Liderança ecossistêmica: como formar líderes capazes de conectar pessoas, áreas e decisões

Em empresas atravessadas por desafios cada vez mais complexos, liderar exige conectar áreas, compartilhar conhecimento e avaliar o impacto de cada decisão sobre toda a organização.

Mão aponta para um grupo de profissionais distribuídos sobre uma rede, representando a conexão entre pessoas, áreas e decisões.
Créditos: deagreez, Hyejin Kang via Adobe Stock / GuerrillaBuzz via Unsplash

Mauro Mercadante 4 minutos de leitura
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Tenho visto as empresas falarem cada vez mais sobre colaboração, visão de negócio, protagonismo e senso de dono. Durante décadas, porém, acompanhei organizações investirem na formação de líderes especialistas. Eram profissionais preparados para administrar departamentos, otimizar processos, acompanhar indicadores e garantir eficiência dentro de suas próprias áreas. Esse modelo foi suficiente por muito tempo, mas há sinais claros de esgotamento diante da complexidade dos negócios atuais.

Hoje, vejo que os desafios das empresas raramente pertencem a um único departamento. Questões relacionadas à inovação, experiência do cliente, transformação digital, sustentabilidade ou inteligência artificial atravessam diferentes áreas ao mesmo tempo. Nesse contexto, decisões tomadas de forma isolada podem gerar retrabalho, desperdício de recursos e perda de competitividade.

É por isso que, na minha visão, cresce a discussão sobre um novo perfil de liderança: aquela capaz de compreender a empresa como um ecossistema, no qual pessoas, processos, tecnologia e cultura estão permanentemente conectados.

Essa visão dialoga com o pensamento sistêmico apresentado por Peter Senge em A Quinta Disciplina. Em vez de enxergar a organização como uma soma de departamentos independentes, o pensamento sistêmico propõe compreender as relações que existem entre eles. Afinal, toda decisão produz consequências que vão muito além do espaço onde ela foi tomada.

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Na prática, porém, muitos modelos de gestão ainda estimulam exatamente o contrário. Metas são definidas por área, indicadores medem desempenhos isolados e incentivos recompensam resultados locais. Naturalmente, as pessoas passam a concentrar seus esforços em otimizar aquilo pelo qual são cobradas, mesmo quando isso gera impactos negativos para outras equipes. O desafio da liderança contemporânea passa justamente por romper essa lógica.

Mais do que coordenar pessoas, acredito que líderes precisam atuar como conectores de inteligência. Seu papel deixa de ser apenas distribuir tarefas ou controlar resultados e passa a incluir a construção de ambientes onde diferentes áreas compartilham informações, aprendem conjuntamente e tomam decisões considerando seus efeitos sobre toda a organização.

Isso exige uma mudança importante de mentalidade. Em vez de perguntar apenas “como minha área pode entregar melhores resultados?”, acredito que líderes precisam passar a questionar: “como essa decisão influencia outras equipes?”, “quais impactos ela produz no cliente?”, “quem precisa participar dessa conversa antes que avancemos?”. São perguntas simples, mas capazes de evitar desperdícios significativos.

Em uma empresa do setor de infraestrutura, por exemplo, acompanhei uma situação em que diferentes áreas contrataram consultorias distintas para revisar exatamente o mesmo processo. Todas as decisões eram justificáveis quando analisadas separadamente. No conjunto, porém, produziram duplicação de investimentos e perda de eficiência.

Em outro projeto, desenvolvido para uma instituição financeira, acompanhei uma equipe que trabalhou durante cerca de três meses na criação de uma nova funcionalidade para o aplicativo do banco. Após o lançamento, além de provocar instabilidades na plataforma, descobriu-se que a funcionalidade sequer era necessária. Uma conversa envolvendo diferentes áreas antes do início do projeto provavelmente teria evitado todo esse investimento.

Casos como esses reforçam uma percepção que tenho observado em diferentes organizações: boa parte dos problemas organizacionais não nasce da falta de competência técnica. Surge principalmente da ausência de conexões entre pessoas que trabalham para o mesmo objetivo, mas enxergam apenas uma parte do sistema.

Diversos estudiosos da gestão vêm chamando atenção para essa mudança. Giles Hutchins defende organizações mais regenerativas, capazes de aprender continuamente por meio das conexões entre seus integrantes. Otto Scharmer propõe modelos de liderança baseados em escuta profunda, colaboração e construção coletiva de soluções para desafios complexos. Embora utilizem abordagens diferentes, vejo que ambos convergem em um ponto: organizações mais adaptáveis dependem menos de estruturas rígidas e mais da qualidade das relações estabelecidas entre as pessoas.

Nesse cenário, a confiança deixa de ser apenas um valor cultural e passa a representar um ativo estratégico. Quando há confiança, informações circulam com maior velocidade, diferentes perspectivas enriquecem as decisões e problemas são identificados antes de se tornarem crises. Quando ela não existe, predominam a proteção de territórios, o excesso de controles e a fragmentação do conhecimento.

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A liderança ecossistêmica nasce exatamente dessa compreensão. Não se trata de eliminar departamentos nem de reduzir a importância das especialidades. O objetivo é criar conexões permanentes entre elas, fazendo com que a organização funcione de maneira integrada.

Isso significa estimular autonomia com responsabilidade, fortalecer a colaboração entre áreas, ampliar a circulação do conhecimento e desenvolver uma visão capaz de equilibrar resultados de curto prazo com a sustentabilidade do negócio no longo prazo.

Em mercados cada vez mais interdependentes, acredito que a vantagem competitiva não será construída apenas por quem executa melhor, mas por quem consegue integrar competências, eliminar barreiras organizacionais e acelerar decisões coletivas.

No fim das contas, liderar um ecossistema não significa controlar tudo o que acontece dentro da empresa. Significa compreender que nenhuma decisão relevante acontece de forma isolada. E, pela experiência que tenho acompanhado ao longo dos anos, quanto mais cedo as organizações desenvolverem essa capacidade, maiores serão suas chances de inovar, adaptar-se às mudanças e gerar valor de forma sustentável.


SOBRE O AUTOR

Mauro Mercadante é Cofundador e membro da teya, consultoria de aprendizagem corporativa e desenvolvimento organizacional, Mauro Mercad... saiba mais