Ócio por escolha: posso envelhecer sem fazer “nada”?

Embora não seja um diagnóstico clínico, a produtividade tóxica é reconhecida como um comportamento de risco.

Idoso descansando na rede
Pessoas aposentadas frequentemente relatam culpa por descansar. Foto: Freepik

Joyce Canelle 4 minutos de leitura

Em meio ao aumento dos debates sobre saúde mental, envelhecimento e bem-estar, um tema pouco discutido fora do ambiente corporativo precisa de mais atenção: a pressão para ser produtivo o tempo todo.

Esse fenômeno, conhecido como produtividade tóxica, não afeta apenas pessoas em idade ativa no mercado de trabalho, mas também quem já se aposentou ou reduziu o ritmo profissional.

A PRESSÃO POR PRODUZIR NÃO ACABA COM A APOSENTADORIA

A ideia de que o tempo precisa ser sempre “bem aproveitado” atravessa gerações. Se antes essa cobrança estava restrita ao trabalho formal, hoje ela se estende à vida pessoal, ao lazer e até ao envelhecimento.

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Pessoas aposentadas frequentemente relatam culpa por descansar, sensação de inutilidade ou a necessidade de preencher todos os horários com atividades produtivas.

Segundo um artigo publicado pela PUC, esse comportamento está ligado à chamada produtividade tóxica, caracterizada pela autocobrança excessiva para estar sempre fazendo algo, mesmo quando não há demanda real.

Trata-se de um padrão reforçado socialmente, que associa horas ocupadas a valor individual, ignorando limites físicos, emocionais e contextuais.

Embora não seja um diagnóstico clínico, a produtividade tóxica é reconhecida como um comportamento de risco, capaz de contribuir para quadros de ansiedade, depressão e burnout.

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Ela é mais comum em pessoas com baixa autoestima, síndrome do impostor e histórico de ambientes profissionais inseguros, marcados por medo de demissão, microgestão e assédio moral.

HUSTLE CULTURE E SOCIEDADE DO CANSAÇO

Do ponto de vista coletivo, dois conceitos ajudam a explicar por que “não fazer nada” ainda é visto como problema. O primeiro é a hustle culture, ou cultura da dedicação total, que valoriza o trabalho intenso, jornadas prolongadas e sacrifícios pessoais como sinônimo de sucesso.

Popularizada a partir do crescimento das empresas de tecnologia nos anos 1990 e 2000, essa lógica ultrapassou o mundo corporativo e passou a influenciar a forma como as pessoas organizam toda a vida.

O segundo conceito é o da sociedade do cansaço, descrita pelo filósofo Byung-Chul Han. Nesse modelo, o indivíduo é constantemente estimulado a acreditar que pode e deve dar conta de tudo.

O resultado é uma avalanche de expectativas internas, acompanhada da sensação permanente de insuficiência. Mesmo fora do trabalho, o descanso precisa ter propósito, rendimento ou algum tipo de melhoria pessoal. Com isso, o ócio perde espaço e passa a ser encarado como desperdício de tempo.

QUANDO A PRODUTIVIDADE VIRA FUGA EMOCIONAL

No plano individual, a produtividade excessiva também pode funcionar como uma forma de lidar com o desconforto. Em momentos de incerteza, estresse ou perda de controle, focar em tarefas mensuráveis oferece uma falsa sensação de segurança. Trabalhar mais, organizar mais, ocupar cada minuto se transforma em uma estratégia para evitar emoções difíceis.

O problema é que esse padrão tende a se manter mesmo quando o contexto muda, como após a aposentadoria. A ausência de obrigações formais não elimina automaticamente a cobrança interna, que pode se manifestar como culpa ao descansar ou dificuldade em relaxar.

SINAIS DE ALERTA DA PRODUTIVIDADE TÓXICA

Alguns comportamentos ajudam a identificar quando a busca por produtividade deixa de ser saudável:

  • Culpa constante ao descansar ou não fazer nada;
  • Sensação de que nunca se faz o suficiente, mesmo sem pendências;
  • Dificuldade de relaxar em momentos de lazer;
  • Negligência com alimentação, atividade física ou consultas médicas em nome de tarefas; e
  • Necessidade de ocupar todo o tempo com atividades “úteis”.

Esses sinais não se restringem ao ambiente de trabalho e podem persistir ao longo do envelhecimento.

ENVELHECER NÃO SIGNIFICA PARAR

Um dos mitos mais comuns sobre envelhecer é a ideia de que o valor da pessoa diminui quando ela reduz o ritmo. Na prática, o envelhecimento envolve mudanças naturais no corpo e no funcionamento físico, mas isso não significa perda automática de autonomia, memória ou prazer.

Conforme publicado pelo Instituto de Longevidade MAG, muitas limitações atribuídas à idade podem ser prevenidas ou controladas com hábitos adequados.

Atividades físicas continuam sendo importantes em todas as fases da vida, desde que respeitem os limites individuais. Caminhadas, alongamentos, exercícios aquáticos e práticas de resistência ajudam a manter força, equilíbrio e mobilidade.

Ao mesmo tempo, isso não implica transformar o envelhecimento em mais uma meta de desempenho. Ajustar o ritmo, descansar e aceitar períodos de menor produtividade faz parte de um processo saudável.

O VALOR DE NÃO FAZER NADA

“Fazer nada” não significa apatia ou isolamento. Trata-se de reservar momentos sem objetivo específico, sem cobrança de aprendizado, performance ou resultado. Para algumas pessoas, isso pode ser ficar em silêncio, ouvir música ou simplesmente observar o ambiente.

A neurociência aponta que pausas são fundamentais para a saúde mental, pois permitem que o cérebro processe informações, recupere energia e reduza níveis de estresse.

Ainda assim, o ócio continua sendo um dos aspectos mais difíceis de legitimar socialmente, especialmente entre pessoas que passaram a vida inteira associando identidade ao trabalho.

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Envelhecer de forma saudável não exige escolher entre atividade e descanso, o equilíbrio está justamente na alternância entre movimento e pausa. Manter uma vida ativa é importante, mas isso não precisa ocorrer sob a lógica da cobrança constante.


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