A transformação do ambiente de trabalho, da lógica do funcionamento das organizações e de seus funcionários não é nova. Porém, há exatamente um ano, empresas de todo o país (e do mundo) transformavam suas operações, da noite para o dia, literalmente, em operações remotas.

E, desde então, muito tem se falado sobre os desdobramentos e consequências do home office, passando por questões de saúde mental e produtividade ao surgimento de modelos híbridos e mais funcionais para os escritórios. Um dos muitos cenários que cresceu e evoluiu durante a pandemia foi o mercado dos freelancers, profissionais autônomos que colaboram com empresas em projetos pontuais ou temporários.

Mas burocracia e a falta de um modelo estruturado que beneficie tanto o profissional quanto a empresa são alguns dos impasses para a evolução do mercado da open talent economy, especificamente, nas áreas de criatividade, estratégia, conteúdo e design. De acordo com Rodrigo Allgayer, cofundador da HR tech Creators, o conceito de gig economy, ou, em português, a economia dos bicos, não pode ser aplicado a relações de trabalho mais complexas. “A entrega de um estrategista é mais subjetiva, precisa de um suporte para que flua da melhor maneira.”

Nohoa Arcanjo e Rodrigo Allgayer, cofundadores da Creators.LLC (Crédito: Reprodução)

Fundada em 2017 para facilitar a contratação de talentos criativos independentes por grandes empresas, a startup teve crescimento de 65% na receita em 2020. Por meio de algoritmos, a plataforma refina buscas para conectar os profissionais ideais para a necessidade de cada empresa em até 24 horas. “No Brasil, esse modelo está se estabelecendo. Nos EUA, 40% da mão de obra já é independente, na Alemanha os freelancers receberam auxílios do governo. No Brasil tem muito empreendedor, mas precisamos ter mudanças organizacionais nas empresas e no Estado. A gente não tem como pegar modelo independente e botar no tradicional”, diz Allgayer.

Um dos principais desafios, explica ele, é estabelecer um modelo confiável e estruturado que combata a precarização do talento independente. A plataforma fornece ao contratante uma lista com os perfis disponíveis e interessados no projeto e oferece o suporte de um recrutador de talentos para ajudar nas seleções mais especializadas. Caso o match não funcione, a Creators substitui o profissional. Para o freelancer, a plataforma oferece o pagamento proporcional aos dias trabalhados em caso cancelamento do contrato. Entre os profissionais mais requisitados estão redatores (24,8%), diretores de arte (24,5%), designers gráficos (10,0%), planners (9,7%) e programadores (6,6%).

Segundo Nohoa Arcanjo, cofundadora e líder das áreas de growth e sales da Creators, as demandas das grandes empresas ao longo da pandemia têm girado, principalmente, em torno de social media e projetos de branded content. Para ela, as incertezas globais impuseram uma reestruturação da produção criativa em geral. Por isso, o mercado passou a se voltar ainda mais para profissionais sob demanda que tenham habilidades específicas. “Nossa missão é diminuir os riscos e aumentar a eficiência para os contratados e para as empresas. O talento deve ser visto como uma equipe estendida do time interno.”

Para a dupla, haverá, cada vez mais, uma complementaridade de modelos de contratação tradicionais e contratações flexíveis. “O mercado vai se desenvolver à medida que as pessoas se sentirem confortáveis em trabalhar desta maneira por terem estruturas confiáveis. Hoje, as pessoas vivem vidas mais expostas, compartilham o que fazem em tempo real e esperam mais feedback. E essa economia de talentos aberta acaba sendo um ambiente onde as pessoas podem se conectar e compartilhar, construindo senso de comunidade. Quanto mais micro comunidades forem criadas e fortalecidas, criando negócios, mais esse mercado vai se desenvolver”, explica Allgayer.

A busca pela autonomia e jornadas de trabalho flexíveis é algo que deve continuar aumentando nos próximos anos, segundo pesquisas da própria Creators: no ano passado, 60% de 500 entrevistados possuíam reservas de emergência para os próximos seis meses e tinham plano de saúde. Em 4 anos de operação a startup intermediou mais de 4 milhões em contratações de freelancers, possui cerca de 2 mil talentos na rede e mais de 60 clientes ativos, entre eles marcas como Google, Pernod Ricard, Wildlife, Quinto Andar e agências como a Cubocc.

SOBRE O AUTOR

Isabella Lessa é redatora-chefe da Fast Company Brasil