O segredo fora do trabalho que Warren Buffett, Richard Branson e Satya Nadella valorizam
Atividades realizadas fora do trabalho podem trazer benefícios para a rotina e até refletir no desempenho profissional

O CEO da Microsoft, Satya Nadella, afirma que jogar críquete lhe ensinou lições sobre trabalho em equipe e liderança que permaneceram ao longo de sua carreira: colocar o time em primeiro lugar e extrair o melhor das outras pessoas.
Richard Branson diz que passar algumas horas por dia praticando atividades físicas de que gosta parece ampliar seu dia, porque o deixa mais disposto e produtivo.
Warren Buffett, por sua vez, considera o bridge “o melhor exercício que existe para o cérebro”. A cada rodada, o jogo obriga os participantes a se adaptar continuamente a novas informações e circunstâncias.
Isso contraria a visão convencional de que alcançar um sucesso extraordinário exige dedicação absoluta, sem distrações ou desvios e com atenção permanente no objetivo.
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Mas talvez essa lógica esteja errada.
POR QUE TER OUTROS INTERESSES AJUDA
Um estudo com mais de cinco mil empreendedores, acompanhados durante 15 anos e publicado no Academy of Management Journal, concluiu que as startups fundadas por pessoas que mantiveram seus empregos tinham probabilidade 33% menor de fracassar do que aquelas criadas por quem apostou tudo no novo negócio.
Outra pesquisa, realizada com mais de seis mil atletas e publicada na revista científica PLOS One, mostrou que atletas de alto nível costumam experimentar diversas modalidades antes de escolher uma delas.
Como escreve o jornalista David Epstein no livro Range: Why Generalists Triumph in a Specialized World (“Por que os generalistas vencem em um mundo de especialistas”, em tradução livre), entre os atletas que chegam à elite, experimentar diferentes esportes e adiar a especialização é o caminho mais comum até o topo.
Há ainda outra evidência. Um estudo publicado na revista científica Creativity Research Journal descobriu que cientistas vencedores do Prêmio Nobel tinham quase três vezes mais chances de cultivar interesses fora do trabalho do que colegas que não receberam a premiação. Entre os hobbies estavam canto, teatro, escrita criativa, pintura e marcenaria.
Ter hobbies, portanto, pode fazer bem. Mas o efeito depende da natureza da atividade.
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O QUE SUSTENTA UMA CARREIRA
O sucesso costuma depender tanto das conquistas quanto da capacidade de mantê-las ao longo do tempo. Buffett chama essa lógica de “técnica Matusalém”.
Realizar algo difícil exige esforço e tempo. Ninguém constrói uma empresa próspera da noite para o dia. No mundo dos negócios, isso significa que o profissional precisa ser capaz de sustentar sua carreira.
Segundo os autores de um estudo publicado em 2020 no Journal of Vocational Behavior, uma carreira sustentável é aquela em que as pessoas permanecem saudáveis, produtivas, felizes e empregáveis ao longo do tempo, de maneira compatível com o restante de suas vidas.
Em termos simples, longevidade importa. Não importa quanto talento uma pessoa tenha: se ela sofrer burnout no meio do caminho, dificilmente conseguirá sustentar os resultados.
É aí que entra o hobby.
A pesquisa concluiu que essas atividades podem fortalecer a autoeficácia — a disposição para assumir desafios, persistir diante das dificuldades e se recuperar de contratempos. Em outras palavras, hobbies podem aumentar a confiança que uma pessoa tem na própria capacidade.
Mas existe uma condição.
NEM TODO HOBBY AJUDA
Quando o hobby é muito parecido com o trabalho, porque exige habilidades e esforços semelhantes aos da profissão, o estudo identificou uma redução na sensação de eficiência e prazer.
O grau de seriedade dedicado à atividade também interfere no resultado. Isso inclui tanto o nível de dificuldade quanto o espaço que o hobby ocupa na identidade da pessoa.
Quanto mais seriamente alguém leva uma atividade, maior é a obrigação sentida de praticá-la e mais sua identidade passa a depender do desempenho e dos resultados.
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Treinar para correr cinco quilômetros pode ser um hobby. Treinar para completar uma maratona em menos de três horas provavelmente já é um hobby levado muito a sério.
Semelhança e seriedade caminham juntas. O ideal é que o hobby seja pouco parecido com o trabalho e envolva riscos baixos.
Se você trabalha com contabilidade e gosta de cultivar rosas, por exemplo, a atividade pode oferecer uma pausa e ampliar sua autoconfiança. Isso muda se o cultivo se transformar em uma busca obsessiva por vencer uma competição nacional.
Da mesma forma, um advogado que joga jogos de tabuleiro pode encontrar nessa prática um intervalo capaz de fortalecer sua confiança. O efeito pode desaparecer se ele decidir que precisa se tornar um grande mestre do xadrez.
Já um programador que desenvolve aplicativos nas horas vagas provavelmente não está conseguindo o distanciamento mental e emocional necessário para fortalecer sua autoeficácia. Mais do mesmo — ainda que com uma intensidade diferente — pode se transformar em uma receita para o burnout.
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COMO ESCOLHER O HOBBY CERTO
Ao considerar uma nova atividade ou avaliar o valor de um hobby atual, observe a relação entre seriedade e semelhança:
- Quanto mais parecida a atividade for com seu trabalho, menores devem ser as consequências associadas ao resultado.
- Quanto maior for a pressão por desempenho, mais diferente da sua profissão a atividade deveria ser.
O cenário ideal combina pouca semelhança com o trabalho e pouca pressão por resultados.
Em sua newsletter, David Epstein conta as histórias de um corredor de alto nível que começou a tricotar e de uma esquiadora olímpica de cross-country que decidiu construir uma casa.
Os dois eram bons demais em manter o foco nos treinamentos, a ponto de excluir todo o restante. O treinador da esquiadora explicou:
Se você tem apenas o esporte e nada mais, é muito difícil persistir durante tantos anos. Ela tinha 30 anos, e eu disse: “Você precisa fazer isso. Precisa encontrar algum interesse. Construa a casa. Procure os materiais e tudo de que precisar. Você precisa fazer isso para não ter apenas o esporte.”
O mesmo vale para o trabalho. Quem administra uma empresa não pode ter apenas a empresa. É necessário encontrar algo que afaste a mente do negócio, ainda que por pequenos períodos.
Para quem enfrenta dificuldades profissionais, também é importante ter outra atividade capaz de produzir uma sensação de realização. O hobby deve criar distância da rotina e envolver tarefas, habilidades e pessoas diferentes.
O tempo dedicado a não pensar no trabalho pode parecer desperdiçado. Mas escolher o hobby certo pode ajudar você a se concentrar melhor quando estiver trabalhando — e a sustentar esse esforço por mais tempo.
(Com informações da Inc. Magazine; atualizado em 23 de setembro de 2026, às 11h26)