POR ADELE PETERS

Há 33 anos, em um dia quente e abafado do verão de 1988, o cientista da NASA James Hansen esteve diante do Congresso americano e atestou que havia uma ameaça à existência no planeta: o clima já estava mudando. Os gases que retêm o calor dos combustíveis fósseis estavam elevando a temperatura global e levariam ao calor extremo e a secas no futuro. Apesar de este não ter sido o primeiro alerta sobre esse problema, ele foi importante para desencadear a busca por soluções. Até George W. Bush, que à época estava em campanha para a presidência, prometeu combater o “efeito estufa”. Naquele mesmo ano, a Organização das Nações Unidas iniciou o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, também conhecido como IPCC.

 

Um ano depois, a indústria de combustíveis fósseis criou uma organização para levantar dúvidas sobre a veracidade do problema e para disseminar a desconfiança. Financiou pesquisadores dispostos a argumentar que a ciência climática era imprecisa, mesmo com pesquisas internas na Shell e na Exxon detalhando as catástrofes que provavelmente decorreriam do uso de seus produtos. Somado a isso, os governos foram muito lentos para fornecer respostas e as emissões continuaram a crescer.

 

Estamos vivendo agora as consequências da demora para agir, pois os níveis de CO2 na atmosfera atingiram um nível recorde. No noroeste do Pacífico, centenas de pessoas e mais de um bilhão de animais marinhos morreram devido a uma onda de calor extremo em junho – na tentativa de escapar do calor, filhotes de pássaros pulavam de seus ninhos antes mesmo de aprender a voar. Na Europa, uma enchente sem precedentes matou mais de 170 pessoas e varreu diversas casas. Na China, uma chuva recorde atingiu uma linha de metrô e matou 14 pessoas, deixando outras presas até que pudessem ser resgatadas. Na Sibéria, mais de 200 incêndios florestais ocorreram neste verão, e as florestas destruídas liberaram quantidades recordes de CO2. O Brasil está enfrentando uma seca histórica. No Golfo do México, a água superaquecida alimentou o furacão Ida, que deixou mais de um milhão de pessoas sem energia na Louisiana e causou pelo menos 52 mortes no nordeste dos Estados Unidos. Após o último relatório do IPCC explicando o quanto a situação poderia piorar, o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que se tratava de um “alerta vermelho para a humanidade”.

 

No início deste ano, a administração Biden prometeu que os EUA zerariam suas emissões de carbono até 2050 e que, até o final desta década, reduziriam as emissões à metade. Outros países e dezenas de empresas aderiram à mesma meta de zerar emissões até meados do século. Atingir esses objetivos exigirá grandes mudanças e, infelizmente, elas talvez não sejam o suficiente. Os objetivos vigentes se concentrado em tentar limitar o aumento de temperatura em 1,5 grau Celsius, mas já estamos vendo impactos catastróficos com o aumento de cerca de 1 grau. As taxas atuais de emissões são tão altas que é provável que ultrapassemos o limite de 1,5 grau dentro de uma década – ou seja, bem antes de 2050. Mesmo que a meta se mantenha nesse 1,5 grau, teremos que agir o mais rápido possível para alcançá-la. Mas a questão é que, com o futuro da humanidade em jogo, devemos repensar se esse objetivo é ambicioso o suficiente.

 

O PROBLEMA DE 1,5 GRAU CELSIUS

 

Já em meados do século XIX, os cientistas começaram a entender como o CO2 aquece a Terra. Mas foi apenas um século depois, na década de 1970, que alguém propôs pela primeira vez que a sociedade deveria ter como objetivo um limite específico para o aquecimento global – e foi um economista, não um cientista climático, que sugeriu que esse limite deveria ser de o aumento máximo de 2 graus Celsius. Era essencialmente um cálculo aproximado e baseado, em parte, naquilo que parecia ser tanto política quanto tecnologicamente possível, e não no que seria o ideal para o planeta. De todo jeito, a meta de 2 graus começou a ganhar apoio político.

