O mito da geração Z desinteressada no trabalho
Os jovens são estimulados a sonhar grande, mas raramente recebem as ferramentas para construir um caminho realista até esses sonhos

Rafaela chega 15 minutos adiantada para a entrevista de emprego. Ensaiou o aperto de mão no espelho do banheiro de casa, o mesmo banheiro que divide com mais três pessoas.
Não sabe como o elevador do prédio comercial funciona e passa dois minutos tentando descobrir isso sozinha, sem perguntar a ninguém, porque a pergunta poderia indicar que ela não está preparada.
Ela quer aquela oportunidade mais do que qualquer coisa. Só não teve, em toda a vida, ninguém que lhe explicasse como esse mundo funciona por dentro.
Essa cena é a síntese de dezenas de relatos colhidos na pesquisa Horizonte Comum, realizada pelo Instituto PROA com 420 jovens de baixa renda e escola pública e mais 129 empregadores de médio e grande porte.
O estudo foi desenvolvido para compreender os principais desencontros e convergências entre jovens e empregadores e confrontar a narrativa equivocada sobre a juventude periférica brasileira: a de que ela não tem ambição.
Entre os participantes da pesquisa – grupo caracterizado, majoritariamente, por mulheres, pessoas negras e oriundas de famílias com baixa escolaridade –, observa-se uma série de vulnerabilidades cotidianas, como falta de privacidade e sobrecarga doméstica.
Tendo esta realidade como pano de fundo, se 75% dos jovens entrevistados afirmam que querem construir uma carreira, por que ainda persiste a ideia de que eles não querem trabalhar?
Os jovens são estimulados a sonhar grande, mas raramente recebem as ferramentas para construir um caminho realista até esses sonhos. Prova disso é que apenas 36% deles se sentem bem-vindos no ambiente de trabalho.
Em um cenário no qual faltam referências concretas e sobram discursos idealizados, muitos jovens enfrentam uma pressão precoce por certezas e desempenho. O resultado é uma desorganização prática e emocional que reflete falta de orientação, apoio e validação.

A insegurança diante do ambiente corporativo vai além da técnica: é simbólica, sensorial e profundamente social. Quando ações simples, como chamar um elevador ou circular por um hall, se tornam fontes de ansiedade, fica evidente que a linguagem do mundo do trabalho ainda é escrita por quem já pertence a ele.
A ausência de tradução cultural e acolhimento transforma o cotidiano em uma sucessão de testes informais, nos quais errar custa caro e acertar sem referências é quase impossível.
Dados da Gallup revelam que até 50% da geração Z se sente ansiosa ou estressada no trabalho o tempo todo ou na maior parte do tempo. No Brasil, esse índice tende a ser ainda mais elevado.
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Nesse contexto, é importante reconhecer que a juventude compartilha um sentimento de insuficiência diante de modelos profissionais pouco adaptados à complexidade de suas vivências.
A inclusão produtiva de jovens em situação de vulnerabilidade demanda mais do que capacitação técnica. Ela exige uma agenda estruturada, sensível às desigualdades e alinhada ao contexto real da juventude periférica.
Embora 83% das empresas esperem que os jovens fiquem até três anos no emprego, a alta rotatividade reflete estruturas sociais marcadas pela instabilidade e modelos organizacionais que ainda não sabem acolher a juventude em sua pluralidade.
Três em cada quatro jovens entrevistados afirmam que querem trabalhar e construir uma carreira.
Apesar de cobrarem atitudes como proatividade, autonomia e inteligência emocional desde o primeiro dia, grande parte das empresas não estrutura os ambientes para sustentar o desenvolvimento dessas habilidades.
Mais da metade dos empregadores não oferece feedback estruturado e 60% não investem em formação continuada, o que revela uma lacuna entre expectativa e prática.
Os espaços de trabalho, muitas vezes, não funcionam como lugares de aprendizado, mas como arenas de validação imediata, em que poucos têm a chance de se desenvolver com segurança. Sem escuta ativa, rituais de acolhimento e oportunidades reais de troca, a inclusão se torna simbólica, mas não efetiva.
Jovens não buscam apenas salário. Eles desejam ambientes onde possam pertencer, aprender e ser reconhecidos e escutados.
Nossa pesquisa não revela culpados: ela nos mostra que o desafio da empregabilidade jovem não nasce da má vontade de um lado ou do despreparo do outro, mas da ausência de escuta qualificada entre mundos que operam a partir de lógicas, repertórios e pressões muito diferentes.
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A palavra que se impõe, ao final, é mediação – não como concessão, mas como estratégia ativa de aproximação. Mentorias cruzadas, espaços de escuta intergeracional e trilhas de socialização profissional são alguns exemplos de como criar pontes entre potencial e oportunidade.
Mediar é reconhecer que tão importante quanto preparar os jovens para o mundo do trabalho é preparar o mundo do trabalho para acolher, formar e crescer com essa juventude.