam enxergar a tecnologia de forma mais negativa, em parte por preocupações éticas ou por considerá-la uma ameaça.

Leia mais: Por que as mulheres são mais relutantes em adotar IA no trabalho

A diferença de gênero também pode ajudar a explicar essa resistência. Mulheres recebem menos incentivo para usar IA do que seus colegas homens, embora existam evidências de que alguns grupos femininos – por exemplo, empreendedoras – possam até se beneficiar mais da tecnologia quando a adotam.

Ainda assim, é difícil criticá-las por essa cautela em relação ao futuro, especialmente porque elas têm maior probabilidade de sofrer os impactos da substituição e da transformação de empregos que a inteligência artificial já está provocando.


SOBRE A AUTORA

Pavithra Mohan é redatora da Fast Company. saiba mais