POR CORMAC Ó CONAIRE

A ideia de robôs assumindo nossos empregos vai muito além do que já foi narrado em revistas em quadrinhos e filmes de ficção científica. Há séculos – desde a primeira máquina têxtil do século 18 até o advento da internet na década de 1990 -, as máquinas vêm tornando nossas profissões obsoletas.

A inteligência artificial (IA) é a tecnologia mais recente que ameaça substituir o trabalho humano. Quer se trate de sistemas de autoatendimento em supermercados ou de robôs (chatbots) de atendimento ao cliente, a IA já substituiu uma série de trabalhos altamente repetitivos. Apesar de prometer uma força de trabalho mais ágil e eficiente, quanto mais envolvente essa tecnologia emergente se torna, maior a tendência à desconfiança.

Na verdade, se isso se acelerar, a previsão é de que até 2025 os robôs poderão substituir mais de dois milhões de trabalhadores apenas na manufatura, de acordo com um estudo realizado por economistas do MIT e da Universidade de Boston. À medida que essa tecnologia se torna cada vez mais inteligente, há uma chance maior de a IA superar os humanos e tornar obsoletas até mesmo profissões mais qualificadas.

Mas isso seria realmente o fim do mundo? Ou será que, em contrapartida, as tecnologias emergentes poderão ajudar a descortinar um futuro potencial que irá  além do status quo?

Em um futuro em que as máquinas poderiam substituir nossa necessidade de contribuir com o mercado de trabalho, há potencial para que não sejamos definidos pelos nossos empregos, mas sim por novos propósitos, como valorizar a humanidade e o planeta.

A história nos diz que as revoluções industriais sempre são recebidas com receio. Os trabalhadores se revoltaram contra o surgimento da energia a vapor no século 18, enquanto há 30 anos os céticos da internet eram muitos. Sempre que uma nova tecnologia ou processo inovador surge, é natural que as pessoas temam por seu próprio sustento.

Mas conforme a tecnologia evolui, nosso papel neste planeta evolui junto. Já nos desenvolvemos em conjunto com sistemas de IA emergentes e já os incorporamos em nossas vidas diárias. Pense nos sistemas de transporte sem motorista que nos levam entre os terminais dos aeroportos, ou nos algoritmos de aplicativos de namoro nos ajudando a encontrar ‘a pessoa certa’.

Olhando para o futuro, a IA tem o potencial de revolucionar ainda mais nosso futuro coletivo. Sua promessa reside em sua capacidade de fazer análises sem precedentes de grandes quantidades de dados, que podem alcançar qualquer coisa, desde a identificação e prevenção do câncer de mama em estágio inicial até o estudo das operações de uma fábrica em tempo real, possibilitando consertar máquinas remotamente.

A IA tem potencial ainda maior quando ela aumenta as capacidades humanas, permitindo-nos trabalhar com maior velocidade, agilidade e eficiência. Imagine colegas de trabalho que usam a IA para facilitar o brainstorming criativo ou coaches da vida digital que nos capacitam a tomar decisões mais informadas, com base em uma análise de nossos dados. Um exemplo mais extremo é o Neuralink, a controversa interface cérebro-máquina em desenvolvimento que poderia permitir aos humanos controlar máquinas com suas mentes.

Esses desenvolvimentos incorporam o que chamamos de Indústria 4.0: a quarta e atual revolução industrial que se concentra no aprimoramento dos computadores por meio de sistemas inteligentes e autônomos, alimentados por dados e por aprendizado de máquina. Estamos bem no meio do caminho para encontrar uma força de trabalho mais otimizada com a ajuda da IA, em uma dinâmica na qual humanos e máquinas se tornem cada vez mais interligados.

Mas e se fôssemos ainda mais longe e redefiníssemos nossos empregos para abranger um significado e um propósito mais profundos? E se construíssemos uma força de trabalho mais consciente das necessidades de longo prazo da sociedade?

Já está em nosso horizonte um mundo profissional onde as linhas entre o valor humano e o valor comercial se confundem. Atualmente, caminhamos para a Indústria 5.0, que, além de visar a eficiência e a produtividade, prioriza a contribuição da indústria para a sociedade. Centraliza o bem-estar do trabalhador, usa novas tecnologias para proporcionar prosperidade além de empregos e crescimento, ao mesmo tempo que considera o impacto ambiental e social das indústrias.

