Estamos respirando nanoplásticos suspensos no ar

Crédito: Fast Company Brasil

Talib Visram 3 minutos de leitura

A quantidade de plástico descartada no meio ambiente é estimada em 4,9 bilhões de toneladas. Uma vez na natureza, esse material é degradado,  partindo-se em pequenos fragmentos do tamanho de uma semente de gergelim, que acabam sendo ingeridos por pessoas e animais. Pesquisas  sugerem que ingerimos aproximadamente cinco gramas de microplástico por semana, em  média, ou o equivalente a uma tampa de garrafa pet.

Só que podemos estar consumindo estes plásticos também de outra maneira: através do sistema respiratório. Há uma grande preocupação com respeito aos nanoplásticos – partículas ainda menores que os microplásticos. Elas são tão pequenas que podem se mover por grandes distâncias no ar, serem facilmente inaladas e penetrarem na corrente sanguínea. Um novo estudo analisou o movimento dessas partículas e constatou que elas estão presentes em abundância na atmosfera, sendo transportadas, inclusive, para áreas remotas. Até onde os cientistas sabem, este é “o registro mais preciso da poluição de nanoplásticos já feito”.

Essas partículas – que chegam a ter 200 nanômetros de tamanho – tanto podem ter como origem microplásticos que foram se decompondo em pedaços ainda menores ao longo do tempo quanto em fragmentos de objetos do nosso dia a dia (como roupas, por exemplo), lançados na atmosfera. Devido ao seu tamanho microscópico, elas ficam em suspensão. “São tão pequenas que podem ser transportadas pelo ar”, diz Dominik Brunner, pesquisador do Empa, dos Laboratórios Federais Suíços de Ciência e Tecnologia de Materiais, e especialista em modelagem de transporte atmosférico.

Brunner auxiliou uma equipe da Universidade de Utrecht, na Holanda, que desenvolveu uma técnica para medir a concentração de partículas nanoplásticas em uma amostra de material – no caso, um punhado neve – que, em geral, é uma mistura de diversas partículas diferentes.

Eles escolheram um ponto remoto nos Alpes austríacos e utilizaram a técnica para analisar os nanoplásticos que encontraram lá. Os pesquisadores sabiam que estas partículas estão presentes nas áreas urbanas, mas até onde poderiam viajar? A equipe montou sua base a 3.106 metros de altitude, no topo da montanha Hoher Sonnblick, no Parque Nacional Hohe Tauern, que abriga um observatório de meteorologia e geodinâmica.

Todos os dias, durante um mês e meio, um punhado de neve das áreas mais altas era coletado, tinha sua espectrometria de massa analisada e suas moléculas, mensuradas. Uma vez identificadas, eram comparadas com tipos conhecidos de plásticos, como polietilenos e polipropilenos.

Através da análise da movimentação individual de parcelas de ar, a origem das partículas foi identificada, por meio de uma técnica de dispersão de partículas e de modelos de serviços meteorológicos europeus. Os pesquisadores descobriram que elas tinham vindo, principalmente, de áreas urbanas densamente povoadas. Cerca de 30% delas viajaram distâncias superiores a 160 quilômetros, vindas de grandes metrópoles como Londres, Paris, Amsterdã, Frankfurt, Stuttgart e Munique.

A origem, na verdade, não surpreendeu os cientistas, e sim as distâncias percorridas. “Por serem tão pequenas, podem ser transportadas pelo vento para bem longe”, explica Brunner. Algumas percorreram trajetos ainda mais longos: 10% vieram de mais de 1.600 quilômetros de distância, incluindo algumas  originadas do oceano Atlântico. O que sugere que plásticos mais leves presentes na superfície do mar podem retornar à atmosfera.

Isso também significa que você está respirando nanoplásticos suspensos no ar ao seu redor. Quanto menores as partículas, maior o risco de inalação. Cientistas julgam que plásticos menores que um micrômetro (0,000001 metros) de diâmetro são capazes de penetrar profundamente nos pulmões, enquanto os maiores, com mais de 10 micrômetros, provavelmente são filtrados pelo sistema respiratório superior.

Embora tudo indique que os nanoplásticos não são mais tóxicos para o nosso corpo do que os microplásticos, é o tamanho das moléculas que causa preocupação, além do fato de estarem presentes em grandes quantidades, mesmo em áreas remotas. A quantidade de nanoplásticos em um metro quadrado de neve do alto dos Alpes austríacos foi 2,8 vezes maior do que a identificada nos Pirineus franceses em um estudo de 2019.


SOBRE O AUTOR

Talib Visram escreve para a Fast Company e é apresentador do podcast World Changing Ideas. saiba mais