POR DEMIAN FALESTCHI 

O dia 13 de novembro marca o Dia Mundial de Luta contra o Grooming. No Brasil, 91% das crianças se conectam diariamente à internet por meio de diferentes dispositivos, dos quais 86% o fazem por meio de um smartphone. A facilidade com que acessam seus conteúdos preferidos implica também em um risco potencial que não passa desapercebido a essa audiência: 88% se diz preocupada com a questão da segurança no momento de se conectar.

Uma pesquisa online realizada pelo Portal insights da Askids, — entre abril e julho de 2021, com 4840 respondentes entre 5 e 18 anos –, aponta que os adolescentes brasileiros estão mais conscientes dos perigos quando estão online: preocupados com o cyberbullying (51%), com sua privacidade (46%), em estar expostos a conteúdos inadequados (43%) e com o uso de seus dados (35%). Isso pode ser explicado por um aumento da informação sobre os perigos na Internet ou pelo fato de serem usuários mais frequentes das redes sociais.  

Já as crianças estão mais preocupadas com questões como exposição a conteúdo inadequado (55%), privacidade (28%) e cyberbulling (27%). Passar muito tempo na internet é algo que não as preocupa tanto (8%), mas certamente deve preocupar seus pais. 

Seus receios não são exagerados. A privacidade e a exposição a conteúdos inadequados são a causa e consequência de uma prática que, a cada dia, os atormenta mais: o grooming (aliciamento online) é algo que afeta e preocupa 24% das crianças e adolescentes.

O aliciamento diz respeito a comportamentos e ações de um adulto, através da Internet, para estabelecer um vínculo e exercer controle emocional sobre um menor, a fim de abusá-lo sexualmente. O aliciador finge ser alguém que não é. Considerando o intenso uso que crianças e adolescentes fazem das redes sociais – no Brasil 39% passam diariamente entre uma e quatro horas conectadas – a internet passa a ser o ambiente ideal para o desenvolvimento dessa prática perversa, transformando um “risco virtual” em um perigo real ao qual as crianças são expostas diariamente, com consequências que podem ir de danos psicológicos a físicos, muitos até mesmo fatais.  Além disso, à medida que os menores crescem, o tempo de conexão na companhia de um adulto diminui, aumentando o risco de se tornarem vítimas potenciais de grooming. Nos últimos anos, o aliciamento online tem pautado muitas conversas, nas próprias redes sociais e na mídia, com o intuito de alertar pais e tutores sobre os perigos dessa modalidade. Em vários países da região, diferentes iniciativas surgiram para conscientizar e combater esse enorme mal.  

Segundo relatório da UNESCO de outubro passado, o México é o país com mais casos de cyberbullying na América Latina, seguido pela Argentina. O Brasil está em 6º lugar. Alguns dados são alarmantes: quase 80% das vítimas são meninas, e 86,7% dos casos de assédio correspondem a aliciamento e pornografia infantil. Os smartphones são os dispositivos mais utilizados, e neles, o aplicativo ao qual mais recorrem os agressores é o WhatsApp, em 74,3% dos casos. Os restantes 25,7%  estão distribuídos, nesta ordem, pelo Instagram, Facebook, Twitter, Zoom e Telegram.

Muito adultos querem que as redes sociais cuidem de sua prole, quase como babás virtuais, desincumbindo-se completamente do assunto enquanto deixam seus filhos conectados a ambientes como Instagram, TikTok, Snapchat, Facebook, que não foram pensados para menores de 13 anos. Deixar uma criança de 9 anos sem qualquer supervisão numa dessas plataformas é como como deixá-la sozinha em casa com a porta aberta: qualquer um pode entrar. Não somos culpados de o mundo estar cheio de maldade, mas também não devemos ser facilitadores para os que querem praticá-las.

Com ações eficientes de governos, sociedades, famílias e o apoio de ONGs, podemos tentar reduzir os casos. A responsabilidade também se estende ao setor privado, e as empresas, por serem agentes de mudança, devem promover ambientes seguros e boas práticas na internet para educar, entreter e transmitir valores, protegendo os pequenos de qualquer predador em potencial. As organizações que se recusarem a entender seu papel se tornam, ainda que inadvertidamente, agentes  viabilizadores desses infortúnios.

É hora de sermos mais seriamente conscientes, como líderes políticos, familiares, profissionais, empresas e sociedade. Cada minuto a mais de exposição de nossas crianças à internet sem a supervisão de entes responsáveis, maior é a probabilidade delas serem enganadas por predadores. A consequência é o abuso sexual e psicológico, e ter sua infância e sua vida roubadas. Não lhe parece valer a pena prestar mais atenção a essa questão? 

SOBRE O AUTOR

Demian Falestchi é CEO da Kids Corp.