POR TIM MOHIN

À medida que a poeira da COP26 se assenta, os seus resultados estão se tornando mais claros. Apesar de o documento final dessa última cúpula do clima – o Pacto Climático de Glasgow – ser o acordo internacional mais ambicioso já fechado, os cientistas continuam alertando que estamos caminhando para um aquecimento de 2,4 ℃, o que ultrapassa em muito a meta de 1,5 ℃ estabelecida no Acordo de Paris (vale lembrar, contudo, que o aquecimento esperado antes de Paris era próximo a 4,0 ℃). Embora os compromissos climáticos pareçam sempre insuficientes, todas as nações concordaram em retornar com metas mais agressivas à COP27, no Cairo, e a manter viva a meta de 1,5 ℃. 

Não é pouca coisa que quase 200 países tenham chegado, ao mesmo tempo, a vários acordos importantes, abrigando objetivos e necessidades totalmente diferentes. Sendo assim, o pacto de Glasgow foi um passo importante, por mais que possa (e deva) ser aprimorado daqui para frente.

MAIS PROGRESSOS DO QUE RETROCESSOS

Embora os compromissos assumidos nessa COP não tenham propiciado as grandes manchetes que víamos em edições passadas, os participantes fizeram progressos reais. Por exemplo: 140 países que juntos representam 90% da silvicultura global concordaram em terminar e reverter o desmatamento até 2030, e mais de 100 países concordaram com uma promessa de redução de metano de 30% até 2030. Até mesmo os EUA e a China colocaram de lado sua relação atualmente balançada para se unirem sobre questões climáticas.

O metano é quase 100 vezes mais potente do que o dióxido de carbono em seu potencial de aquecimento global. O enviado especial dos EUA, John Kerry, contextualizou o acordo: “Se atingirmos a meta … seria o equivalente a levar todos os carros do mundo, todos os caminhões do mundo, todos os aviões do mundo, todos navios no mundo, até zero. É algo dessa grandeza.”

Ao responder a perguntas sobre a falta de metas rígidas no pacto EUA-China, Kerry disse o seguinte: a disposição da China em cooperar, seu atual estado de emissões e sua história de “superar seus próprios objetivos” tornam este acordo mais ambicioso do que seus críticos têm percebido.

De muitas maneiras, essa COP entregou o que as cúpulas do clima anteriores não fizeram. Surpreendentemente, esse foi o primeiro acordo a mencionar explicitamente a “eliminação” dos subsídios aos combustíveis fósseis e a controversa “redução gradual” do carvão. Também houve um claro progresso no aumento da transparência e da responsabilidade na forma como os países medem suas metas de redução de emissões: inclusive, foi decidida a adoção de um relatório anual que resume os compromissos anuais dos países.

A “VITÓRIA FRÁGIL” DE UM MÉTODO IMPERFEITO

De acordo com o presidente da COP26, Alok Sharma, a cúpula do clima foi uma “vitória frágil”. Durante seu discurso de encerramento, Sharma conteve as lágrimas e se desculpou pela linguagem diluída do pacto. Na décima primeira hora de negociação, a Índia exigiu que a expressão “eliminação gradual” da energia elétrica a carvão fosse alterada para uma “redução gradual”. A natureza frágil e difícil dessas negociações ficou clara diante do alvoroço para mudar detalhes críticos como esse à medida que o relógio avançava.

No final das contas, a COP26 foi um passo incremental, quando na verdade um salto gigante é necessário. A ciência do clima é clara: o aquecimento acima de 2,0 ℃ condena nações inteiras, e o total dos acordos alcançados nesta reunião ainda permitirá que o mundo ultrapasse essa marca.

A impaciência com o ritmo lento ficou manifesto nas ruas de Galsgow, onde ativistas se reuniram em torno de Greta Thunberg, que enquadrou o evento como “blá, blá, blá”. “Não é segredo que a COP26 foi um fracasso. Deveria ser óbvio que não podemos resolver a crise com os mesmos métodos que nos colocaram nela em primeiro lugar”, afirmou Thunberg.

A questão sem resposta permanece, apesar de tudo: qual é a alternativa? Como conciliamos as visões divergentes de quase 200 nações em acordos ambiciosos o suficiente para resolver a mudança climática?

Certa vez, Winston Churchill formulou uma frase que ficaria famosa: “a democracia é a pior forma de governo, exceto por todas as outras que já foram tentadas”. Depois de 26 reuniões que produziram um progresso lento e incremental, talvez esta citação também se aplique ao processo de negociações da COP. 

