Como manter o emprego mesmo após o luto? Veja estratégias de fortalecimento mental
Após uma perda devastadora, seguir em frente pode parecer impossível. Estas três estratégias podem ajudar você a enfrentar a jornada de trabalho, um momento de cada vez

Psicoterapeuta e autora de best-sellers internacionais, Amy Morin compartilha como se apresentar ao trabalho após perder um ente querido.
O RELATO
Sentei no meu carro encarando a porta da frente do centro comunitário de saúde mental, questionando se conseguiria entrar.
Se alguém me visse, poderia supor que eu era uma paciente lutando para enfrentar meus problemas de saúde mental no tratamento. Mas não. Eu era a terapeuta que lutava para encontrar coragem para passar por aquela porta.
Meu marido havia falecido inesperadamente apenas dois meses antes, aos 26 anos. Após meus três dias de licença por luto, eu não tinha condições de voltar ao trabalho.
Felizmente, meu médico me diagnosticou com "transtorno de estresse agudo" e me garantiu dois meses de afastamento por invalidez de curto prazo. Ainda não me sentia pronta para voltar, mas a conta da hipoteca não se importava com como eu me sentia.
Enquanto estava sentada ali no carro, dei a mim mesma o mesmo conselho que dava aos meus pacientes: “você não precisa se sentir forte para ser forte. Só precisa focar no que fazer agora”. Com isso, saí do carro e entrei no prédio para encarar o dia de trabalho.
Você não precisa esperar até que sua vida melhore para ser produtivo. Só precisa da próxima jogada para atravessar o dia.
Minha situação, porém, não é única. Em algum momento, a maioria de nós tem que aparecer no trabalho quando nossas vidas estão desmoronando.
Em geral, é nos momentos mais difíceis da vida que mais precisamos do dinheiro e dos benefícios. No entanto, raramente falamos sobre como manter o profissionalismo quando se tem problemas pessoais urgentes.
Como uma terapeuta que já passou por isso, garanto que você pode manter seu emprego mesmo lidando com circunstâncias estressantes, desde que tenha estratégias confiáveis para superar cada dia.
Assim como um bom treinador entra em campo com um conjunto de jogadas, você precisa de "jogadas" de trabalho que ajudem a se manter mentalmente forte quando não tiver certeza de como superar o momento.
Aqui estão três jogadas que me ajudaram naquele dia, e que ainda uso hoje.
1. RESERVE UM HORÁRIO PARA SE PREOCUPAR
Eu tinha muito com que me preocupar depois de ficar viúva. Como pagaria as contas do mês? Quando encontraria tempo para trocar o óleo do carro? E se aquele barulho na caldeira significar que ela está pifando?
Então, agendei um horário para me preocupar todos os dias como uma estratégia proativa. Uma vez que dei permissão ao meu cérebro para se preocupar, os pensamentos ansiosos pararam de interromper meu foco.
O instinto natural de afastar pensamentos preocupantes acaba sendo um tiro no pé. Pesquisas mostram que, quanto mais tentamos suprimir pensamentos, mais frequentes e intrusivos eles se tornam. Em vez de lutar contra a preocupação, agende-a.

Reserve 15 minutos por dia (mesmo horário, mesmo local) e coloque na sua agenda. Quando a sua "janela de preocupação" chegar, sente-se e deixe seu cérebro ir para onde quiser. Quando os 15 minutos acabarem, pronto. Levante-se e vá fazer outra coisa.
Se uma preocupação surgir fora do horário agendado, diga a si mesmo: ainda não é hora de me preocupar com isso. Vou me preocupar com isso mais tarde.
Com prática, você pode treinar seu cérebro para conter a preocupação naquele único intervalo de tempo, o que significa que terá mais largura de banda cognitiva no resto do dia.
2. INVERTA O ROTEIRO
Agendar um horário para se preocupar resolveu o ruído de fundo. Mas, às vezes, a ansiedade ataca na hora, logo antes de uma reunião ou no meio de uma apresentação, quando você não pode esperar pela sua janela de preocupação.
É aí que eu "invertia o roteiro". Quando meu cérebro saltava para cenários catastróficos como “devo estar prestes a ser demitida”, eu me lembrava dos cenários otimistas, como “talvez eu receba um aumento”.

Embora ganhar um aumento aleatório parecesse improvável, isso me lembrava que ser demitida aleatoriamente era igualmente improvável. Inverter o roteiro me ajudou a ver que minhas previsões catastróficas não eram inevitáveis.
Quando você está ansioso com a sua vida pessoal, essa ansiedade pode facilmente transbordar para a vida profissional e enganá-lo, fazendo-o acreditar que cada resultado será catastrófico.
Seja quando você está convencido de que sua mente vai dar um branco e você vai passar vergonha na apresentação, ou quando seu cérebro tenta convencê-lo de que você não vai conseguir terminar aquele relatório, inverter o roteiro é uma maneira rápida de interromper a espiral de ansiedade.
3. COLOQUE UM “MEIO SORRISO”
A última coisa que eu sentia vontade de fazer era sorrir. Eu estava em luto. Estava exausta. Estava apavorada com a possibilidade de desmoronar na frente de um cliente. Mas sabia que ficar com o semblante fechado o dia todo tornaria tudo mais difícil.
Então, sempre que minhas emoções desconfortáveis começavam a surgir, eu levantava os cantos da boca apenas o suficiente para iniciar um feedback positivo para o cérebro.
Assim que ele recebia a mensagem de que eu estava sorrindo, meu sistema nervoso se acalmava e eu me sentia um pouco mais feliz, o que ajudava a superar o momento.

A gente tende a pensar que sorri por estar feliz. Mas a conexão cérebro-corpo funciona nos dois sentidos. Pesquisas mostram que adotar intencionalmente um sorriso pode, de fato, iniciar sentimentos de felicidade.
Um estudo descobriu que pessoas que sorriram apresentaram frequências cardíacas mais baixas durante a recuperação do estresse do que aqueles com expressões neutras, mesmo quando não sabiam que estavam sorrindo.
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Você não precisa exibir um sorriso forçado para provar aos colegas que está feliz. Na verdade, quando adota essa estratégia corretamente, outra pessoa não descreveria o que vê como um sorriso.
Pode parecer apenas que sua expressão suavizou um pouco. Basta virar os cantos dos lábios levemente para cima, o suficiente para que seu cérebro receba o sinal de que é seguro relaxar.
A MELHOR JOGADA
Sentada naquele estacionamento no dia em que tive que voltar ao trabalho, tomei uma decisão. Eu não ia me preocupar sobre como passaria os próximos meses ou como consertaria minha vida. Em vez disso, eu apenas focaria no que fazer agora.
Isso me deu coragem para passar pela porta. Eu sobrevivi ao dia, uma jogada de cada vez.
Você não precisa se sentir pronto para aparecer no trabalho quando sua vida está desmoronando, nem precisa esperar até que sua vida melhore para ser produtivo. Só precisa da próxima jogada para atravessar o dia.