Você precisa de um emprego novo – ou só de uma pausa?

Um ano longe da tecnologia ajudou uma executiva da Atlassian a repensar a carreira e descobrir o que realmente importava em seu trabalho

Créditos: Anurag Challa/ Franck V./ Unsplash

Kamini Ramani 5 minutos de leitura
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Anu Bharadwaj era uma estrela em ascensão na Atlassian, mas, apenas dois anos depois de assumir seu cargo, estava pronta para pedir demissão. Exausta com as longas jornadas de trabalho e a pressão constante, Bharadwaj entrou no escritório de seu chefe para se demitir.

Em vez disso, ele fez uma contraproposta: ela poderia tirar um ano de folga para fazer o que quisesse e, se decidisse voltar ao setor de tecnologia, as portas da Atlassian continuariam abertas.

Anu passou o ano o mais longe possível da tecnologia, dedicando seu tempo à antiga paixão pela conservação da vida selvagem.

Por fim, voltou à Atlassian, empresa de software sediada em Sydney, e assumiu a liderança da enorme transição da companhia para a nuvem. Depois, tornou-se diretora de operações (COO) e, mais tarde, presidente da empresa.

O ano que passou em meio à natureza inspirou uma abordagem diferente para ouvir as pessoas, conciliar os interesses da empresa e enfrentar novos desafios.

Quando você está esgotado e pronto para pedir demissão, pode ser difícil saber se já cansou do seu emprego ou se só precisa se afastar por um tempo. Veja algumas perguntas importantes que vale a pena responder antes de tomar uma decisão.

1. O problema é o emprego ou a empresa?

Anu já conhecia bem o universo da tecnologia: começou a carreira como desenvolvedora de jogos na Microsoft. Mas a Atlassian parecia diferente. Seus valores pessoais estavam alinhados aos da empresa de uma maneira que ela nunca havia experimentado antes.

“Os valores da empresa eram não tolerar conversa fiada, o que significava que éramos incentivados a dizer o que pensávamos”, contou. “Eu era praticamente a única mulher indiana entre as 500 pessoas da empresa. Mas o que me motivava era desenvolver tecnologia relevante ao lado de pessoas que faziam a diferença.”

Portanto, se você se sente à vontade para expressar suas opiniões e os valores da empresa estão alinhados aos seus, vale a pena perguntar se sair é realmente a mudança de que você precisa.

2. Respeito meu chefe atual e aquele que provavelmente terei no futuro?

O chefe de Anu na Atlassian, Scott Farquhar, CEO da empresa, enxergava um futuro para ela ali mesmo quando ela não conseguia enxergá-lo por conta própria. Em vez de pressioná-la a ficar, ele lhe deu o espaço necessário para descobrir o que queria fazer a seguir. Scott é o que chamo de um defensor.

Existe uma diferença entre mentores, patrocinadores e defensores. Os mentores orientam você; os patrocinadores falam em seu favor quando você não está presente; e os defensores vão além para ajudar você a prosperar.

Quando você deixa um emprego, também deixa para trás as pessoas com quem trabalhava. Um chefe que reconhece seu potencial e oferece oportunidades para você crescer é difícil de substituir. Vale a pena levar isso em consideração na hora de decidir.

3. Que parte do meu trabalho ainda me dá energia?

Anu estava cansada, mas nem todas as partes de seu trabalho a deixavam esgotada. Ela gostava de interagir com os clientes, o que continuava sendo uma de suas atividades favoritas.

“Há aspectos do nosso trabalho que faríamos de graça e outros que encaramos como um preço a pagar para aproveitar as partes boas do restante do trabalho”, disse ela.

“Eu poderia passar oito horas seguidas conversando com clientes sobre seus problemas e possíveis soluções e, ainda assim, sentir que tinha energia para o resto do dia.”

Se há partes do seu trabalho que você continuaria fazendo com prazer, concentre-se no que está impedindo você de sentir essa satisfação e veja se é possível eliminar esse obstáculo, em vez de jogar fora o bebê junto com a água do banho – ou seja, abandonar tudo de uma vez.

4. Vou continuar aprendendo se voltar?

Embora Anu não soubesse como seria seu cargo quando voltasse à Atlassian, o período longe da empresa a expôs a desafios muito além do universo da tecnologia.

Em seu trabalho de conservação ambiental, ela precisava levar em conta os interesses de diferentes partes envolvidas, incluindo agricultores, conservacionistas e agentes responsáveis pela aplicação da lei. Ela voltou com uma perspectiva renovada sobre como abordar problemas complexos e conquistar o envolvimento das pessoas.

Essa experiência a preparou para seu desafio seguinte: propor e liderar a transição da Atlassian para a nuvem, um processo que exigia conciliar os interesses de funcionários, clientes e acionistas durante uma grande mudança.

Talvez existam desafios na sua empresa que ainda possam levar você a explorar novos caminhos. Se consegue enxergar oportunidades de aprender e crescer, talvez ainda não seja hora de deixar o emprego.

5. O que mais eu conseguiria me imaginar fazendo?

Essa é uma pergunta importante, que exige uma análise profunda de si mesmo e também o privilégio de poder se afastar de uma trajetória profissional financeiramente segura.

Anu levou alguns anos após seu período sabático, mas acabou deixando para trás a rotina de executiva de operações. Abandonou as constantes viagens internacionais em favor de um trabalho mais próximo de casa. Hoje, usa sua experiência na criação de produtos e empresas para orientar empreendedores.

“Quando as pessoas me pedem conselhos sobre carreira, digo que tirem um período sabático e façam algo que jamais fariam no dia a dia do trabalho”, afirma.

“Isso realmente me ajudou a entender como ouvir com atenção e profundidade. Ensina você a compreender como outra pessoa está pensando sobre um problema que parece completamente diferente da maneira como você o enxergaria. É isso que bons líderes fazem.”

Leia mais: O que acontece à empresa quando a cultura corporativa vai por água abaixo

Dê a si mesmo a oportunidade de experimentar algo diferente. Você pode descobrir que sente falta do trabalho que deixou para trás ou perceber que existe um novo caminho mais adequado à vida que deseja ter agora.


SOBRE A AUTORA

Kamini Ramani tem quatro décadas de experiência como líder em marketing de tecnologia e é autora de "Lotus Leadership". saiba mais