 

Décadas depois, na Conferência do Clima de Paris em 2015, líderes globais finalmente negociaram um acordo voluntário para limitar o aquecimento a 2 graus até o final do século, reduzindo as emissões. No entanto, alguns países pequenos, como as Maldivas – uma ilha particularmente vulnerável ao aumento do nível do mar – pressionaram por uma compromisso mais audacioso, como tentar atingir um limite de 1,5 grau, porque reconheciam que essa diferença de meio grau de aquecimento tornaria os impactos muito piores, especialmente para certas áreas do mundo. No fim das contas, o Acordo de Paris estabeleceu tanto a meta de 2 graus quanto um pacto em “buscar esforços” para manter o aquecimento em 1,5.

 

“O pacto por 1,5 grau foi uma reviravolta bastante surpreendente, que surgiu das sombras na Conferência de Paris em 2015. Em grande parte, foi impulsionada por algumas vozes bastante periféricas que, de repente, começaram a insistir em 1,5, enquanto todo o consenso político anterior estava em torno de 2 graus.”, afirmou Tim Jackson, professor de desenvolvimento sustentável na Universidade de Surrey, no Reino Unido. Após a Conferência, o IPCC publicou um relatório em 2018 que concluiu que 2 graus de aquecimento teriam, de fato, impactos significativamente piores do que 1,5. Com 2 graus de aquecimento, por exemplo, dezenas de milhões de pessoas seriam expostas ao calor extremo e 99% dos recifes de coral provavelmente não sobreviveriam. E os impactos serão ainda piores se a temperatura global aumentar acima de 2 graus.

 

A recente meta de zerar a emissão líquida de carbono até 2050 vem desses estudos. Para termos uma chance razoável de evitar que a temperatura média global suba mais de 1,5 grau, o relatório de 2018 aponta que o mundo precisa zerar as emissões até 2050 – o que significa que quaisquer emissões remanescentes precisam ser equilibradas com a remoção de carbono pelas árvores e com tecnologias para filtrar CO2 do ar. Até 2030, teremos que diminuir as emissões em pelo menos 45%.

 

Mas 1,5 nunca foi um número mágico e esse aumento tampouco é “seguro”. No momento, a temperatura média na Terra já está cerca de 1,1 grau mais quente do que era no final do século XIX, e já estamos presenciando repetidas catástrofes, que somam estragos de bilhões de dólares. “Se já estamos observando as consequências devastadoras com esse aumento de 1 grau, com certeza será muito pior com 1,5”, diz Jackson. Pode até ser que os recifes de coral não desapareçam completamente com 1,5 grau de aquecimento, mas de 70 a 90 por cento deles provavelmente serão eliminados. Além disso, tempestades, secas e inundações serão mais severas. Mais de um bilhão de pessoas estariam expostas a frequentes ondas calor extremo. Não há dúvida de que a meta de 1,5 grau é melhor do que a de 2. Mas será que não devemos ser mais ambiciosos e planejar um futuro que reduza ainda mais a temperatura global?

 

“Será que é razoável nossa meta ser estabelecida em um nível que, sem dúvida, causará migrações em massa por causa do calor insuportável, da elevação do mar, da degradação da terra etc.?” pergunta Erica Dodds, CEO da Foundation for Climate Restoration – uma organização sem fins lucrativos focada em remover o excesso de carbono da atmosfera. “Especialmente quando aqueles que menos contribuíram para as mudanças climáticas, ou seja, o sul global, são os que mais sofrem com seus impactos. Embora respeitar a meta de 1,5 grau Celsius exija uma mudança sistêmica em uma escala sem precedentes – principalmente em nações industrializadas -, muitos argumentam que adotar uma meta mais ambiciosa é essencial para o bem da igualdade e da sobrevivência, especialmente para aqueles mais vulneráveis aos impactos climáticos.”, complementa Dodds.

 

JÁ ESTAMOS QUASE EM 1,5 GRAU

Mesmo que a meta esteja definida em 1,5 grau, estamos no caminho para superá-la. O relatório mais recente do IPCC, divulgado em agosto de 2021, calcula que temos um “orçamento de carbono” restante de cerca de 400 bilhões de toneladas. Isso significa que devemos nos limitar a uma menor de quantidade de CO2 para que ainda tenhamos alguma chance razoável de manter a temperatura global abaixo desse aumento de 1,5 grau. (A probabilidade de que este cálculo esteja correto é de 66%, o que significa que mesmo essa chance não é uma garantia.)

