Pais de meninas podem ser chefes melhores

Estudo mostra que gestores homens passaram a contratar e promover mais mulheres depois de se tornarem pais de meninas

Pais de meninas podem ser chefes melhores
Créditos: Magnific/ Unsplash

Sarah Bregel 5 minutos de leitura
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Ter um filho pode mudar abruptamente a maneira como você enxerga o mundo. Isso pode ser especialmente verdadeiro quando se trata de homens que criam meninas.

Segundo uma nova pesquisa, pais que ocupam cargos de gestão passam a se comportar de maneira diferente com as mulheres no trabalho depois de terem filhas.

O novo estudo, publicado na "The Review of Economic Studies", utilizou dados administrativos da Dinamarca para cruzar registros de empregadores com informações sobre as famílias dos gestores.

A pesquisa se concentrou em locais de trabalho que tinham apenas uma pessoa em posição de gestão em determinado ano; portanto, esse gestor seria a pessoa com maior probabilidade de estar à frente de decisões como contratação e promoção.

O estudo analisou o nascimento da primeira filha como um fator externo possivelmente capaz de influenciar as atitudes de gênero dos gestores homens. Os pesquisadores constataram que, quando esses gestores tinham uma filha, ficavam mais propensos a contratar mulheres.

Isso era especialmente verdadeiro para mulheres que atendiam a três critérios: níveis mais altos de escolaridade, emprego em período integral e salário elevado na empresa. No geral, a taxa de contratação de mulheres por gestores homens aumentou 2,9% após o nascimento da primeira filha.

A mudança nas contratações não foi a única diferença perceptível na maneira como os gestores homens trabalhavam com mulheres. O estudo encontrou evidências de que as promoções também passaram a favorecer as mulheres.

O estudo explica que os gestores homens tinham maior probabilidade de promover mulheres depois de se tornarem pais de uma filha, “desde que o grupo de pessoas ocupando os cargos incluísse funcionárias que fossem mais bem qualificadas para funções de maior responsabilidade”.

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Da mesma forma, a pesquisa constatou que o efeito da primeira filha levou a um aumento relativo de aproximadamente 4,4% nos rendimentos das mulheres que trabalhavam para esses chefes homens.

O nascimento de outras filhas também teve algum impacto, embora menos significativo, o que indica que o nascimento da primeira filha foi o fator que mais influenciou as decisões de contratação e promoção dos gestores homens.

PRECONCEITO DISSEMINADO

O estudo não apontou uma razão específica e definitiva para a mudança de comportamento dos gestores. No entanto, ele dá continuidade a pesquisas anteriores que constataram que chefes homens podem ser mais favoráveis às mulheres no ambiente de trabalho de diversas maneiras quando têm filhas.

Da mesma forma, usuários das redes sociais passaram a chamar os pais de meninas de “melhores chefes” – talvez com alguma razão.

Nina Smith, autora do estudo e professora emérita do departamento de economia da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, acredita que o estudo seja uma “documentação do preconceito inconsciente e dos estereótipos inconscientes de gênero”.

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Créditos: Ali Aksu/ Bartosz Kwitkowski/ Europeana/ Laura Cleffmann/ Unsplash

Em outras palavras, o preconceito que normalmente impede as mulheres de avançar no trabalho é tão disseminado que o estudo conseguiu identificar um aumento na equidade de gênero.

Maddalena Ronchi, professora assistente de finanças na Escola de Administração Kellogg da Universidade Northwestern e coautora da pesquisa, concorda.

Segundo ela, os pesquisadores conseguiram concluir que não era provável que os pais estivessem mudando conscientemente a maneira como lidavam com as disparidades de gênero para impactar a experiência de suas próprias filhas, já que a mudança acontece rapidamente e não parece ser uma forma de ajudar o próprio filho a ter sucesso.

ter uma filha contribui para desenvolver uma compreensão mais clara das mulheres em geral.

“A mudança acontece logo após o nascimento. Uma filha recém-nascida não pode se beneficiar das decisões de contratação do pai pelos próximos 20 anos, portanto, o interesse próprio é uma explicação improvável”, explica.

Em vez disso, ela suspeita que a experiência de ter uma filha seja uma experiência mais ampla, que contribui para desenvolver uma compreensão mais clara das mulheres em geral, especialmente de como elas podem vivenciar o ambiente de trabalho.

“Nossas evidências se encaixam melhor na ideia de que uma filha torna a desigualdade de gênero mais evidente para o pai”, diz Ronchi. “Ele passa a ter mais consciência disso e a se identificar mais com as mulheres.”

POLÍTICAS PRÓ IGUALDADE DE GÊNERO

A pesquisa observou que não encontrou “nenhum efeito significativo” sobre o desempenho geral dos locais de trabalho que contrataram mais mulheres.

“Também não encontramos nenhum sinal de uma troca entre equidade e eficiência”, diz Ronchi. “Os gestores contrataram mulheres tão qualificadas quanto os homens que teriam contratado de outra forma, e o desempenho das empresas não foi prejudicado.”

Como era de esperar, isso sugere que os gestores homens podem contratar e promover mulheres com mais frequência sem precisar se preocupar com um impacto negativo para suas empresas.

Kirk Davis, vice-presidente de recursos humanos de clientes e consultor jurídico trabalhista da Congruity HR – e pai de uma menina – acredita que a lição do estudo é que, quando se trata de gênero, “a exposição gera compreensão”.

“Quanto mais os líderes enxergam o ambiente de trabalho pelos olhos das mulheres presentes em suas vidas – sejam filhas, esposas, colegas ou integrantes de suas equipes –, maior a probabilidade de reconhecerem que equidade não significa favorecimento", diz Davis. “Significa garantir que toda pessoa talentosa tenha uma oportunidade justa de contribuir, crescer e liderar.”

Apesar dos resultados promissores do estudo, a desigualdade de gênero ainda existe de maneira ampla. Embora as diferenças salariais tenham diminuído ligeiramente nos últimos 20 anos, as mulheres ainda recebem cerca de 85% do que os homens ganham, segundo dados de 2024 do Pew Research Center.

De acordo com o novo relatório, contratar mais mulheres por si só não é suficiente para eliminar essa diferença e alerta que “políticas destinadas a mudar a percepção dos gestores sobre os custos sociais da desigualdade de gênero podem, portanto, ser necessárias”.


SOBRE A AUTORA

Sarah Bregel é uma escritora, editora e mãe solteira que mora em Baltimore, Maryland. Ela contribuiu para a nymag, The Washington Post... saiba mais