Pense no exemplo da Islândia, onde a semana de trabalho de quatro dias tem sido um sucesso estrondoso, ou no teste de semana de trabalho mais curto feito pela Microsoft no Japão, que resultou em uma equipe mais feliz e no aumento de 40% na produtividade. Governos e empresas em todo o mundo já estão questionando como seria uma vida com menos ênfase no trabalho, enquanto a economia gigantesca tornou mais comum trabalhar onde e quando a pessoa quiser, uma liberdade que permite a elas se definirem além de suas vidas profissionais.

Na nova cultura de trabalho, o desenvolvimento de IA poderia se concentrar na atualização de nossas habilidades mentais e físicas, para nos capacitar a trabalhar de forma mais inteligente e não de forma mais difícil. Quanto mais “produtivos” nos tornamos em um curto período de tempo, mais tempo podemos dedicar a projetos com propósitos específicos que priorizem o planeta e as pessoas, ao invés do lucro.

Como alternativa, imagine um cenário em que não haja trabalhadores suficientes disponíveis para fornecer cuidados em tempo real para a população idosa. Se considerarmos as pressões implacáveis que assombram hoje os profissionais de saúde e que testemunhamos durante a pandemia, esse não é um cenário muito distante. A IA emocional e os computadores com empatia seriam capazes de fornecer uma resposta emocional às reais necessidades humanas. Ao libertar as pessoas de funções necessárias e importantes como essas, poderíamos mais uma vez reservar mais tempo para responsabilidades maiores, que se tornam cada vez mais urgentes à medida que a crise climática se aproxima de um ponto crítico.

A Indústria 5.0 é um potencial trampolim para uma sociedade mais sustentável e mais centrada no ser humano. A tecnologia emergente oferece um potencial real para os humanos chegarem a uma era pós-profissional, em que não somos definidos por nossos empregos, mas pelos nossos propósitos para melhorar a condição humana e o mundo.

Mas para alcançar esse futuro, é claro que as questões de confiança, risco e regulamentação precisam ser tratadas com cuidado e com planejamento. O estudo de 100 anos de Stanford sobre IA nos diz que estamos em um ponto de inflexão, onde a promessa e os perigos dessa tecnologia estão se tornando reais. Embora os últimos cinco anos estejam trazendo inovações e benefícios com os quais antes só podíamos sonhar, o uso da tecnologia de IA para substituir a tomada de decisão humana inevitavelmente criará riscos e consequências imprevistas.

A IA também é criada por humanos e é treinada por dados históricos que não são isentos de discriminação e de preconceitos inerentes, o que significa que a desigualdade pode ser ampliada se houver acesso desigual à informação e à participação na IA. Além do mais, os humanos são criaturas inerentemente produtivas. Muitos de nós gostamos de nossos empregos – eles constituem uma grande parte de nossa identidade – e veríamos o conceito de uma sociedade pós-profissão com ceticismo, senão apreensão, como um futuro alternativo ainda não imaginado.

No geral, a questão não é se as máquinas agirão com boas intenções ou, eventualmente, se elas se tornarão mais inteligentes do que as pessoas. Em alguns contextos, eles já são. O foco hoje deve ser o que podemos fazer agora para garantir que o caminho seja traçado para um futuro otimista.

Com tecnologias emergentes como a IA prometendo substituir o trabalho repetitivo, um novo futuro se abre, e nele o propósito humano é a força motriz por trás de nossas vidas profissionais. Conforme nosso impacto no planeta e a responsabilidade coletiva de promover uma sociedade mais inclusiva atingem um ponto crítico, o valor e o potencial da tecnologia emergente se tornam mais e mais importantes. É dever dos designers, dos inovadores e das empresas conceberem o futuro que desejamos e criar degraus tangíveis para chegarmos lá. Não devemos limitar a nossa ambição ao idealizarmos este futuro, o que agora é alcançável foi outrora apenas imaginado. Nesta junção crítica na definição do papel e da responsabilidade das tecnologias emergentes, agora é a hora de imaginar um futuro no qual alinharemos nosso trabalho para servir às pessoas e ao planeta, tanto em nível individual quanto empresarial.

SOBRE O AUTOR

Cormac Ó Conaire é o diretor de design da Design Partners.