Voluntariado corporativo cresce, mas engajamento ainda é um desafio

Só 9% dos voluntários chegaram à atividade por meio de empresas; tempo, liderança, comunicação, autonomia e confiança ajudam a explicar por que alguns programas conseguem mobilizar funcionários e outros não

Montagem de duas mãos entrelaçadas em preto e branco, com braços saindo de aberturas sobre um fundo geométrico verde e rosa.
Créditos: Magnific

Isabella Lura 3 minutos de leitura
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Criar um programa de voluntariado corporativo é apenas uma etapa da mobilização dos funcionários. Para que eles participem, é preciso conciliar as ações com a rotina de trabalho, explicar como contribuir e abrir espaço para a escolha das causas.

Para Beatriz Basile, gerente de projetos do Grupo +Unidos e profissional com sete anos de atuação no terceiro setor, o voluntariado aproxima os funcionários do propósito das empresas. A experiência permite vivenciar valores que a companhia pretende levar para além do ambiente de trabalho. Esse envolvimento, porém, depende das condições oferecidas para participar.

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O QUE O CENSO MOSTRA

O Censo Brasileiro de Voluntariado Empresarial 2025, iniciativa do Conselho Brasileiro de Voluntariado Empresarial (CBVE), realizada pelo CIEDS, reuniu respostas de 41 organizações com programas estruturados e ativos em 2024. O recorte não representa todas as empresas brasileiras.

Nesse grupo, havia cerca de 150 mil voluntários cadastrados e aptos a participar, em um universo de 994 mil funcionários — aproximadamente 15% do total. O cadastro, contudo, não equivale à participação efetiva nas ações.

As organizações apontaram o reforço de valores, propósito e identidade corporativa como o principal benefício organizacional. No campo social, o destaque foi o desenvolvimento das comunidades locais. São benefícios percebidos pelas respondentes.

O levantamento também distingue atividades pontuais de iniciativas continuadas, realizadas de forma periódica ou permanente. As medianas foram de 40 ações pontuais e quatro continuadas por organização. A mediana corresponde ao valor central das respostas ordenadas, não à média aritmética.

LIDERANÇA E TEMPO PARA PARTICIPAR

Para Beatriz, a participação dos gestores ajuda a sinalizar que a empresa reconhece o voluntariado como parte de suas atividades. “A liderança é o exemplo”, afirma.

Esse apoio precisa aparecer na organização do trabalho. Se o funcionário não tem tempo disponível ou teme que a ausência prejudique suas entregas, a existência do programa pode não ser suficiente para mobilizá-lo.

Por isso, combinar horários, ajustar demandas e informar como a participação será conciliada com o expediente são formas de tornar o apoio da gestão concreto.

A estrutura responsável pelas iniciativas também merece atenção. No Censo, a mediana era de quatro pessoas envolvidas na organização das ações por equipe. O indicador, sozinho, não permite concluir se há funcionários suficientes para atender cada programa.

ESPAÇO PARA ESCOLHER E CONTRIBUIR

Segundo Beatriz, a empresa precisa de uma pessoa ou área responsável por organizar o voluntariado. Isso não significa concentrar todas as decisões nessa estrutura. Ouvir os funcionários ajuda a identificar causas, formatos e atividades que façam sentido para diferentes grupos.

Se a organização define a causa, o formato e o horário sem consultar os participantes, limita as possibilidades de contribuição. Permitir sugestões, oferecer diferentes oportunidades e aproveitar os conhecimentos dos funcionários amplia esse espaço de escolha.

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As ações também podem criar oportunidades de desenvolver competências. Na avaliação de Beatriz, comunicação, articulação entre áreas e liderança estão entre as habilidades exercitadas durante as atividades.

Em determinados projetos, profissionais que não ocupam cargos de gestão podem assumir a coordenação de uma tarefa. Já o contato com as comunidades amplia a convivência com realidades sociais e culturais distintas.

CONFIANÇA E RETORNO SOBRE OS RESULTADOS

Saber quem conduz o projeto, como os recursos são utilizados e quais resultados a iniciativa busca alcançar ajuda o funcionário a compreender sua contribuição. Para Beatriz, a relação da empresa com as organizações parceiras também influencia essa confiança.

“Se a empresa confia naquela instituição, o voluntário se sente também mais tranquilo e com maior confiança”, afirma.

O contato com as pessoas atendidas torna os efeitos da ação mais próximos de quem participa. “Eles têm essa oportunidade de trocar com quem tá participando de fato dos projetos, então eles conseguem enxergar qual é o impacto naquela pessoa”, explica Beatriz.

O acompanhamento pode continuar depois da atividade, inclusive quando a participação é pontual. Fotos, vídeos, relatos e informações sobre os resultados ajudam os voluntários a acompanhar o projeto. Esse retorno também abre espaço para ouvir o que funcionou, identificar dificuldades e ajustar as próximas ações.


SOBRE A AUTORA

Isabella Lura é estudante de Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, dedicada e curiosa com interesse em contar histórias e transformar... saiba mais