POR KRISTIN TOUISSAINT

Para controlar a crise climática, os especialistas têm enfatizado a importância de transformar sistemas de energia, de tornar nossos edifícios e equipamentos domésticos mais eficientes em termos de consumo, para que, então, avancemos para fontes renováveis. Mas o sucesso dessas mudanças também dependerá de como elas influenciarão o uso humano de energia – e também o comportamento humano. Um estudo recente enfatiza como, inconscientemente, nossos hábitos e estilo de vida podem se alterar quando adotamos inovações sustentáveis. Essas alterações podem chegar ao ponto de se sobreporem a resultados tecnicamente positivos das inovações.

Para o estudo, publicado recentemente na revista Global Environmental Change, os pesquisadores da Universidade de Utah decidiram analisar duas principais soluções para as mudanças climáticas: melhoria da eficiência energética e transição para energias renováveis. Essas são as duas estratégias de redução de emissões mais comuns e mais amplamente implementadas. “Nosso raciocínio foi:  ‘Se o mundo acredita que essas são as duas melhores soluções existentes, por que não testamos qual delas é a melhor?” explica Lazarus Adua, professor assistente de sociologia da Universidade de Utah e principal autor do estudo.

Com base em dados do Departamento de Energia norte-americano, os pesquisadores compararam as emissões de CO2 de cada estado e os investimentos feitos nesses dois tipos de soluções, entre 2009 e 2016. Para dados sobre os investimentos em eficiência energética, eles consultaram o Conselho Americano para uma Economia Eficiente em Energia, que pontua os estados com base em suas iniciativas e políticas para melhorar a eficiência em edifícios e residências. Os pesquisadores também levaram em consideração a produção econômica de cada estado por unidade de energia consumida (variável encontrada dividindo-se a produção econômica de um estado pela sua entrada de energia) para calcular a eficiência do PIB geral do estado. Já para os investimentos renováveis, eles calcularam quanto do consumo total de energia de cada estado vem de fontes renováveis.

O objetivo era descobrir qual das duas soluções estava associada à maior queda nas emissões. A equipe analisou o impacto de cada solução em quatro setores: residencial, comercial, industrial e de transportes. A boa notícia é que ambas as políticas se mostraram eficazes: a transição para as energias renováveis ​​e o aumento da eficiência energética foram associados à redução das emissões de CO2 ao se considerar todos esses setores – e, no fim das contas, não houve diferença estatisticamente significativa entre as duas soluções.

Considerando toda a economia do estado mais eficiente em termos de energia, o estudo descobriu que uma melhoria de 1% na produção econômica por unidade de energia gerou cerca de 0,61% de redução nas emissões de CO2. “Se eles utilizam menos energia para produzir todos os seus produtos, podemos considerá-los mais eficientes”, diz Adua. A mudança para as energias renováveis ​​também teve um impacto geral. Um investimento de 1% em energias renováveis ​​gerou uma redução de 0,7% nas emissões totais de CO2 relacionadas à energia, quando se considera todos os setores.

Mas a surpresa veio quando eles olharam para setores específicos e para políticas em menor escala. No setor residencial, os pesquisadores descobriram o inverso: um aumento de 1% nas energias renováveis ​​foi associado a um aumento de cerca de 0,36% nas emissões de CO2. O mesmo aconteceu com as políticas voltadas para ajudar os consumidores a melhorar sua própria eficiência energética, que não surtiram efeito algum sobre as emissões. “Esta medida diz respeito aos trabalhos dos governos estaduais com concessionárias de serviços públicos, fornecendo o que chamamos de ‘programação de eficiência energética’, e parte dela está procurando como fazer com que as residências e edifícios minimizem seu consumo de energia”, disse Adua.

A expectativa era que ambas as soluções reduziriam as emissões, mas isso não aconteceu. Adua sugere que um “efeito rebote” entrou em jogo: “O resultado não significa que essas políticas não estivessem funcionando exatamente como deveriam funcionar, do ponto de vista técnico. Mas elas podem ter funcionado tão bem que houve uma retomada do consumo. Logo, as emissões foram impulsionadas pelo comportamento humano”, afirma.

A evidência do efeito rebote – quando as coisas se tornam mais eficientes, as pessoas tendem a usá-las mais, ignorando os benefícios da eficiência – foi documentada várias vezes, com todos os tipos de comportamentos sustentáveis. Um estudo descobriu, por exemplo, que os carros com baixo consumo de combustível nos incentivam a dirigir mais. A primeira documentação sobre esse efeito data de 1865, quando um economista inglês detalhou como os avanços na eficiência da energia do vapor aumentaram o consumo de carvão na Grã-Bretanha, em vez de diminuí-lo. Observamos o mesmo com as compensações de carbono, já que seu uso inadvertidamente concedeu às pessoas ou corporações “licença” para poluir mais. Adua oferece outro exemplo fora da esfera ambiental: se você for à academia e depois se consolar com uma sobremesa, pode acabar ingerindo mais calorias do que as que queimou durante o treino.

Se alguém percebe que o preço das contas de energia está caindo porque a energia vem de fontes renováveis ​​ou porque suas casas são mais eficientes, essa pessoa pode, até de modo inconsciente, começar a consumir mais energia – deixando luzes acesas ou ligando eletrodomésticos com mais frequência. No fundo, eles sabem que esses pequenos hábitos estão sendo sustentados de forma ambientalmente (mais) correta. Ou seja: o efeito rebote parece acontecer justamente quando as pessoas enxergam diretamente os benefícios das soluções. Seus comportamentos tendem a seguir o caminho oposto – usando ainda mais energia, porque agora sabem que suas casas estão sendo alimentadas por energias renováveis.

Isso não é motivo para interromper essas políticas, diz Adua. É apenas um lembrete de que ao implementar tais soluções – como no programa do governo Biden para reformar casas e melhorar sua eficiência energética – as autoridades também precisam pensar em como evitar esse efeito rebote. “Não é a política que não funciona. Não é a eficiência que não está funcionando. Geralmente, é a maneira como os comportamentos humanos interagem com essas melhorias”, diz Adua. “Mesmo que essas soluções funcionem, talvez tenhamos que considerar mudanças no estilo de vida também.”

SOBRE A AUTORA

Kristin Touissant é editora de Impacto na Fast Company.