 

O mundo emite cerca de 42 bilhões de toneladas de CO2 por ano. Se as emissões continuarem tão altas, vamos ultrapassar o limite de 1,5 grau em menos de uma década. O relatório do IPCC diz que é provável que isso aconteça antes de 2040, já que é provável que excedamos temporariamente esse limite nos próximos anos, especialmente em meses quentes. Dependendo da rapidez com que o mundo esgota o restante do orçamento de carbono, mais cedo ou mais tarde há chances de ultrapassarmos esse limite permanentemente. “Acho que, em nível global, esse orçamento será estourado por volta de 2028”, afirma Jackson. “E é claro que qualquer carbono que emitamos depois disso só agravará o problema, uma vez que já estaremos no ‘cheque especial’ por termos estourado o orçamento.”

 

Como o orçamento de carbono é dividido entre os países, os maiores emissores consequentemente têm menos tempo para agir. Isso significa que para muitos deles será necessário zerar as emissões muito antes de 2050 e tomar medidas mais radicais em relação a elas desde já.  Jackson estudou recentemente o caso do Reino Unido, que também pretende zerar as emissões líquidas até 2050, e calculou que sua participação no orçamento de carbono remanescente do mundo seria algo em torno de 2,9 bilhões de toneladas, com base na população. Mas, como o Reino Unido foi historicamente responsável por mais emissões do que a maioria dos países – e os países em desenvolvimento ainda precisam crescer – ele refez esse cálculo e afirmou que só restavam somente cerca de 2,5 bilhões de toneladas daquilo que considera um “orçamento de carbono justo”. O país emitiu cerca de 455 milhões de toneladas de CO2 em 2019.

 

Dependendo de quão abruptamente o país decida cortar as emissões, pode ser necessário zerá-las já em 2025 ou 2030. Isso obviamente não vai acontecer. (Em um cálculo semelhante, a US Climate Action Network argumenta que os EUA – os maiores poluidores da história – precisariam reduzir as emissões em 195% até 2030 para contribuir de forma justa com sua parcela no Acordo de Paris, tendo como base os níveis de 2005. O relatório sugere a redução das emissões domésticas em 70% e, além disso, recomenda que para cumprir o restante da meta, ofereça ajuda aos países em desenvolvimento na redução de suas emissões).

 

Para uma nação como o Reino Unido, “a única maneira de zerar a emissão de carbono em três anos seria parar a economia”, diz Bob Kopp, diretor do Instituto de Ciências Oceânicas, Atmosféricas e da Terra, da Universidade Rutgers e um dos autores do recente relatório do IPCC. “Isso simplesmente não é viável.” Mas é verdade, reconhece ele, que os maiores poluidores terão de zerar as emissões antes da metade deste século para que o mundo inteiro alcance a meta. Os países em desenvolvimento, que estão crescendo mais rápido, precisarão de mais tempo. O próximo relatório do IPCC, que será lançado em fevereiro de 2022, examinará com mais detalhes o que precisa ser feito. Mas “a lógica diz que se os países desenvolvidos zerarem a emissão líquida apenas em 2050, o mundo como um todo não terá zerado as emissões na data limite”, diz Kopp. A mesma coisa vale para as empresas. Como algumas delas levarão mais tempo para se descarbonizar, outras terão que atingir o zero muito antes de 2050.

 

Mudanças radicais em todos os aspectos da economia precisam acontecer para que o mundo alcance a meta zero até a metade do século. Um relatório da Agência Internacional de Energia aponta o seguinte: teríamos que instalar o equivalente à maior usina solar do mundo, todos os dias, até 2030; deixar de vender carros a gás e a diesel até 2035; parar a partir de agora os investimentos em petróleo e gás. O relatório também admite que não existe um caminho fácil para atingir a meta. Dada a escala do desafio, pode parecer impossível vencê-lo, mas isso não significa que não devemos tentar.

