O segredo de um bom trabalho não é a felicidade

Autonomia, propósito e alinhamento de valores são fatores que pesam mais na satisfação profissional do que muitos imaginam

O segredo de um bom trabalho não é a felicidade
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Art Markman 4 minutos de leitura

Se você trabalha em tempo integral, uma parte significativa da sua semana está dedicada à vida profissional. Além de passar oito horas ou mais por dia trabalhando, é provável que você continue pensando em assuntos do trabalho mesmo quando está fazendo outras atividades. Por isso, embora o emprego não precise ser sua principal fonte de realização na vida, você tende a ser mais feliz de maneira geral se desempenhar uma função que considere gratificante.

Antes de tudo, vale destacar que seu objetivo principal provavelmente deveria ser buscar satisfação no trabalho, e não felicidade. A felicidade é um estado momentâneo, que reflete como você se sente em um determinado instante. Já a satisfação combina alegria e orgulho e representa os benefícios acumulados do seu trabalho ao longo do tempo.

Felicidade e satisfação não são coisas independentes. Se você passa a maior parte do tempo infeliz no trabalho, dificilmente vai considerá-lo satisfatório. Mas é perfeitamente possível atravessar períodos de estresse ou frustração e, ainda assim, sentir satisfação com a carreira. Pense em um maratonista: durante boa parte da prova ele pode sentir intenso desconforto físico, mas, ao cruzar a linha de chegada, experimenta orgulho e satisfação por ter concluído o desafio.

Se você está pensando em mudar de emprego, estes são alguns pontos importantes para considerar.

1. POTENCIALIZE OS ASPECTOS POSITIVOS

Dois fatores exercem grande influência sobre a satisfação no trabalho.

O primeiro é a autonomia. Você tende a se sentir mais satisfeito quando tem algum grau de controle sobre a forma como trabalha. Poder escolher os projetos em que atua, decidir como organizar seu tempo ou definir seus horários são exemplos dessa autonomia. Quanto maior for sua capacidade de controlar esses aspectos, maiores são as chances de você se sentir bem em relação ao trabalho.

O segundo fator é o alinhamento entre as tarefas que você desempenha e suas características de personalidade.

Se seu trabalho exige atenção constante aos detalhes, é mais provável que você o considere interessante e prazeroso caso tenha um perfil naturalmente organizado e cuidadoso. Já quem não possui essa característica tende a enxergar esse tipo de responsabilidade como um fardo.

Da mesma forma, uma função que exige networking constante costuma ser mais agradável para pessoas extrovertidas do que para aquelas de perfil introvertido.

Curiosamente, a melhora desses dois fatores ao longo do tempo também aumenta a satisfação, principalmente no início da carreira. É comum começar o primeiro emprego com pouca autonomia, mas, à medida que ela cresce, a percepção sobre o trabalho também melhora. O mesmo acontece quando suas atividades passam a combinar mais com sua personalidade.

2. ELIMINE OS FATORES NEGATIVOS

Alguns aspectos têm um enorme potencial para tornar o dia a dia profissional desgastante. Quanto menos deles você enfrentar, maior tende a ser sua satisfação.

Um fator frequentemente subestimado durante a busca por emprego é o tempo de deslocamento.

Ter um período de transição entre o trabalho e a vida pessoal pode ser saudável. É uma das razões pelas quais muitas pessoas que trabalham em casa criam seus próprios rituais para marcar o fim do expediente. No meu caso, por exemplo, faço exercícios físicos ao final do dia para substituir esse momento de transição.

Já um deslocamento longo costuma ser desgastante e, com o tempo, pode fazer você associar sentimentos negativos ao emprego.

Outro aspecto difícil de compensar é ter um chefe ruim.

Seu gestor é uma das principais fontes de feedback sobre seu desempenho. Se ele constantemente faz você se sentir mal em relação ao seu trabalho, isso reduz tanto a alegria quanto a satisfação que você obtém da função.

Durante um processo seletivo, procure perceber como as pessoas falam sobre seus líderes. Observe pistas sobre a forma como os funcionários recebem feedback e sobre o clima da equipe. Se sua intuição indicar que há algo errado quando o assunto é a liderança, talvez seja prudente pensar duas vezes antes de aceitar a vaga.

3. ALINHE MISSÃO E VALORES

Um fator importante para a satisfação profissional é o quanto seu trabalho está alinhado aos seus valores.

Diversas pesquisas investigaram os tipos de valores que orientam as pessoas. Esses estudos sugerem que eles costumam se organizar em torno de duas grandes dimensões. A primeira diz respeito ao foco: algumas pessoas priorizam seus próprios interesses, enquanto outras valorizam mais o coletivo. A segunda envolve a preferência por novidade ou estabilidade.

Quem valoriza fortemente a realização pessoal, por exemplo, tende a buscar experiências novas que favoreçam seu próprio crescimento. Já quem valoriza a tradição costuma priorizar estabilidade e bem-estar do grupo.

Entender seus próprios valores pode ajudar a identificar se um novo emprego realmente combina com você.

Uma função dinâmica, cheia de desafios e oportunidades de reconhecimento e promoção tende a ser mais satisfatória para quem valoriza mudanças e conquistas pessoais. Já uma carreira voltada aos bastidores ou ao impacto social pode fazer mais sentido para quem prioriza o bem coletivo. Da mesma forma, um emprego estável costuma agradar mais quem valoriza segurança e previsibilidade.

Esse alinhamento entre missão e valores também ajuda a explicar por que um trabalho antes satisfatório pode deixar de ser.

Nossos valores mudam ao longo da vida. Casamento, nascimento de um filho ou a superação de uma doença, por exemplo, podem levar a uma reavaliação do que realmente importa.

Quando seus valores mudam, mas seu trabalho permanece o mesmo, uma carreira que antes parecia ideal pode deixar de proporcionar satisfação. Se você sente que perdeu o entusiasmo com sua trajetória profissional, vale a pena refletir se seus valores hoje são diferentes daqueles que tinha quando escolheu esse caminho.


SOBRE O AUTOR

Art Markman é PhD e professor de psicologia e marketing na Universidade do Texas e diretor-fundador do Programa nas Dimensões Humanas ... saiba mais