Liderança para a travessia
Transformações profundas exigem líderes capazes de manter a direção, proteger experiências e agir mesmo quando os resultados ainda não podem ser comprovados

Sustentar transformações capazes de responder aos desafios do século 21 exige mais do que coragem. Exige continuar agindo quando os resultados ainda não são evidentes.
Uma das heranças mais presentes nos modelos tradicionais de gestão é a tendência de depositarmos segurança naquilo que conseguimos comprovar. Decisões organizacionais precisam ser endossadas por evidências que ofereçam alguma previsibilidade.
Além da necessidade de comprovação, existe o desejo de benefício direto. Mesmo lideranças comprometidas com transformações profundas acabam, por vezes, reproduzindo a urgência de ver a mudança consolidada durante seu mandato.
O LIMITE DA PREVISIBILIDADE
Essa lógica encontra dois limites. O primeiro é que a necessidade de comprovação tende a privilegiar mudanças cujos efeitos conseguimos antecipar ou observar rapidamente.
Sistemas organizacionais cada vez mais complexos apresentam desafios que contrariam nossas necessidades de planejamento e controle. Demandam respostas estruturais e abertura à experimentação.
O segundo limite é o tempo. Nem toda decisão produz efeitos visíveis no curto prazo. A incapacidade de manter a direção durante o intervalo entre a ação e o resultado gera instabilidade.
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Quando esse atraso é ignorado, há o risco de reagir antes que os primeiros efeitos tenham tempo de emergir.
Isso acontece, por exemplo, em processos de mudança cultural, quando se espera que novos comportamentos sejam incorporados logo nos primeiros meses. Mudar a direção ou intensificar as ações antes que esses comportamentos ganhem consistência pode reforçar justamente os padrões que se pretendia transformar.
O TEMPO DA TRAVESSIA
Transformações profundas exigem outra relação com a incerteza e com o tempo.
A segurança se desloca da previsibilidade para a experimentação. A urgência migra da consolidação do resultado para a ação.
Toda transição cria um período de coexistência entre a lógica anterior e a nova, que começa a emergir, mas ainda não possui estabilidade suficiente.
Esse intervalo é a própria natureza da travessia.
O papel do líder passa a ser o de manter a coerência em meio à ambiguidade, proteger experiências iniciais e acolher resistências. É preciso reconhecê-las como respostas esperadas daqueles que ainda encontram segurança no modelo anterior.
Diferentes áreas, equipes e indivíduos atravessam tempos distintos de adaptação.
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LIDERAR SEM VER O RESULTADO
O líder precisa manter a direção mesmo quando ainda não consegue comprovar os efeitos da mudança — e mesmo quando talvez não possa usufruir diretamente deles.
Sua contribuição está em preservar a confiança no processo e a resiliência da organização enquanto novos comportamentos passam a orientar, de fato, sua forma de operar.
Para chegar ao futuro desejado, é preciso dar os primeiros passos, formar quem seguirá adiante e garantir as condições de continuidade.
Liderar a travessia é sustentar, no presente, ações capazes de tornar possível o futuro que precisa emergir.