Se reinventar é (muito) mais difícil do que parece

As pessoas realmente mudam? O autor Benoit Denizet-Lewis revela cinco verdades desconfortáveis sobre como a mudança realmente funciona

Retrato de uma mulher com o rosto fragmentado em diferentes recortes, representando transformação pessoal, identidade e mudança.
Crédito: Rytis Bernotas/ Getty Images

Benoit Denizet-Lewis 10 minutos de leitura

As pessoas realmente mudam? Existe a versão instagramável da mudança. A versão TED Talk. A versão embalada por coaches ansiosos para pegar o seu dinheiro.

Mas como é a versão real – bagunçada, parcial, incerta, às vezes humilhante, às vezes invisível e aparentemente milagrosa? A única forma honesta de encarar a mudança é com humildade no banco do passageiro segurando o mapa de cabeça para baixo.

Em seu novo livro "You’ve Changed: The Promise and Price of Self-Transformation" (Você mudou: a promessa e o preço da transformação pessoal, em tradução livre), o escritor Benoit Denizet-Lewis encontra algumas respostas para a pergunta: as pessoas realmente mudam?

1. A MUDANÇA MUDOU?

Na última década, vivemos a onda mais dramática de transformação pessoal desde os anos 1970, outra era marcada por agitação social e desilusão política. Mas há uma diferença crucial. Naquela época, a transformação geralmente exigia fuga física. As pessoas se mudavam para retiros espirituais, comunidades alternativas ou para a Califórnia.

Hoje, raramente é preciso sair do quarto. A mudança se desenrola em uma estranha dualidade: performada para o mundo online, no entanto, concebida e vivida em isolamento.

Quando as instituições falham e nos sentimos cada vez mais impotentes, mudar a nós mesmos – nossas crenças, identidades, corpos, nomes – pode parecer uma das poucas formas de agência e controle que nos restam.

Sempre tivemos que convencer alguém de que mudamos. Um cônjuge. Um pai ou mãe. Se tivéssemos muito azar, uma comissão inteira de agentes de liberdade condicional.

Na era das redes sociais, a transformação não é só vivida. Ela é narrada, justificada, rotulada, vendida, defendida.

Agora o público que temos que convencer é todo mundo. Na era das redes sociais e dos arquivos permanentes, a transformação não é só vivida. Ela é narrada, justificada, rotulada, publicada, vendida, defendida. Acompanhamos anúncios, pedidos de desculpa, viradas de opinião e mudanças de pronome. Todos nós somos os agentes da condicional agora.


Quando alguém muda numa direção que aprovamos, chamamos de coragem. Crescimento. Evolução. Quando muda numa direção que não gostamos, chamamos de confusão, radicalização ou que a pessoa caiu no "buraco sem fundo" da internet, que é como poderíamos explicar as ações de um homem com quem conversei, que trocou sua almofada de ioga por um machado e equipamento tático para invadir o Capitólio em janeiro de 2021 por causa de uma suposta fraude eleitoral.

Se a mudança não é vista como ilusão, é oportunismo – a mudança como golpe.

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Para ser justo, o ceticismo não é irracional. Será que alguém realmente mudou só porque declara que mudou? Quanto mais alto o pronunciamento, mais cautelosos provavelmente deveríamos ser.

Mas aqui está a tensão: vivemos em uma cultura que exige transformação visível e, simultaneamente, desconfia dela. Isso torna a mudança genuína mais difícil de reconhecer e mais difícil de sustentar.

2. MUDAMOS POR NÓS MESMOS OU PELOS OUTROS?

Gostamos de dizer que é preciso mudar por si mesmo. Soa maduro. Empoderado. Também costuma estar errado.

Depois de seis anos conversando com pessoas que refizeram suas vidas – e com outras que ainda estão tentando –, percebi o quão raramente a transformação é uma conquista individual. Ela é relacional, contingente e muitas vezes relutante.

Os assassinos em liberdade condicional com quem convivi não descreveram a mudança como força de vontade heroica. Muitos falaram de uma mãe que se recusava a acreditar que eles não podiam mudar. Falam de um companheiro de cela que mostrou um caminho melhor. De uma experiência religiosa que não conseguiam explicar.

As pessoas param de beber porque não querem perder seus filhos. Começam terapia porque o casamento está por um fio. Abrem o coração porque a alternativa é envelhecer sozinhas.

