Por que não há consenso sobre o que é mindfulness

Ao longo das últimas duas décadas, o conceito de mindfulness se tornou extremamente popular em todo o mundo

Por que não há consenso sobre o que é mindfulness
Jorm Sangsorn via Getty Images, NASA Hubble Space Telescope via Unsplash

Ronald S. Green 5 minutos de leitura

Ao longo das últimas duas décadas, o conceito de mindfulness se tornou extremamente popular em todo o mundo. 

Cada vez mais presente na sociedade, ele é ensinado em ambientes que vão de empresas e escolas a programas esportivos e até ao meio militar.

Nas redes sociais, na televisão e em aplicativos de bem-estar, o mindfulness costuma ser apresentado como algo simples: manter a calma e prestar atenção ao momento presente.

Grandes empresas como o Google utilizam programas de mindfulness para ajudar funcionários a se manterem focados e menos estressados. 

Hospitais usam a prática para auxiliar no controle da dor e na melhoria da saúde mental. Milhões de pessoas recorrem hoje a aplicativos de mindfulness que prometem desde redução do estresse até melhora do sono.

O PROBLEMA POR TRÁS DO ENTUSIASMO

Mas, como alguém que passou anos examinando como o mindfulness é definido e praticado em diferentes tradições e períodos históricos, percebo um problema surpreendente por trás desse entusiasmo crescente: cientistas, clínicos e educadores ainda não concordam sobre o que exatamente é mindfulness — nem sobre como medi-lo.

Como diferentes pesquisadores medem coisas distintas sob o rótulo de “mindfulness”, dois estudos podem apresentar resultados muito diferentes sobre o que a prática realmente faz. 

Para quem escolhe um aplicativo ou programa de meditação com base em pesquisas científicas, isso faz diferença.

O estudo em que você confia pode estar avaliando uma habilidade — como atenção, calma emocional ou autocompaixão — que não é exatamente aquela que você espera desenvolver. 

Isso dificulta a comparação de resultados e pode deixar as pessoas inseguras sobre qual abordagem realmente ajudará no dia a dia.

DAS TRADIÇÕES ANTIGAS À CIÊNCIA MODERNA

O mindfulness tem raízes profundas em tradições contemplativas budistas, hindus, jainistas, sikhs e de outras culturas asiáticas. 

O texto budista Satipatthana Sutta: Os Fundamentos do Mindfulness enfatiza a observação momento a momento do corpo e da mente.

O conceito hindu de dhyāna, ou contemplação, cultiva a atenção contínua na respiração ou em um mantra. 

O samayika jainista, prática da equanimidade, desenvolve um equilíbrio calmo em relação a todos os seres. 

Já o simran sikh, ou lembrança contínua, dissolve o pensamento centrado no eu em uma consciência mais profunda da realidade subjacente a cada momento.

No final do século 20, professores e profissionais da saúde começaram a adaptar essas técnicas para contextos seculares, especialmente por meio de programas como a redução do estresse baseada em mindfulness. 

Desde então, o mindfulness migrou para a psicologia, a medicina, a educação e até o bem-estar corporativo.

Ele se tornou uma ferramenta amplamente utilizada — embora frequentemente definida de maneiras diferentes — em diversos campos científicos e profissionais.

POR QUE OS CIENTISTAS DISCORDAM SOBRE MINDFULNESS?

Na aplicação moderna do mindfulness, especialmente na psicologia, o desafio da definição é central. Diferentes pesquisadores focam em aspectos distintos e desenvolvem seus testes com base nessas ideias.

Alguns cientistas entendem o mindfulness principalmente como atenção — prestar atenção cuidadosa ao que está acontecendo no momento presente.

Outros definem o conceito em termos de regulação emocional e da capacidade de manter a calma diante do estresse.

Há ainda um grupo de estudos que enfatiza a autocompaixão, ou seja, ser gentil consigo mesmo ao cometer erros.

Outros pesquisadores destacam a consciência moral, defendendo que o mindfulness deve ajudar as pessoas a fazer escolhas mais sábias e éticas.

AS DIFERENÇAS NOS INSTRUMENTOS DE MEDIÇÃO

Essas diferenças ficam evidentes quando observamos os testes usados para medir o mindfulness. A Mindful Attention Awareness Scale (MAAS) avalia o quanto uma pessoa consegue se manter focada no momento presente.

O Freiburg Mindfulness Inventory (FMI) investiga se a pessoa consegue notar pensamentos e sentimentos à medida que surgem e aceitá-los sem julgamento.

Já o Comprehensive Inventory of Mindfulness Experiences (CHIME) inclui algo que a maioria dos outros testes deixa de fora: perguntas sobre consciência ética e a capacidade de fazer escolhas sábias e morais.

Como resultado, pesquisas comparativas se tornam mais difíceis, e isso também pode confundir quem deseja ser mais mindful, mas não sabe qual caminho seguir. 

Diferentes programas podem se basear em definições distintas de mindfulness, o que significa que as habilidades ensinadas e os benefícios prometidos podem variar bastante.

Assim, alguém que escolhe um curso ou aplicativo de mindfulness pode acabar aprendendo algo muito diferente do que imaginava, a menos que entenda como aquele programa específico define e mede o mindfulness.

POR QUE CADA ESCALA MEDE COISAS DIFERENTES?

John Dunne, estudioso de filosofia budista da Universidade de Wisconsin–Madison, oferece uma explicação útil para quem se pergunta por que todos parecem falar de mindfulness de maneiras diferentes. 

Segundo ele, o mindfulness não é uma coisa única, mas uma “família” de práticas relacionadas, moldadas por diferentes tradições, objetivos e contextos culturais.

Isso ajuda a explicar por que cientistas e praticantes frequentemente falam linguagens diferentes. 

Se um estudo mede atenção e outro mede compaixão, seus resultados não vão coincidir. E, para quem pratica mindfulness, faz diferença seguir um caminho focado em acalmar a mente, desenvolver gentileza consigo mesmo ou fazer escolhas eticamente conscientes.

POR QUE ISSO IMPORTA?

O fato de o mindfulness não ser uma coisa única afeta a forma como ele é estudado, praticado e ensinado. Isso é importante tanto em nível institucional quanto individual.

Em escolas e serviços de saúde, por exemplo, um programa de mindfulness voltado à redução do estresse será muito diferente de outro focado em compaixão ou consciência ética. 

Sem clareza, professores, médicos e terapeutas podem não saber qual abordagem é mais adequada para seus objetivos. O mesmo vale para empresas interessadas em eficácia organizacional e gestão do estresse.

Apesar das discordâncias, pesquisas indicam que diferentes formas de mindfulness podem gerar benefícios distintos. Práticas que aprimoram a atenção ao momento presente estão associadas à melhora do foco e do desempenho no trabalho.

Abordagens orientadas para a aceitação tendem a ajudar no manejo do estresse, da ansiedade e da dor crônica. Métodos baseados na compaixão podem fortalecer a resiliência emocional. Programas que enfatizam a consciência ética podem incentivar comportamentos mais reflexivos e pró-sociais.

Esses resultados variados ajudam a explicar por que os pesquisadores continuam debatendo qual definição de “mindfulness” deve orientar os estudos científicos.

Para quem pratica mindfulness individualmente, essa é uma lembrança importante: escolher práticas alinhadas às suas necessidades faz toda a diferença.

Este artigo foi republicado do The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.


SOBRE O AUTOR

Ronald S. Green é professor e chefe do Departamento de Filosofia e Estudos Religiosos da Universidade Coastal Carolina. saiba mais