Nathália Brandão ensina a ver as regras invisíveis da carreira
O JOGO QUE NINGUÉM ENSINA: COMO NATHÁLIA BRANDÃO, AUTORA DE CARTAS A UMA JOVEM EXECUTIVA, DECODIFICA AS REGRAS INVISÍVEIS DA CARREIRA

A partir da própria trajetória, Nathália Brandão transformou dúvidas, inseguranças e aprendizados sobre o mundo do trabalho em um guia para jovens profissionais
Quando Nathália Brandão entrou no mundo executivo, sentiu como se estivesse chegando a um país estrangeiro. Sem referências próximas do universo dos negócios, ela precisou decifrar as dinâmicas, os códigos e as regras que orientavam o ambiente corporativo. Formada em Direito, Nathália havia iniciado sua trajetória como trainee global na Ambev, após ser recrutada para um processo seletivo da empresa. Essa experiência deu origem ao livro Cartas a uma Jovem Executiva.
Em conversa sobre o livro e sua trajetória profissional, Nathália contou que a obra nasceu a partir de um bloco de notas pessoais criado em um momento em que se sentia completamente perdida. Enquanto tentava entender como navegar naquele universo, começou a registrar reflexões, aprendizados e dúvidas sobre a carreira.
A LEITURA DAS ENTRELINHAS
Um dos momentos mais marcantes desse processo aconteceu quando ouviu de um mentor que precisava aprender a "ler as entrelinhas". O ambiente corporativo funcionava como um jogo de regras não ditas, que raramente são ensinadas de forma explícita. A observação despertou nela a vontade de decodificar essas dinâmicas e transformá-las em conhecimento acessível para quem está começando.
“Eu queria decodificar esse jogo. Queria entender as regras que ninguém ensinava.
Aquela frase se transformou no ponto de partida para uma investigação que, anos depois, daria origem ao livro. "Eu queria decodificar esse jogo", explicou. "Queria entender as regras que ninguém ensinava."
Nathália desenvolveu uma pesquisa sobre carreira, cultura organizacional e pensamento sistêmico, que mais tarde daria origem ao livro. Seu principal incômodo era a falta de materiais voltados para os desafios enfrentados por profissionais em início de carreira. Enquanto a maior parte das obras disponíveis tratava de liderança ou apresentava perspectivas muito distantes da realidade brasileira, ela buscava respostas para questões mais imediatas: como se posicionar, construir reputação, compreender a cultura da empresa e tomar decisões estratégicas logo nos primeiros anos de trabalho.
EXECUTIVA DA PRÓPRIA CARREIRA
Ao buscar compreender o funcionamento do mundo corporativo, Nathália também passou a questionar quem tinha acesso ao lugar de "executivo" e o próprio significado dessa palavra.

Um dos objetivos centrais de Cartas a uma Jovem Executiva é ressignificar a própria ideia de "executiva". Para Nathália, a palavra muitas vezes carrega uma imagem distante e intimidante, associada a posições de poder, salas fechadas e uma realidade corporativa inacessível para muitas pessoas.A autora propõe uma interpretação diferente a partir da origem do termo, relacionada ao ato de executar: transformar ideias em ações, projetos em realidade e planos em movimento. Nesse sentido, ser executiva não está necessariamente ligado a um cargo ou posição hierárquica, mas à capacidade de assumir responsabilidade pela própria trajetória.
"Todas nós somos executivas, a gente está materializando nossos sonhos", afirma Nathália. Para ela, a proposta é retirar a palavra de um lugar de privilégio e torná-la mais democrática: executiva é toda pessoa que toma responsabilidade pela própria carreira, faz escolhas conscientes e trabalha para construir o futuro que deseja.
O TABULEIRO DESIGUAL DO MERCADO DE TRABALHO
Ao refletir sobre os fatores que influenciam o desenvolvimento profissional, Nathália também passou a questionar a ideia de que todas as pessoas constroem suas carreiras a partir das mesmas condições. Essa discussão ocupa espaço importante em sua obra e aparece na metáfora do xadrez utilizada pela autora. Nathália observa que o mercado funciona como um tabuleiro em que os jogadores não começam a partida com as peças igualmente posicionadas. Embora muitas organizações defendam a meritocracia como princípio orientador, fatores sociais, econômicos e culturais influenciam diretamente as oportunidades disponíveis para cada pessoa.
