Psicose de IA é o novo ponto cego das lideranças

Excesso de confiança, pouca curiosidade e falta de governança podem fazer líderes perderem a capacidade de questionar a IA

Crédito: Unsplash

Nik Kinley 5 minutos de leitura
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No ano passado, um psiquiatra da Universidade da Califórnia, em São Francisco, relatou ter hospitalizado 12 pessoas em um único ano depois que elas "perderam o contato com a realidade por causa da IA". Ele chamou o fenômeno de "psicose de IA".

Não se trata de um diagnóstico oficial, e casos tão graves continuam sendo raros. Mas o mecanismo por trás deles merece a atenção de todos os líderes.

Afinal, o que enfraqueceu a conexão daqueles pacientes com a realidade foi a exposição prolongada a uma voz que parecia informada e segura, além de sempre se mostrar solidária e paciente. E uma versão mais branda desse mecanismo já está acontecendo nas salas de reunião de executivos pelo mundo.

A promessa da IA é real, e os líderes empresariais estão certos em querer aproveitá-la. O que deveria preocupá-los é quanta confiança estão depositando nela e com que velocidade.

Em uma pesquisa recente, 74% dos executivos disseram confiar mais nos conselhos da IA do que nos de colegas ou amigos, enquanto 44% afirmaram que seguiriam o raciocínio da tecnologia em vez de suas próprias percepções.

Pare um instante para pensar nisso.

Quase metade dos líderes seniores afirma que confiaria no julgamento de um chatbot mais do que no próprio julgamento em questões para as quais foi contratada justamente para responder.

Isso talvez não seja psicose, mas também não é algo bom.

A tendência da IA de ser excessivamente positiva e de reforçar crenças existentes, em vez de questioná-las, já foi amplamente documentada. Assim como sua tendência de simplesmente errar.

IDENTIFICANDO OS SINTOMAS

Então, como saber se alguém está desenvolvendo uma confiança excessiva na IA? Três sintomas se destacam.

1. FALTA DE VERIFICAÇÃO

O primeiro aparece quando os líderes deixam de verificar adequadamente aquilo que a IA diz. Isso acontece porque, quanto maior a confiança na IA, menos pensamento crítico tendemos a aplicar às respostas produzidas pela tecnologia.

Assim, atualizações para o conselho de administração, e-mails corporativos e documentos estratégicos elaborados por IA podem ser enviados depois de uma rápida leitura.

Um texto fluente e confiante produzido pela IA pode transmitir uma sensação de que está pronto de uma maneira que um rascunho pessoal, ainda imperfeito, dificilmente conseguiria.

Pesquisadores da Universidade Stanford e da BetterUp deram a esse resultado o nome de "workslop": um conteúdo com aparência refinada, mas com pouco conteúdo consistente por trás. Ele pode até parecer bom, mas muitas vezes não passa despercebido.

Na verdade, os pesquisadores descobriram que quase metade dos funcionários que recebem e-mails elaborados por IA passa a considerar os remetentes menos confiáveis por terem enviado aquele conteúdo. Mais de um terço também passa a considerá-los menos inteligentes.

2. FALTA DE GOVERNANÇA

O segundo sintoma é exigir o uso da tecnologia antes de estabelecer regras para governá-la.

O ano de 2025 trouxe uma onda de determinações de CEOs declarando que o uso de IA seria uma expectativa básica.

Algumas empresas chegaram a exigir que gestores comprovassem que a IA não poderia realizar uma determinada tarefa antes de permitir a contratação de uma pessoa.

Mas, na pesquisa de 2026 da Grant Thornton com executivos seniores, 78% admitiram não ter confiança suficiente de que conseguiriam passar por uma auditoria independente de sua governança de IA nos 90 dias seguintes.

A maioria das equipes executivas apoia publicamente suas iniciativas de IA. Poucas, porém, conseguiriam resistir a uma análise rigorosa de como verificam, administram e controlam esses sistemas.

3. FALTA DE CONFIANÇA NOS HUMANOS

O terceiro sintoma é o mais insidioso: confiar mais no julgamento da IA do que no julgamento das próprias equipes.

Já vi líderes colocarem as objeções de seus times diante de um chatbot e deixarem que a resposta da ferramenta encerrasse a discussão. A equipe percebe. Na próxima vez, a objeção deixa de ser verbalizada e o líder passa a ouvir apenas a IA.

O processo também se retroalimenta: quanto menos questionamentos um líder ouve, mais razoáveis parecem as respostas confiantes da IA.

VULNERABILIDADES ANTIGAS E NOVAS

De certa forma, boa parte disso não é novidade.

Sempre existiram oportunidades para delegar a comunicação. Novos processos já foram impostos antes. E o poder sempre produziu nos líderes algo parecido com o que a IA está fazendo agora: no momento em que você assume o comando, as pessoas começam a concordar um pouco mais rápido e a questionar um pouco menos.

O que deveria preocupar os líderes é quanta confiança estão depositando na IA e com que velocidade.

Mas a distância entre a promessa da IA e a facilidade de acesso à tecnologia, de um lado, e a clareza sobre como colocá-la em operação, de outro, é provavelmente maior do que a observada em qualquer inovação anterior.

Portanto, embora a IA talvez não tenha criado novas vulnerabilidades, certamente potencializou as antigas. Então, o que você, como líder, pode fazer individualmente?

Em minha própria pesquisa sobre confiança, dois sinais de alerta indicam o momento em que uma confiança saudável se transforma em excesso de confiança: uma sensação crescente de superioridade e uma queda na curiosidade.

É a curiosidade que merece atenção quando falamos de IA. Por isso, continue fazendo perguntas, mesmo quando a resposta parecer segura.

Pergunte em que pontos a IA pode estar errada. Pergunte quais alternativas foram consideradas e depois descartadas. Pergunte às pessoas da sua equipe o que elas conseguem enxergar que o modelo não consegue.

Os pacientes com "psicose de IA" perderam a capacidade de questionar uma voz que nunca duvidava de si mesma. Você ainda tem essa capacidade. Nunca deixe de usá-la.


SOBRE O AUTOR

Nik Kinley é consultor e coach especializado em liderança. saiba mais