Produtividade digital: as consequências do excesso de tecnologia no trabalho

A solução pode ser mais simples do que parece: se desconectar e entrar em contato com a natureza

produtividade digital e excesso de tecnologia no trabalho
Ccrédito: Marina113/ Getty Images

Jean Case 4 minutos de leitura

Ao longo de décadas, meu trabalho passou por diferentes setores, países e culturas. Sempre girou em torno de explorar, descobrir e criar coisas novas. Meu marido e eu costumamos resumir nossa atuação nos negócios, no terceiro setor e na filantropia em uma frase simples: investimos em pessoas e ideias capazes de mudar o mundo.

Passei boa parte da minha vida conhecendo e compartilhando iniciativas promissoras. Isso me levou à construção da internet, a vilarejos e grandes cidades pelo mundo, aos 50 estados dos EUA e também à sala do conselho da National Geographic Society, onde acabo de completar 10 anos como presidente.

Foi um privilégio enorme liderar esses esforços. Conseguimos gerar impacto real de várias formas. Mas esse não é um trabalho fácil – meu envolvimento com pesquisas sobre câncer cerebral deixou claro o quanto ainda sabemos pouco sobre o cérebro.

Também é muito complexo – não é fácil levar iniciativas para contextos tão diferentes entre si. Ainda assim, ele continua me enchendo de energia.

Em quase todos esses momentos, a tecnologia esteve no centro da busca por “uma forma melhor de fazer as coisas” e desempenhou um papel fundamental em cada história de sucesso do nosso portfólio.

Mas, ao chegarmos ao fim de mais um ano, fica difícil ignorar o outro lado dessa história. A tecnologia ainda traz esperança e avanços importantes, mas os efeitos do uso excessivo estão cada vez mais evidentes.

Hoje, as pessoas passam mais de sete horas por dia olhando para telas. Ao mesmo tempo, os casos de ansiedade, depressão, isolamento e solidão dispararam, principalmente entre os mais jovens.

Nossos cérebros estão mudando de formas que ninguém escolheu, e a saúde física e mental da população está pagando o preço. Para piorar, a promessa de que a tecnologia aproximaria pessoas e comunidades acabou, em muitos casos, fazendo o oposto.

O QUE FAZER, ENTÃO?

Diante disso, o que podemos fazer? A resposta, ao que tudo indica, está bem diante dos nossos olhos. Não se trata de abandonar a tecnologia, mas sim de algo muito mais simples: se desconectar por um tempo e entrar em contato com a natureza.

Isso mesmo. A natureza é um remédio poderoso.

Pesquisas recentes confirmam o que muita gente já sente na prática. Uma extensa meta-análise realizada pela Universidade Stanford, nos Estados Unidos, reunindo 449 estudos, mostra que o contato com a natureza melhora de forma significativa a saúde mental – incluindo o humor, o estresse e a ansiedade.

pessoa andando na grama
Crédito: Freepik

Mais animador ainda: apenas 20 minutos em um parque já faz as pessoas se sentirem melhor. Exposições frequentes à natureza, mesmo que de apenas 10 minutos, geram benefícios mensuráveis para pessoas com transtornos mentais. E os efeitos vão muito além do bem-estar individual.

Não estamos falando de ganhos pequenos. São efeitos comparáveis aos de um tratamento clínico, só que alcançados com o “remédio” mais acessível que existe. Muitas vezes, o único esforço necessário é calçar um tênis ou subir em uma bicicleta. O grande diferencial do contato com o ambiente externo é justamente esse: ele está ao alcance de quase todo mundo.

Diferente de academias caras ou equipamentos específicos, sair de casa não custa nada e não exige nenhuma habilidade especial. Pode ser uma volta no quarteirão, uma caminhada de 20 minutos pelo bairro ou um passeio em um parque. O simples ato de caminhar já traz benefícios reais para a saúde.

QUESTÃO DE ESCOLHA

Estamos diante de um ponto decisivo. Podemos continuar tratando o isolamento digital e o desgaste da saúde física e mental como efeitos colaterais inevitáveis do avanço tecnológico. Ou podemos lembrar que a experiência humana começou ao ar livre, em comunidade, resolvendo problemas juntos, e que nossa saúde depende de vivências que aplicativo nenhum é capaz de substituir.

Não se trata de voltar a um passado romantizado. Trata-se de equilíbrio. De tornar o tempo longe das telas tão comum quanto checar e-mails. Algo simples, como dar uma caminhada, encontrar vizinhos ou passar um tempo em um parque perto de casa. Fazer do contato com a natureza a regra, não a exceção.

Passar 20 minutos em um parque já faz as pessoas se sentirem melhor.

As telas vão continuar lá quando você voltar. Mas recuperar a saúde e a convivência social por meio do contato com o ambiente externo exige escolha.

Exige pessoas preferindo caminhar a rolar a tela, empresas incentivando pausas ao ar livre, profissionais de saúde prescrevendo visitas a parques e gestores públicos criando cidades caminháveis, que nos permitam estar em contato uns com os outros e com a própria natureza.

A pergunta não é se você tem tempo para isso. É se está disposto a dar uma chance a essa solução que estava escondida bem à vista de todos.


SOBRE A AUTORA

Jean Case é CEO da Fundação Case e ex-presidente do conselho curador da National Geographic Society. saiba mais