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Essa desigualdade pode ser observada na trajetória profissional das mulheres. Uma pesquisa da InfoJobs, realizada com 1.022 profissionais para o levantamento Panorama da Mulher no Mercado de Trabalho 2026, revela que o principal obstáculo para a ascensão feminina não está apenas no topo da hierarquia, mas surge ainda na transição para os primeiros cargos de liderança. Segundo o estudo, 49% das mulheres afirmam sentir que sua carreira encontra uma barreira ao passar de funções técnicas para posições de gestão, enquanto 20% apontam dificuldades somente ao tentar alcançar cargos executivos ou de diretoria.
Todas nós somos executivas, a gente está materializando nossos sonhos.
Durante a entrevista, a autora citou sua experiência em programas de trainee para ilustrar essa questão. Embora esses programas sejam frequentemente apresentados como ambientes em que todos competem em igualdade de condições, a realidade costuma ser mais complexa. Alguns profissionais contam com redes de apoio, estabilidade financeira e moram próximos ao local de trabalho, enquanto outros enfrentam longos deslocamentos diários, responsabilidades familiares e limitações econômicas que impactam diretamente sua rotina.
Assim como em uma partida de xadrez, todos estão no mesmo tabuleiro, mas nem todos iniciam o jogo com as mesmas vantagens. Reconhecer essas desigualdades, argumenta, não significa negar a importância do esforço individual, mas compreender que a trajetória profissional é moldada por fatores que vão além do mérito e da competência técnica.
A autora também dedica espaço para discutir um desafio comum entre jovens profissionais: a busca por autenticidade. Para ela, toda organização possui códigos, símbolos e comportamentos próprios que precisam ser compreendidos. O desafio não está em ignorar essas regras, mas em encontrar formas de preservar a própria identidade dentro delas. É o que ela chama de "autoralidade": levar para o trabalho as experiências, referências e visões de mundo que tornam cada trajetória única. “Eu senti, em determinado momento, que eu estava perdendo a minha verdade, a minha identidade. E eu falei: ‘Não dá para eu trazer a minha identidade, a minha bagagem de vida, a minha lente para a vida, através da autoralidade’.” Afirma a escritora.
OS CINCO CAPITAIS
Ao longo dos anos, Nathália percebeu que o crescimento profissional não depende apenas da qualidade técnica das entregas. Embora o conhecimento e a capacidade de execução sejam fundamentais, outros fatores influenciam a construção de uma trajetória. No livro, ela organiza essa visão em cinco capitais: técnico, cultural, reputacional, relacional e financeiro.
O capital técnico é a base da carreira, pois é ele que garante a credibilidade inicial de um profissional. No entanto, Nathália argumenta que competência e bons resultados, sozinhos, não explicam o crescimento na carreira.
O capital cultural diz respeito à compreensão dos códigos que orientam uma organização. Entender a cultura, as formas de comunicação e as dinâmicas de poder permite navegar melhor pelas oportunidades.
A reputação representa a percepção construída sobre o trabalho de uma pessoa.Entregar um bom resultado não basta é preciso comunicar conquistas, compartilhar aprendizados e construir confiança ao longo do tempo.
O capital relacional também ocupa papel central nessa visão. Para Nathália, networking não deve ser uma troca utilitária de favores, mas a construção de relações genuínas. "A pessoa interessante é a pessoa interessada", afirma.
Já o capital financeiro amplia a liberdade de escolha ao longo da carreira. É ele que permite investir em formação, fazer transições profissionais e tomar decisões mais alinhadas aos próprios objetivos.
CONHECIMENTO COMPARTILHADO
Ao revelar as regras invisíveis da carreira, Nathália dá nome a aprendizados que muitas vezes permanecem restritos a quem teve acesso às referências certas, às conversas certas e aos ambientes certos. Mais do que ensinar como jogar o jogo corporativo, sua proposta é tornar esse jogo mais compreensível.
As regras que por muito tempo foram aprendidas nos bastidores começam, agora, a ocupar espaço nas conversas, deixando de ser códigos secretos para se tornarem conhecimento comum. Afinal, entender o jogo não significa apenas aprender a seguir suas regras, mas também reconhecer as condições do tabuleiro, fazer escolhas conscientes e encontrar maneiras de atuar sem abrir mão da própria identidade. As regras que ninguém ensina começam, finalmente, a ser faladas.