Menos comando, mais presença
Liderança real não se faz no comando e controle. Nasce na presença e vive na coragem de habitar a pausa e ouvir

No final de 2019, assumi o time de insights de uma empresa de tecnologia com o plano de passar os primeiros 90 dias apenas conhecendo e compreendendo a equipe.
Mas a pandemia mudou tudo. Fomos atropelados por demandas inéditas. Da noite para o dia, a hipervelocidade virou o termo da vez.
Foi aí que, tentando gerenciar o imprevisível, cometi o erro de sufocar as pessoas em nome de processos e resultados. Abandonei o acolhimento e adotei uma microgestão controladora.
Nos números, a estratégia parecia funcionar: entregas de alta qualidade, reconhecimento e promoções. No lado humano, as relações estavam desgastadas e a equipe, em pedaços.
Foi quando recebi o feedback mais difícil da carreira: eu era uma high performer, mas esse título, na liderança, já não significava nada.
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Diante desse cenário, meu diretor me propôs um único desafio para os seis meses seguintes: focar num projeto chamado "me tornar uma líder". Esse choque deu início à jornada de transformação mais decisiva da minha vida até então.
Nesse aprendizado, entre cursos e mentorias, entendi como a escuta é um pilar fundamental – na vida e no ambiente corporativo. Entre as referências acumuladas está Christian Dunker.
Segundo Dunker, sofremos de um "desejo de surdez". Nossa atenção é colonizadora; ouvimos o outro apenas para confirmar o que já pensamos ou exercer autoridade.

Ele alerta: a escuta real exige um movimento radical. Sair de si. Renunciar ao trono de dono da razão. É preciso suportar a incerteza do abismo – o Abgrund, esse lugar sem chão seguro – onde o sentido é construído em conjunto.
Silenciar é abrir uma clareira e aceitar que a comunicação autêntica deixa resíduos e mal-entendidos que devem ser acolhidos.
Para resgatar essa humanidade no trabalho, precisamos mudar a postura. Não é sobre regras, mas sobre pequenos combinados de presença no dia a dia. Compartilho por aqui alguns que passei a usar:
● Escolha estar inteiro: guarde o celular. De verdade. Se os olhos mudam de foco para a tela, a conexão desliga. Perdemos o tom da voz, o brilho do olhar e o contexto humano. Só sobra um texto seco.
● Acolha o outro: entre na conversa sem resistência. Significa dar espaço à hospitalidade e ao respeito ao sentimento alheio, tendo a humildade de sentar à mesa disposto a sair transformado pelo que vai ouvir.
● Habite a pausa: ouça até o ponto final e espere instantes antes de falar. Esse respiro muda tudo. É na fresta do silêncio que você deixa de apenas reagir e passa a compreender.
● Seja curioso: troque certezas por perguntas abertas. Um simples "me conta mais sobre isso" abre horizontes, convida o outro a criar junto. Monólogos apenas silenciam.
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A vida e os negócios são travessias constantes entre o previsível e o imponderável. Tentar lidar com essa dinâmica por meio de planilhas e processos é uma ilusão. Liderança real não se faz no comando e controle. Nasce na presença e vive na coragem de habitar a pausa e ouvir.
Essa escuta nunca foi tão necessária. O imponderável não aceita ordens, exige abertura – de si, do outro e do contexto. É só através dela que o imprevisível deixa de ser obstáculo e vira caminho. Um belo caminho...