Setembro Amarelo: saúde mental exige prevenção o ano inteiro

Campanhas e palestras abrem a conversa, mas prevenir crises exige mudanças permanentes na liderança, nos processos e na cultura das empresas.

Pessoa com um cubo colorido sobre a cabeça enquanto uma mão reorganiza uma das peças
Créditos: Unsplash, Getty images

Débora Martins 4 minutos de leitura
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Setembro Amarelo: saúde mental exige prevenção o ano inteiro

Todo setembro, as empresas se enchem de campanhas, palestras, mensagens de conscientização e ações sobre saúde mental. É importante falar sobre o tema. O problema é que, no fim do mês, o assunto desaparece da agenda corporativa e só volta a ser lembrado diante de uma crise.

Nenhuma cultura de cuidado se constrói em 30 dias.

Se queremos realmente falar sobre prevenção, precisamos mudar essa lógica. A saúde mental não pode ser tratada como uma pauta sazonal, acionada quando os sinais de sofrimento já são evidentes. Ela precisa fazer parte da cultura, da liderança e das decisões cotidianas das organizações.

Esse é um dos grandes desafios da área de gestão de pessoas: sair de uma postura predominantemente reativa para uma atuação preventiva.

Na prática, isso significa não esperar que um profissional chegue ao limite para perguntar como ele está.

Significa olhar para aquilo que acontece antes da crise.

O PROBLEMA NÃO COMEÇA NO AFASTAMENTO

Quando um colaborador se afasta por questões relacionadas à saúde mental, aquele episódio dificilmente surgiu de uma hora para outra. Muitas vezes, existem sinais anteriores: sobrecarga constante, queda de produtividade, isolamento, conflitos recorrentes, irritabilidade, dificuldade de concentração, absenteísmo ou mudanças de comportamento.

O desafio está em criar ambientes nos quais esses sinais possam ser percebidos e, principalmente, nos quais as pessoas encontrem segurança psicológica para falar sobre eles.

Isso exige uma mudança importante na cultura corporativa.

Não basta oferecer um canal de atendimento psicológico se, ao mesmo tempo, a empresa mantém uma rotina marcada por jornadas excessivas, metas desconectadas da realidade, lideranças despreparadas e trabalho desnecessário. Também não adianta falar em cuidado em uma cultura na qual demonstrar vulnerabilidade é interpretado como falta de competência.

A prevenção começa muito antes do atendimento.

Começa na forma como o trabalho é organizado.

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PALESTRA É COMEÇO, NÃO PONTO FINAL

As campanhas de Setembro Amarelo têm um papel relevante: ajudam a tirar o tema do silêncio e criam espaços de conversa. Mas uma palestra, por melhor que seja, não transforma sozinha uma cultura.

O conhecimento adquirido precisa se transformar em prática.

Depois da palestra, a empresa deveria se perguntar: o que vamos fazer diferente a partir de agora?

Como os gestores estão sendo preparados para perceber mudanças de comportamento em suas equipes? Existem canais seguros de escuta? As pessoas sabem onde buscar ajuda? A organização acompanha indicadores que podem revelar sinais de sobrecarga? Há espaço para conversas genuínas ou apenas pesquisas formais de clima?

Essas perguntas são mais difíceis. Justamente por isso, são mais importantes.

A PREVENÇÃO PRECISA ENTRAR NA ROTINA

Mover a gestão de pessoas para uma lógica preventiva significa incorporar o cuidado ao cotidiano.

Isso pode envolver pesquisas de clima e bem-estar, acompanhamento de indicadores, formação de lideranças, espaços permanentes de escuta, revisão de processos que geram sobrecarga e ações para prevenir riscos relacionados à saúde mental.

Também significa entender que gestores não são terapeutas. O papel da liderança não é diagnosticar sofrimento psíquico, mas criar condições para que as pessoas possam falar, identificar mudanças relevantes e saber quando e como encaminhar alguém para o suporte adequado.

A tecnologia também pode contribuir nesse processo, desde que seja utilizada com responsabilidade, ética e respeito à privacidade. Ferramentas de escuta e análise de sinais organizacionais podem ajudar a identificar tendências e pontos de atenção antes que eles se transformem em problemas maiores.

Mas nenhum indicador substitui o olhar humano.

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DE CAMPANHA PARA CULTURA

Talvez a principal mudança seja deixar de pensar no Setembro Amarelo como uma campanha e começar a enxergá-lo como uma oportunidade de revisão cultural.

Setembro pode ser o mês em que a empresa abre a conversa. Mas outubro precisa ser o mês em que ela continua ouvindo. Novembro, o mês em que mede. Dezembro, o mês em que ajusta. E assim sucessivamente.

Porque a prevenção não é uma ação isolada. É um processo contínuo.

Uma empresa verdadeiramente comprometida com saúde mental não é aquela que faz a maior campanha em setembro. É aquela que consegue criar, durante os outros 11 meses, condições para que seus profissionais não precisem chegar ao limite para serem vistos.

A pergunta que precisamos fazer à área de gestão de pessoas, portanto, não é apenas: “O que vamos fazer no Setembro Amarelo?”

É: “O que estamos fazendo todos os dias para que as pessoas não precisem esperar setembro para pedir ajuda?”

Essa mudança do reativo para o preventivo é mais complexa do que organizar uma palestra. Mas é justamente ela que pode transformar uma campanha de conscientização em uma verdadeira cultura de cuidado.


SOBRE A AUTORA

Débora Martins é especialista em Recursos Humanos, Carreira e Desenvolvimento de Pessoas, com mais de 20 anos de experiência no univer... saiba mais