A mudança não é um projeto individual. É melhor compreendê-la como um esporte coletivo, muitas vezes arriscado.

Mesmo quando insistimos que estamos mudando “por nós mesmos”, somos narradores pouco confiáveis. Os terapeutas dirão: não se pode confiar exatamente nos pacientes quando eles declaram seu desejo de transformação.

Queremos mudar e, ao mesmo tempo, permanecer os mesmos. Muitos de nós não temos tanta certeza de que a mudança realmente acontecerá. Até mesmo a resolução de Ano Novo mais simples costuma ir por água abaixo em fevereiro.

Para aqueles com um histórico de tentativas frustradas, flertar com a mudança pode parecer um jogo perigoso do qual preferimos ficar de fora a perder novamente.

Além do medo do fracasso, há razões mais profundas para ceder à inércia e ficar parado, incluindo a perturbadora possibilidade de nos perdermos a nós mesmos no processo.

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A mudança profunda, como dizia o poeta James Baldwin, "implica a destruição do mundo como sempre o conhecemos, a perda de tudo que nos dava identidade, o fim da segurança." Até uma identidade negativa – dependente químico, criminoso, hater da internet – pode parecer preferível a perda total da identidade.

Não nos construímos do zero. Revisamos em resposta ao amor e à vergonha, ao medo e à saudade, à pressão e à perda. A mudança não é um projeto individual. É melhor compreendê-la como um esporte coletivo, muitas vezes arriscado.

3. A DÚVIDA FAZ PARTE DA TRANSFORMAÇÃO?

Falamos sobre mudança como se ela devesse ser decisiva. Uma ruptura total, uma virada definitiva. Mas por dentro, raramente é assim.

Regredimos. Hesitamos. Nos perguntamos se estamos nos enganando. Ficamos em cima do muro. Nos preocupamos em mudar demais e afastar as poucas pessoas loucas o suficiente para nos amar como somos. Tememos mudar de ideia e voltar a ser como éramos – e aí, o que todos vão pensar?

Se queremos que a transformação seja real – a nossa e a dos outros – precisamos abrir espaço para a incerteza.

A dúvida também pode virar arma – qualquer hesitação é usada como prova de que a mudança não é real. Numa época em que a transformação está minada pela política das guerras culturais, a certeza fingida costuma prevalecer.

Mas, ao analisar histórias reais de mudança, a dúvida está por toda parte. Conheci pastores que aos poucos perdiam a fé, para quem a dúvida era uma mina terrestre profissional. Conheci políticos camaleônicos que lutavam em particular com suas crenças enquanto insistiam publicamente que não haviam mudado nada.

Conheci pessoas trans, pessoas em processo de destransição e pessoas em processo de retransição, cujas dúvidas íntimas eram angustiantes porque qualquer hesitação poderia ser usada contra elas. Nessas histórias, a dúvida não era a ausência de mudança, mas sim o atrito que a acompanhava.

é possível mudar o rumo da vida?
Crédito: Istock

O psiquiatra Robert Jay Lifton certa vez descreveu uma identidade flexível e adaptável como o "eu proteico" e argumentou que a dúvida não era uma falha dessa condição, mas sim sua característica central.

A dúvida não atrapalha a mudança, pelo contrário, ela a mantém íntegra e honesta. Se queremos que a transformação seja real – a nossa e a dos outros – precisamos abrir espaço para a incerteza. Não como fraqueza, mas como sinal de que algo verdadeiro está acontecendo.

4. É POSSÍVEL SE REINVENTAR DE UMA HORA PARA OUTRA?

Tendemos a achar que as mudanças significativas são lentas. Graduais. Conquistadas com suor. E muitas vezes são. Mas às vezes as pessoas mudam num instante. Epifania. Satori [a iluminação budista]. Eureka. Mudança quântica. Aquele momento "caramba!".

Os neurocientistas Andrew Newberg e Mark Robert Waldman insistem que as grandes experiências de iluminação espiritual (e de transcendência) são justamente as que aliviam o sofrimento e trazem paz e felicidade às pessoas. Ainda assim, continuamos profundamente desconfiados dessas experiências.

A psicologia sempre se sentiu mais confortável estudando colapsos do que viradas ou avanços. Um colapso repentino faz sentido. O trauma pode destruir a vida num instante. Mas uma transformação positiva repentina?

