POR DENISE HILLS

Nas primeiras semanas deste mês, a 26ª Conferência da ONU sobre o Clima, a COP-26, levou até Glasgow um clima de ebulição, mobilizando governos, líderes, empresas e organizações da sociedade civil do mundo todo. Durante os 12 dias de evento, a cidade escocesa foi palco de importantes discussões sobre mudanças climáticas e negociações que darão o tom sobre o mundo que teremos e como nós, humanos, faremos parte dele.  

O que ficou claro é que essa COP é histórica – e esse feito não é de um único protagonista. Além das mulheres ocupando cadeiras importantes nos debates e entre as lideranças do evento, as ruas foram tomadas pela energia da juventude de todos os continentes. Indígenas, comunidades tradicionais e pessoas de todas as nacionalidades levaram a justiça climática e os direitos humanos para o centro da discussão: “What do we want? Climate justice! When do we want it? Now!” (“O que nós queremos? Justiça climática! Quando nós queremos isso? Agora!”), ecoava a multidão de jovens pelo centro de Glasgow. 

De fato, esta COP foi um marco ao trazer a urgência nas questões climáticas e o quanto seu impacto e soluções devem, de fato, abraçar todas as narrativas impactadas pela agenda social e ambiental. Junto à diversidade e manifestações efervescentes, a participação recorde do setor privado e financeiro é outro ponto de destaque. Ver as empresas em mobilizações coletivas e se comprometendo com ações e investimentos rumo à inovação e à aceleração para atingir o famoso net zero representou uma grande evolução. 

A propósito, um dos objetivos desta COP, conseguir cumprir as nossas metas de redução nas emissões de gases do efeito estufa e limitar o aumento da temperatura global em 1,5°C até 2050, foi reafirmado – com claro avanço no comprometimento das partes em acelerar esta transição. 

Diferentemente das edições anteriores, as discussões mostraram de maneira mais nítida a conexão entre a conservação da biodiversidade e as mudanças climáticas ao passo que apresentaram soluções baseadas na natureza, com uma alternativa clara e potente para endereçar os desafios das mudanças climáticas, a importância de mecanismos do mercado de carbono que fortaleçam a conservação de biomas e a proteção de sua sociobiodiversidade nos termos do artigo 6 do Acordo de Paris. Nesse sentido, o que defendemos durante a COP foi a criação de instrumentos de valoração e de mercado que sejam justos e que contribuam para reduzir a desigualdade que impacta as populações tradicionais e pequenos produtores, além de priorizar projetos de compensação oriundos de Soluções baseadas na Natureza (NbS). Essa pode ser uma das maneiras mais eficazes de enfrentar a crise climática e gerar valor de negócios, renda e atração de investimentos. A propósito, tivemos a oportunidade de debater o tema em dois painéis e debates que aconteceram no Brazil Climate Action Hub, espaço criado por organizações da sociedade civil para dar visibilidade à ação climática brasileira.

E quando falamos de economia da sociobiodiversidade, a conservação e a regeneração da Amazônia são os primeiros tópicos da pauta juntamente com o fortalecimento dos povos e das comunidades locais. Sendo a maior fonte de biodiversidade do mundo, essencial no equilíbrio da vida na terra e fundamental para combater os efeitos da mudança do clima, o bioma tem capacidade de absorver enormes quantidades de carbono da atmosfera. É, portanto, uma ferramenta fundamental na mitigação das mudanças climáticas ao mesmo tempo que desponta como uma imensa possibilidade de desenvolvimento se considerada como base sua vocação natural aliada a novos modelos que potencializem o valor da floresta e das pessoas que lá vivem. Contudo, os altos índices de desmatamento e a degradação ambiental, além de não gerarem renda para os povos locais, fazem com que a Amazônia desempenhe um papel oposto à sua missão genuína. 

Um estudo realizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) revela que, em 2021, pela primeira vez, partes da Amazônia estão emitindo mais CO2 do que conseguem absorver. Ou seja, a floresta e os serviços ambientais que presta – como transformar carbono em oxigênio e garantir os ciclos de chuvas – estão em risco. A Amazônia pode estar próxima de se tornar uma fonte de poluição de carbono na atmosfera de maneira irreversível. E aqui está uma das nossas melhores oportunidades de termos um presente e um futuro em que não só entendamos o valor desta interdependência, mas, melhor do que isso, desenvolvamos modelos sustentáveis e regenerativos que possam reverter essa realidade. 

