POR PETER HOWSON

Quanto você estaria disposto a pagar por uma obra de arte única? Para alguns colecionadores, o limite reside no campo de algumas centenas de milhões de dólares. E quanto a uma arte que não possui formato tangível, existe somente como um token digital que não é mais real do que um arquivo jpeg? Bem-vindo ao estranho mundo das criptoartes colecionáveis, também conhecidas como NFTs.

Como a bitcoin, os NFTs (tokens não fungíveis) são moedas criptografadas. Mas enquanto bitcoins individuais têm o mesmo valor, NFTs são mais parecidas com cartões de baseball. Cada token tem um valor diferente e não podem ser utilizados para comprar coisas. Existem somente no computador como representações de obras de arte, músicas, filmes, games, entre outros.

Os NFTs estão por aí desde 2017, quando o primeiro experimento mainstream em colecionáveis criptografados emergiu: CryptoKitties. O preço médio de cada um desses cartões de gatinhos era US$ 60. Mas isso é nada perto dos valores atuais. Direitos a uma única imagem digital foram vendidos a US$ 69,3 milhões. O CryptoPunk 7804 (um alien rudemente desenhado com um cachimbo) foi vendido por US$ 7,5 milhões. Uma casa em Marte foi comprada por US$ 500.000. Uma casa digital, não uma casa na qual se pode viver. Jack Dorsey, CEO do Twitter, recentemente vendeu seu primeiro tweet como um NFT por US$ 3 milhões.

“Mas como alguém pode comprar um tweet?”, você pode estar se perguntando. Afinal de contas, qualquer pessoa pode acessar esse post, dar print e enquadrar o tweet quantas vezes quiser.

Uma vez que você compra um NFT, você obtém o certificado único de posse, que é registrado em uma base dados imutável chamada blockchain. O criador da obra geralmente detém o copyright e, na maioria dos casos, você fica com pouco mais do que os direitos temporários. Criadores também tendem a passar para você os custos de criação dos arquivos de NFT.

Mas, na maioria das vezes, a pessoa é responsável por uma pegada de carbono enorme.

CONTABILIZANDO O CUSTO DE CARBONO DOS NFTS

Porque dependem do blockchain, os NFTs usam muita energia. A maioria dos criadores ainda usam o Ethereum, um blockchain que utiliza um sistema similar ao da bitcoin. Isso envolve uma função de energia intensa de computador chamada “mining”. Computadores especialistas em mining se alternam para adivinhar a combinação para uma senha digital (uma longa sequência de dígitos aleatórios). O computador que adivinha corretamente a combinação ganha uma recompensa paga em criptomoeda chamada Ether. O código digital reseta a cada 15 segundos e a competição continuam. O Ethereum consome cerca de 31 terawatt-horas de eletricidade por ano, quase tanto quanto a Nigéria.

É muito difícil calcular exatamente quanta responsabilidade a indústria de NFT deve assumir pelas emissões de carbono do Ethereum. O Etherium rodaria com ou sem NFTs. Mas com a crescente demanda por arte digital, os compradores e vendedores de NFT estão se tornando responsáveis pelo consumo de energia do Ethereum e alguns artistas estão começando a pensar duas vezes.

A artista francesa Joanie Lemercier recentemente cancelou a venda de seis trabalhos depois de calcular os custos de energia. A venda demandaria, em apenas 10 segundos, eletricidade suficiente para alimentar o estúdio da artista por dois anos.

O ArtStation, site para artistas exibirem seus portfólios, desenvolveu um marketplace de NFTs. Mas somente horas depois de anunciar o lançamento da plataforma, as reprovações nas redes sociais forçaram o site a voltar atrás com o projeto.

Existem alternativas para os mercados de NFT sem a dor de cabeça causada pelo carbono. Algumas sidechains usam quantidades insignificantes de energia para processar NFTs porque essas transações ocorrem em plataformas mais centralizadas em que custos (e pegadas de carbono) são muito mais baixas.

Damien Hirst deve lançar uma coleção de NFTs chamada The Currency Project utilizando a sidechain Palm. Porém ele também vai aceitar o pagamento em bitcoin, então os NFTs também podem vir com uma bagagem robusta de carbono.

OBTENDO LICENÇA ARTÍSTICA COM SOLUÇÕES CLIMÁTICAS

Os entusiastas de NFT argumentam que a popularidade da tecnologia blcokchain, junto com seu apetite voraz por energia, traz incentivos para soluções de energia que vão de combustíveis fósseis a fontes renováveis. Justificativas similares foram feitas pela indústria aérea: para fundamentar as inovações de eficiência que tornariam a aviação mais verde, as pessoas deveriam voar mais, não menos. Devido a natureza competitiva do mining, os mercados de NFT estão encorajando a construção de estações de energia a carvão para que os mineradores de criptomoeda não tenham de sofrer com o acesso intermitente a geração renovável.

Alguns criadores de NFT estão tentando compensar as emissões de carbono. Cada crédito de carbono comprado equivale a uma tonelada de carbono salvo, que é conservado em uma árvore ou impedido de escapar na atmosfera por meio de alguma inovação industrial. A Offsetra oferece uma calculadora de emissões e vende créditos de carbono para compensar emissões causadas pelas transações de NFT. O Nifty Gateway, marketplace de NFT, recentemente fez um leilão de oito NFTs carbon free inspirado pela crise climática. As obras receberam 60 créditos de carbono.

Os créditos de carbono de NFTs se apoiam em uma contabilidade atenta e na crença de que o carbono, como NFTs em uma blockchain, podem ficar trancados em árvores para sempre. Não podem. O site da Nifty explica que compensações fazem sentido para neutralizar emissões inevitáveis, “depois de termos feito todo o possível para reduzir nossa pegada de carbono.”

Mas adquirir direitos a uma imagem digital da qual qualquer um com uma conexão de internet pode usufruir constitui uma parte inevitável da pegada de carbono?

SOBRE O AUTOR

Peter Howson é conferencista sênior em desenvolvimento internacional da Northumbria University, em Newcastle.