POR CLAUDIA LEITE

No início deste ano participei de um curso de liderança lecionado por Ruth Wageman, renomada professora e pesquisadora da Harvard Business School, e Carissa Hub, coach executiva de C-Level. O primeiro módulo consistiu em aprender a prática da narrativa pública. A princípio pensei tratar-se apenas de storytelling e realmente precisei contar em vídeo uma história minha envolvendo um desafio, uma decisão e um resultado. Mas essa história foi apenas o meio para atingir o fim. Na verdade, aprender a narrativa pública é aprender o exercício de liderança motivando outros a se unirem a você na ação, em nome de um propósito comum. É o que Simon Sinek define como o “why” das organizações. E por que é importante os líderes aprenderem e exercerem a narrativa pública? Simplesmente porque não é suficiente ter a melhor estratégia e os melhores recursos (“how”) e os melhores produtos ou serviços (“what”) se, por meio de seus líderes, uma organização não conseguir inspirar à ação seus colaboradores, seus clientes, seus parceiros e a própria sociedade.

“Na verdade, aprender a narrativa pública é aprender o exercício de liderança motivando outros a se unirem a você na ação, em nome de um propósito comum”

Se pensarmos no contexto atual de pandemia, de crise econômica e social, de ameaças permanentes à saúde física e mental, de aceleração da transformação digital e do uso de tecnologia em todas as esferas da vida com cada vez menos fronteiras entre a pessoal e a profissional, como vamos inspirar a nós mesmos e às outras pessoas a alcançar um propósito em face da incerteza? Podemos consegui-lo por meio da narrativa pública. Mas qual será essa narrativa no ambiente corporativo? A história da organização? Não creio. A visão da organização? Não mais. A credibilidade dos seus líderes e conselheiros? Também não. Várias pesquisas acadêmicas apontam que as histórias pessoais – as que falam a linguagem da emoção e do coração, as que comunicam os valores por trás das escolhas que fazemos e das decisões que tomamos – são as que nos ensinam não só como “devemos” agir, mas principalmente nos “inspiram” a ter coragem de agir.

“Várias pesquisas acadêmicas apontam que as histórias pessoais são as principalmente nos ‘inspiram’ a ter coragem de agir”

Vou exemplificar. Este mês é o primeiro do novo ano fiscal da empresa onde trabalho e, como todos os anos, são realizados eventos de kickoff, ou pontapé de saída, nos quais se celebra o sucesso do ano anterior e se comunica a direção para o novo ano. Até aqui nada de diferente, não fosse o fato de os eventos desse ano terem sido carregados de emoções fortes, de vulnerabilidade, de lágrimas de alegria e sobretudo de muita inspiração. Não são as novidades sobre a estrutura organizacional e as soluções da empresa que ficarão na memória. A principal narrativa consistiu em várias histórias pessoais dos líderes – os estagiários que chegaram à presidência da empresa e os vice-presidentes de coração grande – e de histórias de self-leadership de colaboradores e seus projetos de voluntariado visando, por exemplo, educar em tecnologia jovens de comunidades desfavorecidas. Impossível não se emocionar, impossível não se inspirar, impossível não sentir vontade de contribuir e de agir.

Claudia Leite, head de software investment advisory da Oracle na América Latina (Crédito: Divulgação) 

Você deve estar se perguntando: “como posso contar uma história minha para me inspirar a exercer autoliderança e, quem sabe, também inspirar outras pessoas a agir em prol de um propósito maior”? Seguem algumas dicas:

– Qualquer pessoa tem uma história marcante para contar, você não é exceção. Reflita sobre a sua vida pessoal e profissional, recorde os momentos mais importantes, mais felizes ou mais difíceis da sua trajetória nos quais você é protagonista principal, e escolha dois ou três.

– Para cada episódio, identifique o desafio ou problema, que decisão precisou tomar e qual foi o resultado. Reflita sobre os seus valores e os associe às escolhas feitas em cada um dos momentos selecionados.

– Qual das histórias representa melhor quem você é e, por isso, será essa história que você quer contar a outras pessoas?

– Escreva ou verbalize a história escolhida estruturando o princípio (desafio), o meio (escolhas) e o fim (resultado). Inclua detalhes e comunique com os 5 sentidos para transportar quem for ler ou ouvir a sua história ao momento que você está descrevendo. Não confunda com um elevator pitch, a história não é sobre o seu currículo.

– Grave um vídeo, assista e regrave as vezes necessárias até você se sentir confortável com o resultado. Peça a alguém que não conheça a sua história para a ler ou ouvir e lhe dar feedback.

– Se você tiver causado uma emoção, se tiver inspirado essa pessoa de alguma forma, parabéns – você já tem a “sua história”.

SOBRE A AUTORA

Claudia Leite é head de software investment advisory da Oracle para a América Latina. Formada em Administração , sempre atuou em multinacionais de tecnologia, como a Hewlett-Packard EMEA. Fascinada pela ciência de tomada de decisões, busca inspirar transformação, crescimento e aprendizado contínuo.