Álcool com 60% de concentração. Isso é o que o seu antisséptico precisa para matar o vírus SARS-CoV-2 com segurança, de acordo com o CDC.

Mas uma nova pesquisa da BYU, publicada no periódico Journal of Hospital Infection, está desafiando a ideia. A entidade descobriu que três desinfetantes comerciais – utilizados como alternativa ao álcool em muitos desinfetantes sanitários e limpadores de superfícies – matam o vírus com eficácia.

A descoberta mais importante é que um composto químico conhecido como cloreto de benzalcônio (BKC) mata com confiança o SARS-CoV-2.
Se o FDA e o CDC aceitarem estas descobertas, os desinfetantes sanitários poderiam tornar-se mais baratos, mais agradáveis de se usar e, finalmente, mais abundantes nas prateleiras.

COMO ISSO É POSSÍVEL?

Embora você possa nunca ter ouvido falar dessa substância, o BKC é o único antisséptico para mãos aprovado pelo FDA no mercado – e que não inclui álcool. É um antisséptico para mãos popular há anos e um ingrediente básico dos sabonetes antibacterianos. O BKC é muito mais barato para produção em larga escala do que o álcool.

As implicações da pesquisa são as de que podemos ter uma fonte de fornecimento mais ampla e barata para EPIs do que temos hoje, e de que não precisamos ficar queimando ou irritando nossas mãos com álcool quando há uma solução mais suave. O BKC não somente conseguiu eliminar o vírus: matou o vírus em simulações de condições reais, como quando aplicado mãos sujas ou por meio de diluição por água residual da lavagem das mãos. E fez isso em apenas 15 segundos.

“Na minha opinião, tendo feito diversos testes com desinfetantes, [15 segundos] é mais ou menos o melhor que se pode esperar”, afirma Benjamin Ogilvie, estudante de microbiologia e biologia molecular da BYU que conduziu a pesquisa. Ele explica que é logisticamente impossível observar outro processo de ação mais rápido de desinfetantes sobre vírus.

ESTES RESULTADOS ERAM ESPERADOS, MAS NECESSÁRIOS

Ogilvie admite que os resultados deste estudo estão de acordo com o que ele esperava. O BKC já tinha se mostrado eficaz contra o coronavírus antes desta nova pesquisa; o produto apenas não tinha sido testado especificamente contra o SARS-CoV-2. David Edwards, especialista em patologia em Harvard selecionado pela Fast Company para avaliar o artigo, também considera os resultados previsíveis. “O BKC é um antimicrobiano conhecido, os resultados deste estudo não são surpreendentes”, comenta Edwards.

Então, se os especialistas não estão surpresos que o BKC mata o SARS-CoV-2, por que o CDC não está recomendando o uso da substância? Ogilvie revela que a controvérsia começou em março, com um artigo muito citado do Institut für Hygiene, da Alemanha. O documento não apresentava novas pesquisas, pois se tratava de um “artigo de revisão,” que examina a literatura já publicada sobre o assunto.

“Este artigo de revisão citava um estudo dos anos 80 que era um pouco questionável”, diz Ogilvie. O estudo concluiu que o BKC é “menos eficiente” na esterilização de superfícies que o álcool. Desde março, o artigo do Institut für Hygiene foi questionado tanto por químicos como por um fabricante de desinfetante (o time do Institut für Hygiene não respondeu ao nosso pedido de entrevista). De toda forma, os efeitos ainda estão sendo sentidos em nossas políticas. Não somente o CDC recomenda o uso exclusivo de antissépticos para as mãos à base de álcool, como o FDA está limitando o potencial dos EUA para aumento da produção de desinfetantes de BKC durante a pandemia.

O FDA concedeu uma aprovação rápida (PDF) para a produção de desinfetantes à base de álcool, que permite que destiladores locais e outros fabricantes não convencionais produzam antissépticos. Se o FDA tivesse oferecido a mesma aprovação para o BKC, o mercado teria uma gama muito maior de fabricantes produzindo-o também.

A MAIOR PRATICIDADE DO DESINFETANTE DE BKC

Se o BKC fosse recomendado pelo CDC, a disponibilidade de antissépticos para as mãos subiria, enquanto os custos cairiam, já que é preciso muito menos BKC do que álcool para que o desinfetante faça efeito. Enquanto uma concentração de 60% de álcool é necessária para que o desinfetante faça efeito, você só precisa de 0,2% de BKC.

“Um galão de BKC podem fazer 500 galões de antisséptico, enquanto a mesma quantidade de álcool poderia fazer 1,4 litros de antisséptico”, compara Ogilvie. De acordo com suas estimativas, um antisséptico de BKC custa cerca de um terço do custo de produção do de álcool.

Então, o BKC é um desinfetante mais eficiente no geral do que o álcool. Contudo, o maior apelo do produto químico pode ser o fator humano. O BKC não cheira mal e é mais agradável de usar.

“Uma vantagem do BKC é que ele não incomoda ou irrita a pele como o álcool faz. Isso pode significar que seja mais adequado para trabalhadores da área da saúde”, opina Ogilvie. Ou, talvez, para todos nós.

SOBRE O AUTOR

Mark Wilson é escritor sênior na Fast Company e escreve sobre design, tecnologia e cultura há quase 15 anos. Seu trabalho já apareceu na Gizmodo, Kotaku, PopMech, PopSci, Esquire, American Photo e Lucky Peach.