Os empreendedores que rejeitam a cultura da exaustão

Após enfrentarem burnout, empreendedores criam negócios alinhados ao próprio estilo de vida e não às expectativas do mercado

Os empreendedores que rejeitam a cultura da exaustão
Créditos: Getty Images/ Magnific

Anisa Purbasari Horton 5 minutos de leitura
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Quando as pessoas pensam em empreendedores, costumam associá-los a expressões como "quem faz acontecer", "obcecados por crescimento" e defensores da chamada cultura da produtividade extrema.

Embora muitos falem publicamente sobre a importância da saúde mental e do bem-estar, suas agendas geralmente contam uma história bem diferente, marcada pela falta de equilíbrio entre vida pessoal e trabalho.

Não surpreende, portanto, que essa mentalidade frequentemente leve ao burnout. Em uma pesquisa realizada em 2024 com 300 empreendedores, 63% afirmaram lidar com o esgotamento profissional, enquanto 59% conviviam com ansiedade e depressão.

Os números podem desanimar quem sonha em abrir um negócio ou quem já empreende e se pergunta se é possível continuar sem sacrificar a própria saúde mental.

Em um mundo que alterna entre glorificar a cultura da correria e incentivar um estilo de vida mais desacelerado, alguns empreendedores decidiram buscar um caminho intermediário. Eles apostam no "empreendedorismo confortável".

A DECEPÇÃO COM O EMPREGO TRADICIONAL

Deya Aliaga criou seu negócio para escapar da vida corporativa. A empreendedora de 31 anos, que mora em Berlim, passou boa parte da vida se preparando para subir na hierarquia das grandes empresas. Mas perdeu o entusiasmo durante um estágio de seis meses em uma importante consultoria. Foi então que começou a trabalhar como freelancer nas noites e fins de semana.

Como não tinha uma especialização consolidada, aceitava praticamente qualquer trabalho: locuções, tarefas administrativas e atendimento por e-mail. Sempre que não sabia fazer alguma atividade, recorria ao Google e ao YouTube para aprender.

Com o tempo, conquistou clientes suficientes para trabalhar por conta própria em tempo integral. Também desenvolveu habilidades em gestão de projetos, criação de sistemas de conteúdo, lançamento de produtos e liderança de equipes.

Essa experiência resultou em seu primeiro produto digital sobre gestão de negócios e processos, além da criação de seu canal no YouTube.

Lorraine Mazwi também enxergou o empreendedorismo como uma alternativa ao emprego tradicional. Hoje com 36 anos, ela passou os 20 e poucos anos construindo carreira na área da saúde. Começou como enfermeira e, aos 30 anos, já ocupava um cargo de gestão.

Leia mais: Como a disrupção da IA pode impulsionar um boom de novos empreendedores?

Tudo mudou quando engravidou e, inesperadamente, tornou-se mãe solo. Ela decidiu deixar o emprego e passou a registrar sua jornada de desenvolvimento pessoal no YouTube. Com o crescimento da audiência, surgiram pedidos por mentorias.

Atualmente, Mazwi mantém um canal na plataforma e oferece serviços de mentoria voltados para marca pessoal e sistemas de gestão de negócios.

COMO ESCAPAR DA CULTURA DA PRODUTIVIDADE EXTREMA

Assim como acontece com muitos empreendedores, Aliaga e Mazwi acabaram reproduzindo a lógica da produtividade extrema ao iniciar seus negócios. No caso de Mazwi, esse comportamento vinha da experiência como imigrante do Zimbábue no Reino Unido.

A dedicação intensa havia funcionado durante sua carreira na saúde, e ela levou essa mesma mentalidade para o empreendedorismo. "Eu passava por períodos em que trabalhava sem parar. Depois vinha o burnout e eu simplesmente não conseguia fazer mais nada", conta.

Aliaga, por sua vez, percebeu que estava estruturando seu negócio exclusivamente em torno do crescimento financeiro. Chegou ao ponto de ter dificuldade para sair da cama e começar o expediente.

Foi então que encontrou o conceito de "jogo confortável" (cozy gaming), gênero de videogames voltado para desacelerar, estimular a criatividade e proporcionar momentos de relaxamento. Ela se perguntou como essa filosofia poderia ser aplicada ao empreendedorismo.

COMO FUNCIONA O EMPREENDEDORISMO CONFORTÁVEL

Aliaga estabeleceu três regras fundamentais para conduzir seu negócio. A primeira foi adotar uma política rígida de "culpa zero". Ela percebeu que carregava a sensação constante de que precisava fazer sempre mais. "Isso reduziu o estresse e a sensação de sobrecarga. E, curiosamente, permitiu que minha produtividade aflorasse de forma muito mais natural."

A segunda regra foi criar limites claros para impedir que o negócio ocupasse todos os momentos do dia. Isso incluiu reservar, na agenda, horários específicos para lazer.

A terceira foi otimizar a empresa em função de como ela deseja se sentir diariamente. "Quando você não define o seu próprio conceito de sucesso, acaba adotando o conceito da sociedade, que normalmente significa ganhar mais dinheiro", aponta Aliaga.

6 em cada 10 empreendedores dizem lidar com esgotamento profissional e conviver com ansiedade e depressão.

Segundo ela, substituir seus próprios objetivos pelos padrões sociais leva à construção de um negócio do qual você não gosta.

Mazwi também percebeu que precisava mudar sua relação com o trabalho para conseguir expandir o negócio sem repetir os ciclos de esgotamento. Para ela, empreendedorismo confortável significa criar sistemas que permitam trabalhar em diferentes ritmos ao longo do ano.

Nos dias em que tem mais energia, dedica-se às tarefas estratégicas e criativas. Nos dias de menor disposição, concentra-se em atividades administrativas.

Ela também organiza o ano em quatro períodos. O primeiro e o último trimestre são os mais intensos. Já no segundo e terceiro trimestres, quando a demanda costuma diminuir, agenda conteúdos e ações de marketing com antecedência para poder reduzir o ritmo e tirar férias.

UM NOVO MODELO DE SUCESSO

Na essência, o empreendedorismo confortável representa uma forma de empreendedorismo sustentável, afirma Ute Stephans, professora de empreendedorismo do King's College London.

"As pessoas criam empresas porque buscam autonomia. Ao mesmo tempo, essa autonomia aumenta o risco de burnout. Não existe um momento óbvio para encerrar o expediente. Sempre há algo mais para fazer. Sempre há outra maneira de expandir o negócio", analisa.

Segundo Stephans, os empreendedores que prosperam costumam enxergar o bem-estar e a saúde mental como um investimento.

Em geral, são pessoas que já passaram por ciclos de burnout e crises, aprenderam a importância do equilíbrio e desenvolveram experiência suficiente para lidar com problemas e conflitos sem aumentar desnecessariamente o nível de estresse. Para ela, o crescimento do empreendedorismo confortável é uma mudança bem-vinda.

Por muito tempo, diz a professora, a mídia apresentou apenas um tipo de empreendedor: aquele disposto a priorizar o crescimento acima de qualquer outra coisa e sacrificar tudo para alcançar esse objetivo. Mas agora começa a ganhar força uma visão diferente. "Estamos passando a enxergar o empreendedorismo como um meio para alcançar múltiplos objetivos", diz Stephans.

Considerando que empreendedores têm motivações e definições de realização muito diferentes entre si, ela acredita que o futuro será marcado por uma grande diversidade de modelos de empreendedorismo.


SOBRE A AUTORA

Anisa Purbasari Horton é escritora e editora freelance. Ela cobre a interseção entre trabalho e vida, desenvolvimento pessoal, dinheir... saiba mais