RISCO CLIMÁTICO É RISCO FINANCEIRO

Talvez o maior avanço dessa reunião tenha vindo do setor privado. Quer os legisladores concordem ou não, está claro que a comunidade financeira – representada pela Glasgow Financial Alliance for Net Zero (GFANZ) – não está esperando para agir. Este grupo de 450 das maiores instituições financeiras do mundo, supervisionando US $ 130 trilhões em ativos (o que representa cerca de 30% de todos os ativos no mundo), se comprometeu a alinhar suas carteiras a zero líquido até 2050.

Sempre que um terço de todo o dinheiro do mundo se alinhar em prol de um único objetivo, isso será notícia. Mas também é preciso desmitificar o compromisso da GFANZ de zerar a pegada de carbono. A razão por trás desse anúncio surpreendente é que a mudança climática agora já representa um risco para o sistema financeiro global. O estrondo das perdas relacionadas ao clima tornou-se ensurdecedor e, pouco antes da reunião da COP, o não-partidário Conselho de Supervisão da Estabilidade Financeira (FSOC) havia declarado a mudança climática “uma ameaça à estabilidade financeira dos EUA”. Ou seja: em essência, esses gestores de ativos estão agindo em seu próprio interesse porque está claro agora que reverter as mudanças climáticas protege seus próprios investimentos.

As promessas do setor financeiro se somaram a uma série de compromissos de coalizões de empresas multinacionais, como a promessa climática global. Em suma, o tamanho e a cobertura desses compromissos são mais significativos do que os acordos entre os Estados-nação. Este é um sinal claro de que o risco climático se transformou em risco financeiro. Os mercados reconheceram esse fato básico e continuarão a agir sobre o clima, com ou sem estímulo dos governos.

PALAVRA-CHAVE: RESPONSABILIDADE

O resumo mais promissor dessa última COP é que os setores público e privado estão agora trabalhando juntos e mobilizando financiamento em torno da visão comum de uma economia de baixo carbono. Independentemente de como os compromissos são estruturados, eles são apenas promessas. O aspecto principal daqui para frente é a responsabilidade: os governos, entidades financeiras e empresas cumprirão seus compromissos? E como saberemos se o farão?

Um ponto alto da reunião da COP foi o anúncio do novo International Sustainability Standards Board (ISSB). Esta nova entidade criará uma “linguagem comum global” para divulgação climática, consolidando e padronizando relatórios ESG e integrando-os com divulgação financeira.

Os padrões ISSB, juntamente com os mandatos de divulgação climática – já em vigor no Reino Unido, Japão e Nova Zelândia – exigirão que as empresas relatem emissões auditadas e garantidas, políticas climáticas e declarações prospectivas integradas em suas demonstrações financeiras. Isso é uma virada de jogo, já que a maior parte da divulgação de carbono ainda é voluntária, o que a torna inconsistente, não confiável e livre de implicações financeiras.

Essas mudanças significam que as empresas precisam levar a sério a contabilidade do carbono, tratando-a com o mesmo rigor com que tratam os relatórios financeiros. Isso exigirá ferramentas de ponta, como gerenciamento de carbono e plataformas de contabilidade, para garantir que as medições da pegada de carbono sejam precisas, transparentes e totalmente auditáveis.

ANTES TARDE DO QUE NUNCA

O presidente Biden voou para Glasgow levando nada muito além do que boas intenções, por conta do impasse do Congresso sobre sua agenda climática. Mas agora o projeto de lei bipartidário de infraestrutura, que inclui muitos investimentos para redução de emissões, foi aprovado e, se uma versão reduzida do projeto de lei “Build Back Better” também for aprovada no Congresso, ela trará ainda mais recursos para que os EUA apoiem promessas de combate às mudanças climáticas.

A história não se lembrará da COP26 como um divisor de águas, mas a reunião colocou algumas novas respostas na mesa – e mudou a trajetória geral a favor da humanidade.

SOBRE O AUTOR

Tim Mohin é o diretor de sustentabilidade da Persefoni AI. Anteriormente, Mohin atuou como executivo-chefe da Global Reporting Initiative. Ele também ocupou cargos de liderança em sustentabilidade na Intel, Apple e AMD e trabalhou na política ambiental no Senado dos EUA e na Agência de Proteção Ambiental. Ele é o autor de Changing Business From the Inside Out: a Treehugger’s Guide to Working in Corporations.