O que acontece com seu cérebro quando alguém te irrita

Quando experimentamos uma possível ruptura no relacionamento com outra pessoa, o cérebro reage como se estivéssemos em perigo real

Crédito: Buddhi Kumar/ Unsplash

Amy Gallo 5 minutos de leitura

Alguns meses atrás, fui apresentado por e-mail a um consultor, que vou chamar de Brad.  A pessoa que nos apresentou achou que ele seria um bom colaborador da revista “Harvard Business Review”, onde trabalho como editora.

Costumo receber muitos pedidos desse tipo e, quando esse chegou, realmente estava muito ocupada. Brad perguntou se poderíamos conversar por telefone. Eu educadamente recusei e informei que outro editor entraria em contato sobre o rascunho que ele havia enviado. 

Algumas semanas depois, ele perguntou novamente. Mais uma vez, enviei o que pensei ser uma resposta educada, explicando que, devido às demandas e à minha falta de tempo, não poderia ligar para ele. Então, recebi o seguinte e-mail de Brad: “estamos todos ocupados, mas a conexão humana é mais importante. Vou leva meus textos para outro lugar. Não consigo lidar com arrogância.”

Quando interagimos com alguém que nos deixa tensos, nosso cérebro quer nos proteger de danos. Só que às vezes ele se atrapalha.

Essa não foi a primeira vez que tive que lidar com a frustração de um aspirante a autor. Mas esse e-mail me pegou. Reli a mensagem algumas vezes, minha frequência cardíaca aumentando e meus ombros e pescoço ficando tensos. Inicialmente, culpei o tal Brad. Mas logo fiquei em dúvida. Comecei a me perguntar se ele tinha razão. Então, respirei fundo algumas vezes e fiz o que achei certo: apaguei o e-mail.

Mas depois de apertar o delete, aquela mensagem continuou voltando à minha cabeça. Enquanto fazia o jantar naquela noite, pensei na frase “não consigo lidar com arrogância”. E às 3h da madrugada, em vez de voltar a dormir, ainda estava pensando nisso.

Quando interagimos com alguém que nos deixa tensos, nosso cérebro quer nos proteger de danos. Só que às vezes ele se atrapalha. Decidi deixar de lado o e-mail de Brad, deixar quieto e seguir em frente. Mas meu cérebro estava viciado naquela interação.

CÉREBROS EM CONFLITO

Quando experimentamos ou percebemos uma possível ruptura em nosso relacionamento com outra pessoa, o cérebro reage como se estivéssemos diante de um perigo real. Enquanto tenta entender o que estamos experimentando, ele prepara o corpo para responder a essa ameaça percebida 

Em cada lado do cérebro, atrás dos nervos ópticos, há uma amígdala. Uma de suas funções é detectar o medo e preparar o corpo para responder. Então, quando sentimos uma ameaça, a amígdala começa a reagir, sinalizando a liberação de hormônios do estresse, como cortisol e adrenalina.

Essas respostas instintivas economizam tempo e energia e muitas vezes nos mantêm a salvo. Se alguém está parado no meio da estrada e há um carro vindo em sua direção, seria perigoso se seu cérebro parasse para pensar. A pessoa precisa reagir instintivamente e dizer ao seu corpo para sair da rua o mais rápido possível.

DÊ ESPAÇO PARA EVITAR REAÇÕES IMPULSIVAS

Quanto mais você for capaz de perceber suas reações instintivas quando a mente sentir uma ameaça, melhor conseguirá separar as histórias que seu cérebro cria daquilo que realmente está acontecendo.

Depois de se distanciar um pouquinho do episódio que te estressou, reavalie tudo.  Os psicólogos descobriram que a reavaliação – reavaliar uma situação emocional sob uma luz mais positiva ou neutra, ou como um desafio em vez de uma ameaça – ajuda as pessoas a se concentrarem e a tomarem decisões mais ponderadas sobre como proceder.

PRESTE ATENÇÃO AOS NÍVEIS DE ESTRESSE

Quando o estresse está alto, as pessoas se tornam mais suscetíveis às armadilhas das amígdalas. Ter à mão uma lista simples de perguntas para situações complicadas pode fazer a diferença entre perder a calma e encontrar um caminho equilibrado. Criei um checklist mental que uso quando percebo que estou reagindo de modo irracional:

• Estou hidratada?

• Estou com fome?

• Como dormi ontem à noite?

• Com o que mais estou preocupada?

• Tenho grandes projetos ou prazos me preocupando?

• Algum dos meus relacionamentos importantes com amigos ou familiares está tenso agora?

• Quando foi a última vez que fiz algo que gostei?

Monitorar seus recursos mentais dessa maneira pode ajudá-lo a ganhar perspectiva. Quando você entra no modo de sobrevivência, não tem reservas para tolerar estresse adicional.

DÊ TEMPO AO TEMPO

Muitas vezes, uma boa noite de sono é tudo o que se precisa para mudar de humor. Embora possa ser intensa a resposta inicial a um colega de trabalho falando sobre nós em uma reunião ou não dando seguimento a uma tarefa que prometeu realizar, essas emoções negativas geralmente não persistem.

A mente pode trabalhar contra nós em momentos de conflito. Mas podemos usar a mesma ciência do cérebro a nosso favor.

Vamos voltar ao exemplo do meu incidente com Brad. Percebi no dia seguinte, quando acordei, que já estava me importando menos com aquilo. Quase não pensei mais no e-mail durante o dia. A cada dia que passava, lembrava cada vez menos. Enquanto escrevo isso, na verdade, já não me importo muito.

Dê a si mesmo um tempo antes de pensar nos problemas que está tendo com um colega de trabalho. Tente fazer uma pausa. Mais tarde, retorne à interação e veja se você tem um ponto de vista diferente depois de sair do modo impulsivo.

Nossas mentes, muitas vezes, podem trabalhar contra nós em momentos de conflito. Mas podemos usar a mesma ciência do cérebro a nosso favor. Uma maneira de fazer isso é nos lembrando de que a outra pessoa pode estar passando pela mesma coisa.

Pode não ser a intenção do outro nos machucar, nos atacar ou tornar nossa vida miserável – talvez eles estejam agindo por impulso e não estejam pensando com clareza. Enxergar um adversário como uma pessoa com um cérebro que funciona da mesma forma que o seu – e que o de todo mundo –  pode ser o primeiro passo para construir relacionamentos melhores.

Trecho do livro “Getting Along: How To Work with (Even Difficult People)”, de Amy Gallo. Adaptado e reproduzido com permissão da Harvard Business Review Press.


SOBRE A AUTORA

Amy Gallo é editora associada da Harvard Business Review, saiba mais