 

“Alguns acreditam que a meta de 1,5 grau está fora de alcance, porque a escala de mobilização necessária não tem precedentes”, diz Dodds. “Outros argumentam que estabelecer uma meta ambiciosa – mesmo com o reconhecimento de que podemos não conseguir cumpri-la – nos levará a um lugar melhor do que uma meta na qual as chances de sobrevivência são quase inexistentes. Dado que a mudança climática é a maior ameaça que a humanidade já enfrentou, parece coerente esperar que o mundo responda a ela com ações mais ambiciosas do que nunca.”

 

AINDA É POSSÍVEL FAZER MAIS E MAIS RÁPIDO

As coisas poderiam andar ainda mais rápido. “Desde que trabalhei com esse tema e tentei ajudar a resolver esta crise, as metas sempre representaram um compromisso entre o que a ciência diz e o que as pessoas pensam ser o máximo que os sistemas político e econômico podem oferecer”, declarou Al Gore à Fast Company em uma entrevista recente. “Mas agora, a ciência é muito mais precisa e a urgência é muito maior do que era. Seria melhor para todos nós se pudéssemos zerar as emissões amanhã. À medida que o mundo começa a agir e essas ações ganham impulso, é possível que a meta seja alcançada em um tempo mais curto. Eu realmente espero que sim.”

 

Do ponto de vista estritamente técnico, o mundo pode zerar suas emissões antes de 2050. “A redução das emissões tem sido essencial por décadas, mas seu progresso tem sido injustificavelmente lento”, diz Dodds. Já temos muitas das principais tecnologias necessárias, como eletricidade renovável e barata, e podemos implementá-las mais rapidamente. Também já podemos migrar para veículos elétricos. Empresas como a Amazon, embora indiscutivelmente não ajam com toda a rapidez que a tecnologia permite, já pretendem zerar as emissões até 2040, à frente da meta de Paris. Os governos, por sua vez, deveriam agir de forma célere para instalar novas infraestruturas, desde estações de carregamento para carros elétricos até bairros com ruas projetadas para pedestres.

 

Ao mesmo tempo, já podemos agir no aumento da remoção de CO2, tanto por meio de métodos naturais, como protegendo e restaurando florestas, quanto por meio de tecnologias, como implantando usinas de captura direta de ar. “A quantidade de [remoção de dióxido de carbono] que será necessária para zeramos as emissões dependerá do quanto somos capazes de cortar emissões: quanto mais emitimos, mais precisaremos remover”, afirma Dodds. “Para ficarmos seguros, então, devemos ter como objetivo a restauração do clima, além da remoção constante e permanente do excesso de CO2 atmosférico. Assim, retornaríamos aos níveis pré-industriais e garantiríamos um planeta habitável para as gerações futuras. A restauração do clima é uma meta indubitavelmente ambiciosa, mas ela pode ajudar a consolidar políticas e investimentos necessários para aumentar drasticamente nossa capacidade global de remoção de dióxido de carbono.”, explica a CEO.

 

Os cálculos do que é necessário para zerar as emissões até 2050 já partem do princípio de grandes quantidades de CO2 serão removidas. Muitos cenários também presumem que “ultrapassaremos” a meta de 1,5 grau e que, depois que a temperatura estabilizar, teremos que recorrer à remoção de CO2 para começar a baixá-la.  Entretanto, o mundo poderia fazer a escolha de agir mais rapidamente na descarbonização e de recorrer com mais frequência à remoção de CO2, para baixar a temperatura global ainda mais.

A pergunta que fica para a sociedade é: estamos dispostos a fazer mais? “Quase tudo é possível quando concentramos esforços, energia e recursos suficientes no desafio”, diz Damon Matthews, professor e chefe de pesquisa em ciências climáticas e sustentabilidade na Concordia University. “Acho que um ano e meio atrás, a maioria das pessoas diria que era impossível governos forçarem cidadãos a ficarem em casa por um ano e não viajarem… ou uma vacina ser criada dentro de apenas um ano em caso de uma emergência pandêmica. Esses são êxitos muito raros na escala do possível, mas ainda assim, os alcançamos. Ou seja: sim, é possível alcançar uma meta climática ambiciosa, mas precisamos admitir isso e torná-la uma prioridade.”

SOBRE A AUTORA

Adele Peters é uma autora da equipe da Fast Company e se concentra em soluções para alguns dos maiores problemas do mundo, desde mudanças climáticas até a falta de moradia.