Numa época em que a transformação está minada pela política das guerras culturais, a certeza fingida costuma prevalecer.

O psicólogo William Miller começou a fazer uma pergunta perturbadora décadas atrás: será que existe algo como um colapso ao contrário?

Muitos colegas estavam céticos. Até um defensor questionou se as chamadas "transformações da noite para o dia" não seriam apenas o culminar de uma mudança lenta e invisível, como alguém caminhando em meio a um nevoeiro denso e que de repente percebe que está molhado.

Hoje, com a popularização dos psicodélicos, mais pessoas relatam rápidas mudanças espirituais ou de identidade – algumas extáticas, outras desestabilizadoras.

Participei de uma conferência organizada pelo Centro Americano para a Integração de Experiências Espiritualmente Transformadoras, que ajuda as pessoas a lidar com o que chamam de emergências espirituais, ou seja, momentos em que experiências poderosas sobrecarregam as estruturas emocionais.

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Nem sempre é fácil distinguir delírio de transformação. Joseph Campbell captou essa ambiguidade perfeitamente. "O psicótico se afoga nas mesmas águas em que o místico nada com deleite".

O que mais me fascinou não foi a certeza que as pessoas sentiam nesses momentos, mas sim o que vinha depois. Os meses, às vezes anos, passados ​​se perguntando: perdi a cabeça? Ou finalmente recuperei o juízo?

5. O QUE SIGNIFICA REALMENTE SE REINVENTAR?

A mudança real começa por dentro ou por fora? A frase "seja a mudança que você quer ver no mundo" tem demonstrado uma surpreendente capacidade de se manter relevante.

Virou um mantra secular repetido em retiros, cartazes de protesto e na timeline da sua tia mais engajada. É ampla o suficiente para conter tanto o ativismo feroz quanto o trabalho interior silencioso. As marcas adoram. Os políticos adoram.

O bordão viral veio de uma mulher que morava numa comunidade de aposentados no Arizona, Arleen Lorrance, com quem passei um tempo enquanto debatíamos duas questões que estão rolando desde a década de 70: devemos focar no trabalho interior? Ou em mudar o mundo?

Algo precisa mudar. Se não pelo mundo, então ao menos por nós. E se não por nós, então ao menos pelo mundo.

Essa questão parece especialmente urgente agora, em nosso momento surreal e desestabilizador de desespero psíquico, desorientação cultural, agitação global, delírio político e disrupção tecnológica – incluindo a inteligência artificial, que promete otimizar nosso pensamento, refinar nossas identidades e prever quem nos tornaremos.

E se a busca incessante pelo aprimoramento pessoal for parte do problema? E se otimizar nossos hábitos, produtividade e atenção plena se tornar uma forma de evitar a responsabilidade coletiva? No entanto, olhar para fora por muito tempo pode nos levar ao afogamento.

Consumimos mais sofrimento em um único dia do que nossos ancestrais em toda uma vida: violência local, guerras distantes, colapso climático, decadência democrática, revolução da IA, crueldade em ciclo vicioso. Nossos cérebros evoluíram para detectar ameaças próximas, não para metabolizar a angústia de oito bilhões de pessoas.

A tensão é real. Quanta angústia devemos testemunhar? Uma mudança interior considerável é sequer possível quando estamos cronicamente distraídos e predispostos à indignação?

Com ​​a ajuda de Arleen Lorrance, tento esboçar um plano de como viver, mas também de como pensar sobre a mudança com mais honestidade em uma era instável.

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"Você Mudou" não diz quem você deve se tornar. Não sou um guru autodeclarado que veio aqui para te consertar. O livro pergunta como é a mudança em vidas reais – bagunçada, incompleta, contraditória – e se podemos nos permitir, a nós e aos outros, evoluir sem exigir perfeição, certeza ou velocidade.

Porque, sejamos honestos, algo precisa mudar. Se não pelo mundo, então ao menos por nós. E se não por nós, então ao menos pelo mundo.

Este artigo foi publicado originalmente na revista digital "Next Big Idea Club" e reproduzido com permissão. Leia o artigo original.


SOBRE O AUTOR

jornalista, autor e colaborador frequente da revista The New York Times Magazine. É autor de quatro livros, todos publicados pela Simo... saiba mais