Muitos vão trabalhar doentes, mas a onda de demissões pode resolver o problema

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Eleanor Cummins 5 minutos de leitura

Estima-se que 47 milhões de pessoas pediram demissão em 2021 nos Estados Unidos, o que dá cinco milhões a mais do que em 2019. De lá para cá, dezenas de analistas tentam explicar por que tantos decidiram deixar seus empregos durante a pandemia. De acordo com o Pew Research Center, os principais fatores são baixos salários, falta de respeito no local de trabalho, horários inflexíveis e falta de apoio aos que têm crianças para cuidar.

É uma questão de esgotamento, de depressão ou de dano moral. É o fim da civilização como a conhecemos, ou o começo de algo novo. Um conceito – o presenteísmo – e uma crescente reação contra ele é o ponto em comum entre muitos desses fatores. Presenteísmo é o termo técnico para a sensação de estar fisicamente presente no trabalho, mas com a cabeça em outro lugar ou, por algum motivo, inapto para trabalhar.

Geralmente, o presenteísmo é resultado de uma doença física, como quando o funcionário comparece ao trabalho mesmo gripado. Mas esse “estado zumbi” também pode estar ligado a uma série de problemas de saúde mental, a conflitos entre o horário do expediente e a necessidade de cuidados na família e muito mais, explica Debra Lerner, professora da Tufts University School of Medicine e diretora associada de impacto organizacional no Tufts Clinical and Translational Science Institute.

Segundo ela, o problema apenas ficou mais evidente com a pandemia. Durante os meses de isolamento, alguns trabalhadores remotos se sentiram pressionados a mostrar resultados, mesmo se sentindo mal.  Mas outros encontraram uma nova sensação de liberdade, seja porque economizaram o tempo de locomoção até o trabalho, seja porque ganharam mais flexibilidade nas pausas durante o expediente.

Presenteísmo é o termo técnico para a sensação de estar fisicamente presente no trabalho, mas com a cabeça em outro lugar.

Mais importante ainda: a pandemia deixou mais claro do que nunca que as doenças transmissíveis, mesmo quando leves, podem colocar colegas de trabalho e clientes em risco, e isso não voltará a ser minimizado. “A era do presenteísmo acabou”, afirmou Kevin Ellis, presidente da PricewaterhouseCoopers, no verão de 2020.

Embora seu pronunciamento talvez tenha sido prematuro, algo de fato está mudando. E os resultados no mundo do trabalho podem ser profundos.

CULTURA DA DOENÇA

O problema do presenteísmo começa com os arquétipos sociais, diz Gail Kinman, psicóloga de saúde ocupacional e professora visitante da Birkbeck University of London. Em muitos países, o funcionário ideal é visto como aquele que se sacrifica em atos de lealdade à empresa. Ela conta sobre uma ex-colega que quebrou a perna e mesmo assim conseguiu chegar a tempo para a próxima reunião.

Isso é reforçado por aquilo que a psicóloga chama de “cultura da doença” que perdura em muitas empresas. Mesmo que existam políticas para incentivar o autocuidado ou a licença médica, quando os gerentes modelam comportamentos não saudáveis, os funcionários percebem e seguem o exemplo.

Embora muitos possam pensar que a “abordagem do mártir”, como Kinman a chama, os fará avançar na carreira, geralmente ela tem efeitos negativos tanto para funcionários quanto para empregadores. Pesquisas mostram que, se as pessoas evitam sair de licença quando é necessário, acabam precisando de mais licenças médicas no geral. Trabalhar enquanto estamos doentes, sentindo dor ou deprimidos também pode levar a mais erros, acidentes e lesões.

A longo prazo, uma “cultura da doença” disfuncional cria problemas para o moral da equipe. De acordo com uma estimativa feita pela Harvard Business Review, o presenteísmo chega a custar bilhões de dólares por ano à economia norte-americana em perda de produtividade – um problema que quase rivaliza com o absenteísmo (faltar, de fato, ao trabalho).

quando os gerentes modelam comportamentos não saudáveis, os funcionários percebem e seguem o exemplo.

Provavelmente, o presenteísmo sempre tenha sido um problema, mas parece ter aumentado na última década. No Reino Unido, por exemplo, o Chartered Institute of Personnel and Development descobriu que o número de pessoas que relatam perceber o presenteísmo em suas organizações triplicou desde 2010.

Essa descoberta condiz com os altos níveis de estresse entre os trabalhadores e uma década dominada pelo #girlboss. Nos EUA, para os trabalhadores que não têm licença médica remunerada ou que têm licença limitada, o presenteísmo é uma necessidade econômica. Se não trabalham, eles simplesmente não são pagos por aquelas horas ou dias.

MUDANÇA DE ATITUDE

A pandemia escancarou muitos problemas, mas também ofereceu a milhões de funcionários a oportunidade de reimaginar o estereótipo do “trabalhador ideal”. Depois de tantas pessoas terem saído de seus cargos, a escassez de mão-de-obra fez com que algumas indústrias reavaliassem a forma como fazem negócios, inclusive aumentando os salários, melhorando o horário, oferecendo mais oportunidades ou simplesmente tratando os funcionários com respeito.

“A grande onda de pedidos de demissão não é uma corrida louca para longe dos escritórios. É o despontar de uma longa marcha em direção à liberdade”, escreveu Adam Grant, psicólogo organizacional da Wharton School of Business, em artigo no “The Wall Street Journal”. Mas os trabalhadores vão precisar de apoio para colocar em prática suas demandas. Já as empresas precisam deixar claro que não apenas não incentivam o trabalho 24 horas por dia, como o desencorajam ativamente.

A grande onda de pedidos de demissão é o despontar de uma longa marcha em direção à liberdade.

O que virá é uma incógnita, mas a “cultura da doença” precisa ser combatida. Vale a pena construir um mundo pós-presenteísmo. No momento, pesquisadores estão estudando o que o impulsiona e que outros modelos ou conceitos poderiam tomar o seu lugar.

“O foco está no potencial de uma situação em que tanto empregadores quanto funcionários saiam ganhando”, diz Lerner. O que está em jogo é a falta de pessoal, empregos instáveis ​​e uma sensação generalizada de FOMO (“fear of missing out“, algo como “medo de ficar de fora”, em português).

Tudo isso tende a provocar uma série de mudanças nas políticas, desde permitir que as pessoas realmente se ausentem quando estiverem doentes até incentivar a elaboração de programas para o retorno gradual ao trabalho após uma doença. Dar o exemplo de cima para baixo também importa, diz Kinman. Ou seja: gerentes, não normalizem que seus funcionários se sintam obrigados a trabalhar a pleno vapor durante a pandemia de Covid-19 – ou com a perna engessada!


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