Inteligência artificial e a eliminação de empregos: 7 dicas para passar por essa onda no mercado

Para quem busca o primeiro emprego e está disposto a se adaptar e repensar o início da carreira, o sucesso ainda é possível

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Lilian Campos 6 minutos de leitura

Não faz muito tempo, estava falando em um evento quando um recém-formado se aproximou. Ele havia estudado neurociência e, como muitos generalistas de STEM (sigla em inglês para ciência, tecnologia, engenharia e matemática), havia mirado em consultoria – empresas como Deloitte ou Accenture, que há muito tempo abrem vagas para iniciantes para coleta e análise de dados. 

Ele tinha tirado notas excelentes em uma ótima universidade. Mas todos os seus esforços – entrevistas informativas, candidaturas e acompanhamentos – não deram em nada. A história não é incomum. Se empregos de nível inicial em consultoria ou finanças sempre foram difíceis de conseguir, agora estão ainda mais. 

Essa geração cresceu acreditando que desenvolver habilidades-chave como programação, análise de dados, pesquisa e escrita garantiria uma porta de entrada para uma carreira satisfatória. E agora, muitas dessas suposições estão erradas. 

O CEO da Anthropic, Dario Amodei, disse que a IA pode eliminar cerca de 50% de todos os empregos de escritório de nível inicial em cinco anos, absorvendo tarefas de entrada de dados, análises básicas e síntese de pesquisa, que costumavam ser o primeiro degrau na carreira de um recém-formado.

Um estudo global da British Standards Institution parece confirmar essa previsão: ao entrevistar 850 líderes empresariais na Austrália, China, França, Alemanha, Japão, Reino Unido e EUA, constatou-se que eles têm priorizado automação com IA em vez de treinar funcionários juniores

Cerca de 39% disseram já ter reduzido ou eliminado vagas para iniciantes por causa da IA e 43% afirmaram esperar fazer isso em 2026.

A narrativa dominante é apocalíptica. “A IA está tirando todos os empregos!” E os dados por trás disso são reais o suficiente para gerar preocupação legítima. Mas a história é mais complexa do que parece.

Leia mais: IA no escritório: o que acontece com o emprego júnior?

O que estamos vendo, na verdade, é uma compressão do cronograma tradicional de carreira que, se bem aproveitada, pode acelerar o crescimento profissional de formas que nenhuma geração anterior experimentou.

Para quem busca o primeiro emprego e está disposto a se adaptar e repensar o início da carreira, o sucesso ainda é possível. Aqui estão algumas estratégias:

1. PROCURE EMPRESAS QUE VÃO CONTRA A TENDÊNCIA

Nas últimas semanas, surgiram sinais de que alguns empregadores reconhecem o risco de interromper totalmente seus fluxos de talentos.

O CEO do Reddit, Steve Huffman, disse que a empresa vai investir pesado na contratação de recém-formados, pois eles são “nativos em IA”. A IBM também anunciou planos de aumentar significativamente as contratações para empregos de nível inicial.

Empresas como Dropbox, Cloudflare e LinkedIn também indicaram expansão em programas de estágio e vagas para iniciantes.

A PwC, que havia reduzido essas contratações, voltou atrás em cerca de 20% de seus escritórios e recomenda continuar contratando jovens profissionais para não “matar de fome o futuro da organização”.

2. DESENVOLVA HABILIDADES QUE A IA NÃO PODE REPLICAR

Quem está entrando no mercado deve focar no que a IA não consegue fazer: construir relacionamentos, ouvir atentamente, negociar, conduzir conversas difíceis, contar boas histórias, exercer julgamento em cenários ambíguos e “ler o ambiente”. 

Essas habilidades sempre foram importantes na liderança, mas antes só eram desenvolvidas mais tarde na carreira. Agora, com tarefas básicas sendo feitas por IA, quem consegue uma das vagas para iniciante pode acelerar esse desenvolvimento desde o início.

É essencial investir desde o primeiro dia em comunicação, pensamento crítico, inteligência emocional e construção de relações.

3. LEMBRE-SE: VAGAS PARA INICIANTES SÃO SÓ O COMEÇO

Muitos jovens não estão satisfeitos com o primeiro

emprego. Mas, no início da carreira, o objetivo não era felicidade imediata. Na verdade, era independência financeira, aprendizado e crescimento.

Em vez de perguntar “estou feliz?”, a melhor pergunta é: “estou evoluindo?”. A satisfação vem do progresso e da competência crescente.

4. MANTENHA UM DIÁRIO DE CARREIRA

Muita gente não sabe a sua paixão aos 20 e poucos

anos, e tudo bem. O importante é observar: o que desperta curiosidade, o que energiza ou drena.

Com o tempo, isso ajuda a encontrar o equilíbrio entre o que você gosta, o que faz bem e o que o mercado precisa. Esse conceito é conhecido como ikigai.

5. TORNE-SE UM ÓTIMO MENTORADO

Uma das habilidades de carreira mais subestimadas é aprender a ser bem mentorado. Profissionais experientes querem ajudar, mas a pessoa que está sendo mentorada precisa trazer algo para a relação: respeito, curiosidade, vulnerabilidade e disposição de construir uma conexão que vá além de apenas buscar conselhos de forma pontual.

Como bônus: sempre leve uma observação sobre o negócio, até mesmo sugestões de melhoria, seja em processos, políticas ou até na cultura da equipe.

Se alguém dedica tempo para compartilhar sua experiência e você responde com gratidão, consistência no acompanhamento e disposição para ser honesto sobre o que está vivendo, essa pessoa vai te defender.

Ela vai fazer conexões, apoiar seu crescimento e lembrar de você quando surgirem oportunidades. Vale destacar também: mentoria é uma das dinâmicas mais humanas no ambiente profissional e é algo que a IA nunca vai substituir.

6. TENHA ALFABETIZAÇÃO EM IA COMO BASE

Se você está entrando no mercado de trabalho em 2026, precisa ser capaz de usar IA de forma eficaz, no mesmo nível em que antes era necessário dominar os pacotes da Microsoft e do Google.

Haverá um período de transição em que será preciso ter competência tanto em IA quanto nas ferramentas tradicionais. Mas a IA não é opcional, é uma habilidade básica, como era saber usar uma planilha há 20 anos.

Candidatos a vagas para iniciantes que entenderem como usar essas ferramentas para resolver problemas de negócio, grandes ou pequenos, terão vantagem sobre os demais. 

Novas capacidades surgiram, como Claude Code e Cowork, OpenClaw e o Codex da OpenAI. Aqueles que conseguem integrar sistemas diferentes de forma criativa e que têm confiança para improvisar e experimentar estarão em alta demanda.

Leia mais: Geração Z perde a paciência com teatro corporativo

O profissional experiente que combina forte visão de negócios, bons relacionamentos e domínio de IA é praticamente imbatível. Isso significa que, para quem está entrando no mercado, o esperado é que a pessoa tenha habilidades básicas de IA. Seu diferencial estará nas capacidades humanas que você desenvolver junto com elas.

7. RAZÕES PARA OTIMISMO

A geração Z é mais consciente socialmente, mais conectada globalmente e mais guiada por princípios do que talvez qualquer geração anterior. Eles não vão se sacrificar por um sistema quebrado e há algo poderoso nisso.

O mundo no qual estão entrando é turbulento. As regras estão mudando. Mas eles têm a chance de construir carreiras mais diversas, mais autônomas e mais humanas.

O que esse tipo de carreira exige de nós, porém, é disposição para ser curioso, investir nas habilidades que realmente importam e surfar essa onda, em vez de ser arrastado por ela.


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