Por esse motivo, durante a COP-26, enfatizamos a importância do compromisso entre diversos grupos e atores da política global para atingir o desmatamento zero na Amazônia até 2025. Como exemplo prático do que já vem sendo feito pela Natura, podemos citar o PlenaMata, lançado durante a conferência e que representou um dos momentos mais marcantes para a companhia lá na Escócia. A plataforma desenvolvida em parceria com Mapbiomas, InfoAmazonia e Hacklab monitora em tempo real o desmatamento na floresta e apresenta um contador de árvores derrubadas por minuto e hectares desmatados. Com o PlenaMata, temos a oportunidade de mobilizar um movimento global para proteger a maior floresta tropical do planeta e assegurar um futuro saudável e sustentável para todos.

O pacto para combater o desmatamento da Amazônia também foi estabelecido em uma carta assinada por 19 CEOs de grandes empresas com operação no Brasil. O posicionamento organizado pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds), em parceria com a iniciativa Uma Concertação Pela Amazônia, cobra políticas para combate à derrubada da floresta e aponta soluções, como o uso intensivo de tecnologia de rastreamento e a inclusão econômica das comunidades locais.

Já tínhamos essa certeza, mas voltamos de Glasgow ainda mais convencidos de que a Amazônia é uma das melhores oportunidades para que o Brasil seja o líder da economia da floresta em pé e receba cada vez mais investimentos vindos dos inúmeros acordos e financiamentos firmados entre governos, empresas e coalizões durante o evento. Nesse sentido, nosso desafio pós-conferência será criar oportunidades de capturar esses investimentos para garantir a conservação e regeneração do bioma, tornando nosso país uma referência mundial em bioeconomia da floresta, no uso adequado do solo, em investimentos em ciência e tecnologia a favor da regeneração em sintonia com a valorização do conhecimento dos povos e comunidades tradicionais – seja por meio de crédito de carbono, repartição de benefícios, entre outras formas de pagamentos por serviços ambientais, visando reduzir as desigualdades que recaem sobre essas populações e pequenos produtores.

Já tínhamos essa certeza, mas voltamos de Glasgow ainda mais convencidos de que a Amazônia é uma das melhores oportunidades para que o Brasil seja o líder da economia da floresta em pé.

Levamos para a COP26 todas as nossas ambições e iniciativas e trouxemos na bagagem uma vontade ainda maior de sermos melhores para o mundo. Inspirados na potência daqueles jovens, mulheres, representantes de povos indígenas e tantos outros coletivos que tomaram conta das ruas de Glasgow manifestando o senso da urgência nas decisões, precisamos agir mais rápido e coletivamente. Faz todo o sentido, portanto, reforçar nossa atuação em agendas globais que defendam uma economia que valorize a biodiversidade e trace metas ambiciosas para escalar a transição dos principais setores para uma economia de baixo carbono com justiça social, iniciativas alinhadas ao nosso Compromisso com a Vida, plano robusto para enfrentar algumas das questões globais urgentes, lançado em 2020 pelo grupo Natura &Co.

Estamos na década da ação e não há mais espaço para especulações ou intenções. Chegou o momento de colocar em prática tudo o que foi tratado nessas duas semanas. É justamente por isso que nos comprometemos em começar a transformar o nosso planeta em um lugar adequado, justo, possível e melhor para se viver. 

Apesar dos acordos firmados e metas estabelecidas, o planeta já nos dá sinais claros de que mitigar as mudanças climáticas é para ontem. Isso começa agora, não em 2030. Como reforçam as palavras mais faladas na COP: road (jornada), race (corrida), action (ação), e now (agora). É urgente e é a nossa melhor oportunidade. O mundo está nas nossas mãos.   

SOBRE A AUTORA

Denise Hills é Diretora de Sustentabilidade de Natura &Co para América Latina