A ciência diz: a raiva pode ter um lado bom, se for bem administrada

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Tomas Chamorro-Premuzic 5 minutos de leitura

A maioria de nós prefere evitar sentir raiva no trabalho – e, na verdade, em qualquer outra área da vida, como relacionamentos, família, esportes e até nas redes sociais. No entanto, a tática da “repressão” não nos ajuda muito a atingir esse objetivo. A menos que você não seja humano, descobrirá que existem muitas situações que podem desencadear sua raiva. Muitas delas bastante justificáveis, como injustiças, provocações ou a percepção de que as pessoas estão tentando tirar alguma vantagem de nós. Isso sem falar nos motoristas incompetentes, nos chefes ruins, nos colegas de trabalho irritantes e, é claro, na conexão de internet lenta.

Os psicólogos estudam a raiva há mais de 100 anos. Como qualquer comportamento universal, é claro que deve haver alguma razão racional, até mesmo justificativas, para que ela seja tão dominante em todas as sociedades e esferas da vida. De uma perspectiva evolutiva, a raiva é melhor entendida como uma adaptação neurocognitiva “projetada para barganhar por um melhor tratamento”. Em outras palavras, a raiva é uma demanda por ajuda, por mudança e por ação.

Mais especificamente, a pesquisa destacou três funções importantes da raiva:

  • Demostrar status ou força para os outros: a raiva é uma tática de defesa comum, bem como uma estratégia de ataque universal. Ficamos com raiva para mostrar poder, status e intimidar, mesmo que isso também revele que somos incapazes de administrar bem uma situação. De muitas maneiras, a raiva é uma tentativa de ganhar o controle quando perdemos o autocontrole.
  • Desabafar ou descarregar: a raiva é catártica, e é por isso que sua repressão ou supressão tem sido associada a uma ampla gama de déficits de bem-estar psicológico e físico. Como Mark Twain observou: “A raiva é um ácido que pode causar mais danos ao recipiente em que está armazenada do que a qualquer coisa em que é derramada”.
  • Impulsionar mudanças e melhorias práticas na realidade: a raiva é um sinal de que o status quo deve ser mudado e pode alimentar a indignação moral, que geralmente é uma força para o bem. 

De muitas maneiras, a raiva é uma tentativa de ganhar o controle quando perdemos o autocontrole.

No entanto, não há dúvida de que a raiva também pode ser corrosiva. Ela torna as pessoas amargas, prioriza o ódio sobre o amor e é polarizadora. Acima de tudo, perpetua a crença de que estamos certos (mesmo quando estamos obviamente errados). Raramente a raiva é a abordagem mais eficaz para lidar com problemas, mesmo quando convida a ações construtivas e proativas.

A chamada estabilidade emocional (ou inteligência emocional) se refere justamente ao quanto as pessoas diferem em sua propensão a sentir raiva. Imagine um continuum que varia do Dalai Lama em um extremo ao personagem Tony Soprano, da série “Família Soprano”, no outro. Há tanta variabilidade na tendência das pessoas de expressar (ou reprimir) a raiva quanto em sua aparência.

Existem também diferenças de gênero e culturais que interferem na raiva. Notavelmente, os homens são mais propensos a expressar raiva em termos de agressão física. Já as mulheres são mais propensas a reprimi-la, principalmente porque são socializadas para fazer isso desde pequenas.

Raramente a raiva é a abordagem mais eficaz para lidar com problemas, mesmo quando convida a ações construtivas e proativas.

Quanto às diferenças culturais, embora a raiva seja uma emoção universal e biologicamente enraizada, as nações diferem sobre como ela é expressa e interpretada e sobre quais concessões são feitas quando se apresenta em diferentes interações e situações. Por exemplo, culturas passivo-agressivas (como as do Japão, Grã-Bretanha e Suécia) podem ser mais propensas a se envolver em demonstrações educadas de falsa amizade enquanto, no fundo, sentem raiva, em comparação com culturas mais diretas, intensas e emocionais (como as da Argentina, Israel e França).

O que a ciência nos ensina é que todos podem aprender a administrar a raiva de forma mais eficaz e que há benefícios claros em fazê-lo. A seguir, enumeramos algumas ferramentas e abordagens que podem ajudar a controlar a raiva.

Terapia cognitivo-comportamental: como é projetada para ajudar as pessoas a reformular seus pensamentos, tornar-se indiferentes aos gatilhos da raiva e desenvolver novos hábitos, a TCC é, sem dúvida, o mecanismo mais eficaz de redução da raiva..

Mindfulness:  sua capacidade de ajudar a suspender avaliações ou emoções autoconscientes também reduz a raiva. Infelizmente, as pessoas com raiva geralmente são menos inclinadas a praticar a meditação, o que diz muito sobre o papel da motivação tanto na perpetuação quanto na diminuição do sentimento.

Empatia: melhora a capacidade de assumir a perspectiva do outro e reduz significativamente a raiva e a agressividade. Essa abordagem ajuda a pessoa a sair do casulo do ego e entender que em qualquer conflito há dois lados. Isso é fundamental para alcançar a autoconsciência e reconhecer sua própria parcela de responsabilidade quando as coisas não vão bem.

Compaixão racional: o hábito de ser gentil e pró-social é uma força poderosa para reduzir a expressão de raiva em qualquer ambiente. Como os atos de bondade são tão propensos a serem retribuídos quanto os de raiva, a compaixão racional nutrirá comportamentos pró-sociais e positivos nos outros, o que pode até mitigar nossa raiva interna. Fazer um esforço para ser agradável é um impedimento óbvio para a raiva, tanto em nós mesmos quanto nos outros.

Evitar estressores: reduzir a exposição a situações desencadeadoras é uma técnica bem estabelecida para minimizar a experiência da raiva. Com o mínimo de autoconsciência, somos capazes de saber quais circunstâncias ou gatilhos ambientais podem nos irritar. Sendo assim, evitá-los ou nos preparar para enfrentar essas situações com a mentalidade certa pode fazer maravilhas.

Há muitas maneiras de melhorar o gerenciamento da raiva, e elas geralmente valem a pena. A questão não é eliminá-la totalmente, pois a raiva é parte de nossa humanidade, mas aprender a controlá-la e até mostrá-la de forma estratégica, de modo a mitigar seu lado negativo e alavancar o positivo. Em última análise, a melhor maneira de julgar a raiva é por seus efeitos particulares, tanto em nós mesmos quanto nos outros.


SOBRE O AUTOR

Tomas Chamorro-Premuzic é diretor de inovação do ManpowerGroup, professor de psicologia empresarial na University College London e na ... saiba mais