O home office não removeu uma das questões mais urgentes a serem encaradas pelas empresas para garantir o bem-estar dos colaboradores no ambiente de trabalho: o assédio. Embora muitas equipes não estejam dividindo de maneira presencial o mesmo escritório, casos de discriminação, assédio moral e sexual continuam a ocorrer remotamente. De acordo com Rafaela Frankenthal, cofundadora da Safespace, o trabalho remoto tornou ainda mais necessária a visibilidade das relações interpessoais que acontecem nas empresas.

Segundo levantamento da Violência e Assédio contra a Mulher no Mundo Corporativo, apenas 19% das empresas brasileiras combatem a violência contra a mulher. Enquanto 93% das pessoas que vivenciaram algum caso de abuso nunca reportaram ao RH ou ao Compliance.

Ao trabalharem de casa, as pessoas passam a ter menos visibilidade – tanto os abusadores quanto as vítimas do abuso, diz ela. “Os casos acontecem com mais frequência no ambiente remoto, fica mais difícil ter noção do limite. O assédio físico pode ter diminuído por conta do home office, mas temos visto muitos exemplos de má conduta, problemas de relações de poder”, afirma.

Foi justamente no início da pandemia, em março de 2020, que Rafaela e as sócias Giovanna Sasso e Natalie Zarzur lançaram a Safespace, uma plataforma B2B criada para prevenir, comunicar e resolver comportamentos abusivos nas empresas. Ao perceberem que os canais de denúncia das empresas, muitas vezes terceirizados, não funcionavam, elas começaram a desenvolver um SaaS (software as a service) focando a experiência do colaborador que deseja comunicar alguma situação incômoda.

Giovanna Sasso, Rafaela Frankental e Natalie Zarzur, fundadoras da Safespace (Crédito: Divulgação)

Na época, o trio já vinha sentindo falta de um serviço capaz de suprir o gap entre os relatos dos funcionários e o acolhimento da situação por parte da empresa. Ao mesmo tempo, vislumbraram uma sinergia cultural diante da ascensão de movimentos como o #metoo e o #blacklivesmatter, que evidenciaram, entre tantos outros pontos, como o assédio e a discriminação ainda são problemas recorrentes no ambiente corporativo.

A primeira versão da plataforma foi lançada em setembro com investimento inicial de R$ 50 mil e, no mesmo ano, recebeu aporte institucional do Maya Capital junto com outros 11 investidores-anjos, como Ariel Lambrecht, fundador da 99, e Luciana Caletti, idealizadora do antigo Love Mondays. A startup foi uma das únicas fundadas por mulheres a receber um aporte de fundos de venture capital no Brasil este ano. E, no início de março, a operação foi selecionada para o Google for Startups Accelerator, primeira edição do programa com uma turma composta somente por empreendedoras.

A Safespace é um app por meio do qual os colaboradores podem relatar, de forma nominal ou anônima, acontecimentos que contaminam o ambiente de trabalho. A empresa contratante paga uma assinatura mensal e os funcionários passam a ter acesso à ferramenta, onde podem registrar o que aconteceu e, caso prefiram, salvar para enviar mais tarde. Um dos features da plataforma é ajudar a construir a narrativa completa, com perguntas que guiam o relato e classificação sobre a gravidade do ocorrido.

Rafaela percebe, até o momento, que as empresas de tecnologia tendem a compreender mais a importância de investir em inclusão. Não à toa, o portfólio da startup conta com clientes como Lambda3, Inloco, NotCo, Gupy e Alice. Na visão dela, organizações comprometidas a enxergar questões de inclusão acabam, naturalmente, mitigando riscos de compliance: reparações e indenização por assédio podem chegar até 50 vezes o valor do salário do colaborador. E US$ 23 mil é a média em perda de produtividade e retenção por funcionários devido ao assédio sexual no trabalho.

 

SOBRE A AUTORA

Isabella Lessa é redatora-chefe da Fast Company Brasil.