Sheryl Sandberg alerta para avanço da machosfera no ambiente de trabalho

Pesquisa mostra que ideias sexistas difundidas na internet reforçam estereótipos de gênero e afetam a maneira como mulheres são avaliadas profissionalmente

machismo no ambiente de trabalho
Créditos: Antoni Shkraba/ Pexels/ Jr Korpa/ Unsplash

Pavithra Mohan 4 minutos de leitura
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Há algum tempo, Sheryl Sandberg vem chamando a atenção para a mudança cultural representada pela ascensão dos conteúdos sobre tradwives (esposas tradicionais) e da chamada machosfera.

“O problema da visão romantizada da tradwife é que ela transmite às mulheres a mensagem de que, para ser uma boa esposa, companheira ou mãe, é preciso se dedicar a isso em tempo integral”, escreveu ela em março.

A realidade é que a maioria das mulheres não pode se dar ao luxo de deixar de trabalhar. Além disso, Sandberg acredita que as ideias defendidas por esses influenciadores podem ser profundamente prejudiciais às mães que trabalham, fazendo com que se sintam culpadas por ter um emprego fora de casa ou por alimentar qualquer ambição profissional.

“Tenho receio de que a glamourização da tendência tradwife volte a incutir essa culpa nas mulheres – uma culpa da qual muitas de nós trabalhamos muito e por muito tempo para nos livrar”, acrescentou.

Mas há outros prejuízos à espera das mulheres que trabalham à medida que esses movimentos ganham força e ressuscitam noções ultrapassadas sobre quem deve ocupar cargos de liderança ou fazer parte da força de trabalho em geral.

Uma nova pesquisa da Lean In, organização feminista fundada por Sandberg, revela que o conjunto difuso de podcasters e influenciadores homens que compõem a machosfera vem promovendo ideias que agora estão se infiltrando no ambiente profissional.

Quase metade dos homens entrevistados afirmou que os homens deveriam ser os principais provedores financeiros de suas famílias. Mais de um terço disse acreditar que as mulheres são emocionais demais para ocupar cargos que exigem muito. Já 42% manifestaram a opinião de que os homens são mais adequados para funções de liderança.

Elementos da machosfera estão transbordando para o ambiente profissional de diferentes maneiras.

Essas crenças não são novas, mas a Lean In estabelece uma conexão entre a disseminação de opiniões conservadoras e sexistas na internet e seus efeitos no ambiente de trabalho, onde as mulheres conquistaram avanços importantes, a duras penas, no último meio século.

Não faltam desafios persistentes para as mulheres que trabalham, desde a parcela desproporcional de responsabilidades pelos cuidados com a família que recai sobre elas até o recuo dos compromissos corporativos com diversidade, equidade e inclusão.

Infelizmente, as mulheres continuam sub-representadas nos mais altos escalões das empresas e a desigualdade salarial entre homens e mulheres continua profundamente enraizada.

SEXISMO E REDES SOCIAIS

A pesquisa da Lean In indica que os conteúdos da machosfera e do movimento tradwife não estão apenas se tornando onipresentes – nove em cada 10 adultos tiveram contato com esse tipo de conteúdo no último ano. Eles também podem exercer uma influência insidiosa, mesmo quando os homens não concordam com o que veem.

Curiosamente, as mulheres são menos influenciadas por esses conteúdos, mesmo quando os consomem com frequência.

Segundo a Lean In, homens que interagem frequentemente com conteúdos da machosfera e do movimento tradwife têm três vezes mais probabilidade de compartilhar opiniões sexistas.

desigualdade de gênero no trabalho
Crédito: Anton Vierietin/ Getty Images

Até mesmo os homens que não são particularmente receptivos a essas ideias têm o dobro de probabilidade de concordar com os pontos de vista promovidos por esses movimentos.

Cerca de seis em cada 10 profissionais entrevistados disseram já ter visto essas ideias aparecerem em sua vida profissional, o que sugere que a reação antifeminista disseminada na internet está influenciando ativamente a maneira como os homens enxergam as mulheres no ambiente de trabalho.

Mulheres que afirmaram ter sofrido comentários sexistas no trabalho também relataram receber avaliações de desempenho marcadas por estereótipos de gênero, como serem consideradas emocionais demais ou desprovidas de qualidades de liderança.

"ENERGIA MASCULINA"

Elementos da machosfera estão transbordando para o ambiente profissional de diferentes maneiras. Alguns líderes de recursos humanos constataram que termos como alphas e betas, usados para classificar homens com base em ideias estereotipadas de masculinidade, estão chegando aos ambientes de trabalho.

Expressões que podem parecer mais inofensivas, como liderança alfa e body count (número de parceiros sexuais), esta última empregada no contexto de demissões, estão se tornando gradualmente mais comuns em plataformas como o LinkedIn.

Leia mais: Por que os homens ganham mais crédito que as mulheres pelo mesmo trabalho

Líderes proeminentes como Mark Zuckerberg falaram abertamente sobre trazer de volta a “energia masculina” ao ambiente de trabalho. Zuckerberg também afirmou que o mundo corporativo havia sido “culturalmente castrado” por programas de diversidade, equidade e inclusão (DEI). Sandberg, vale lembrar, passou 14 anos como diretora de operações da Meta e teve um papel importante na formação da cultura da empresa.

A Lean In pede aos líderes seniores, especialmente aos homens, que “denunciem o sexismo” e “demonstrem equidade nos processos de contratação, nos aumentos salariais, nas promoções e nas avaliações de desempenho”.

Mas é difícil acreditar que líderes individuais possam e queiram dar esse exemplo quando, há anos, as empresas vêm enfraquecendo justamente as iniciativas criadas para enfrentar esses problemas.

Mesmo os empregadores que mantiveram seus programas de diversidade, equidade e inclusão estão muito menos dispostos a falar abertamente sobre essas iniciativas.

Talvez o conselho mais relevante seja aquele que a Lean In oferece às mulheres que trabalham: “guardem as provas”.


SOBRE A AUTORA

Pavithra Mohan é redatora da Fast Company. saiba mais