Mentes que brilham, virtudes que se apagam

Não há cancelamento nem absolvição, há perguntas. Dá para admirar o gênio e esquecer o homem?

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Caio Túlio Costa 2 minutos de leitura
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Foi em 1980 que o jornal mensal "Leia Livros" publicou um texto meu sobre Italo Svevo, o escritor de Trieste que inventou o próprio nome e passou a vida acendendo a última sigaretta.

Conta-se que no leito de morte pediu um cigarro, foi negado e murmurou que aquele, sim, teria sido o último. Eu não imaginava que estava escrevendo o oitavo capítulo de um livro que só ficaria pronto 40 e tantos anos depois.

Com o tempo, desenvolvi uma curiosidade meio estranha pela biografia dos gênios. Não somente a biografia oficial, a que vem na orelha, mas a que ninguém esconde de propósito e anda espalhada em fragmentos, uma numa carta, outra numa nota de rodapé, outra num arquivo em Florença, e nenhuma sozinha, remontando o todo.

Pesquisar é juntar os cacos. Fui juntando ao longo dos anos, em livros, em viagens, em documentos, com a internet, e, mais recentemente, até com a ajuda dos modelos de inteligência artificial, que ajudam a farejar histórias e que, sem dúvida, necessitam de conferência.

No meio do caminho fiz um doutorado sobre ética no jornalismo, que virou o livro "Ética, jornalismo e nova mídia – uma moral provisória". Foi aí que a curiosidade virou método e as fofocas, com o perdão da palavra, viraram tema. “Mentes que brilham, virtudes que se apagam” pode ser lido com “mentes” no substantivo ou no verbo. Sirva-se.

Lá estão Maquiavel, processado em Florença por sodomizar uma cortesã e autor de uma carta pornográfica onde conta como comeu “a mulher mais feia do mundo”, um borrão de visão, nas palavras dele.

Kant, que nunca saiu de Königsberg nem se cansou de pregar contra a mentira, mentiu. Pedro negou Jesus três vezes numa noite. Kant foi mais longe.

"A Traição das Imagens", pintura de René Magritte (1929)
"A Traição das Imagens", de René Magritte (1929)

Lênin, que sobretudo mentia, criou um jornal chamado "Pravda", que em português quer dizer Verdade. Trotsky e Frida trocavam bilhetes dentro de livros debaixo do nariz de Natalia e de Diego. Eliot, o casto, largou a primeira mulher, muito doente.

Pound, bajulava Mussolini. Wittgenstein se atormentava com sua vida, dupla. Heidegger, de carteirinha nazista, teve como amante a aluna judia Hannah Arendt, que o perdoou de tudo.

Sartre, que desligou o telefone depois de mentir para uma namorada, suspirou e confessou que às vezes precisava de um código moral temporário. E Arnold Crooked, o crítico que ensinava a julgar sem ler, de quem o leitor deverá dar conta sozinho.

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Não há cancelamento nem absolvição, há perguntas. Dá para admirar o gênio e esquecer o homem? Cada um é cada um.

Talvez "Mentes que brilham, virtudes que se apagam" seja o primeiro de uma série de livros, porque os gênios também são humanos, e como erram... e eu, eu não paro de ler e conhecer boas histórias.


SOBRE O AUTOR

Caio Túlio Costa é jornalista, professor, cofundador da plataforma de monitoramento digital Torabit e autor de "Mentes que Brilham". saiba mais